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​No princípio era a pedra, o destino e o chão. E a pedra era dura, sem ter compaixão. Mas o homem pequeno, de vontade pura, Venceu o abismo com a sua loucura. Ferro na rocha, o malho e a pá, O sangue vertido que a terra beberá. Assim nasceu o Reino, sagrado e veloz, Dos nossos pais e dos nossos avós. ​Sol que é um incêndio que queima a pele, Vento de fogo que o destino repele. Mãos cheias de calos, de febre e de espinho, Mas olhos profundos olhando para o vinho. Ó Douro antigo, de rosto brutal, Livro de xisto, altar ancestral. Cada muro é um verso que o tempo não move, Cada vinha é um salmo que a alma consome. ​Ao pôr do sol, quando a uva descansa, O homem amadurece em estranha esperança. As sombras descem, mantos de mistério, Cobrem o cansaço deste império. O silêncio é uma prece no dia que finda, Escutando na terra a voz que é linda, De um passado imenso, de luz e de cor, Que guarda o segredo do meu amor. ​Olhai para o Rio, esse espelho sagrado, Caminho das almas, do tempo parado. Não corre ali água, mas sim a memória, Do xisto azulado lavrado em glória. O Rio é o barqueiro que leva o cansaço, Unindo os vivos num eterno abraço. É a veia aberta que a montanha conduz, Levando o lodo em correntes de luz. ​Vejo a fauna que dança no reino das fragas, As flores que resistem às velhas pragas. O voo da águia, guardiã do que é puro, Do que ninguém quebra no tempo futuro. Este não é um vale de posses ou tronos, É um reino de deuses que não têm donos. Feito de suor, de silêncio e de fé, Onde o xisto se faz pão e o homem se mantém de pé. ​Houve tempos de sombra e de rudes ruturas, Anos de luto com doenças sem curas. Lágrimas que caíram na videira esquecida, Como feridas abertas na própria vida. Mas o Douro não verga, o Douro é um clarão, Ergue-se da pedra com força e paixão. Pois quem nasce do xisto e bebe o seu fogo, Sabe que a morte é apenas um jogo. ​Eu sou filho desta encosta, duriense de verdade, Sou o passado vivo nesta dura realidade. Quando ergo o meu copo ao céu do levante, Levanto o sangue de um povo gigante. Não é apenas vinho, é o eco de um canto, É a força dos que lutaram entre o riso e o pranto. Que o mundo respeite o Douro por favor, Pois o Douro morre de dor... ​Victor Marques Douro Portugal ​
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Feb 15
Feb 15, 2026 at 3:52 PM UTC
Vento de fogo
​No princípio era a pedra, o destino e o chão. E a pedra era dura, sem ter compaixão. Mas o homem pequeno, de vontade pura, Venceu o abismo com a sua loucura. Ferro na rocha, o malho e a pá, O sangue vertido que a terra beberá. Assim nasceu o Reino, sagrado e veloz, Dos nossos pais e dos nossos avós. ​Sol que é um incêndio que queima a pele, Vento de fogo que o destino repele. Mãos cheias de calos, de febre e de espinho, Mas olhos profundos olhando para o vinho. Ó Douro antigo, de rosto brutal, Livro de xisto, altar ancestral. Cada muro é um verso que o tempo não move, Cada vinha é um salmo que a alma consome. ​Ao pôr do sol, quando a uva descansa, O homem amadurece em estranha esperança. As sombras descem, mantos de mistério, Cobrem o cansaço deste império. O silêncio é uma prece no dia que finda, Escutando na terra a voz que é linda, De um passado imenso, de luz e de cor, Que guarda o segredo do meu amor. ​Olhai para o Rio, esse espelho sagrado, Caminho das almas, do tempo parado. Não corre ali água, mas sim a memória, Do xisto azulado lavrado em glória. O Rio é o barqueiro que leva o cansaço, Unindo os vivos num eterno abraço. É a veia aberta que a montanha conduz, Levando o lodo em correntes de luz. ​Vejo a fauna que dança no reino das fragas, As flores que resistem às velhas pragas. O voo da águia, guardiã do que é puro, Do que ninguém quebra no tempo futuro. Este não é um vale de posses ou tronos, É um reino de deuses que não têm donos. Feito de suor, de silêncio e de fé, Onde o xisto se faz pão e o homem se mantém de pé. ​Houve tempos de sombra e de rudes ruturas, Anos de luto com doenças sem curas. Lágrimas que caíram na videira esquecida, Como feridas abertas na própria vida. Mas o Douro não verga, o Douro é um clarão, Ergue-se da pedra com força e paixão. Pois quem nasce do xisto e bebe o seu fogo, Sabe que a morte é apenas um jogo. ​Eu sou filho desta encosta, duriense de verdade, Sou o passado vivo nesta dura realidade. Quando ergo o meu copo ao céu do levante, Levanto o sangue de um povo gigante. Não é apenas vinho, é o eco de um canto, É a força dos que lutaram entre o riso e o pranto. Que o mundo respeite o Douro por favor, Pois o Douro morre de dor... ​Victor Marques Douro Portugal ​
Vento fogo Douro rio alma
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Feb 15
Feb 15, 2026 at 3:52 PM UTC
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