#fogo
Cinzas permanecem. Por isso somos abençoados nas cinzas após todo o fogo se extinguir. O fogo não dura. As cinzas sim. Mesmo se são levadas pelo vento, lavadas pela água ou enterradas na terra. Até mesmo se são postas no fogo novamente. Elas sempre permanecem, não importa o quê.
Sep 13, 2016
Sep 13, 2016 at 8:49 AM UTC
No princípio era a pedra, o destino e o chão.
E a pedra era dura, sem ter compaixão.
Mas o homem pequeno, de vontade pura,
Venceu o abismo com a sua loucura.
Ferro na rocha, o malho e a pá,
O sangue vertido que a terra beberá.
Assim nasceu o Reino, sagrado e veloz,
Dos nossos pais e dos nossos avós.
Sol que é um incêndio que queima a pele,
Vento de fogo que o destino repele.
Mãos cheias de calos, de febre e de espinho,
Mas olhos profundos olhando para o vinho.
Ó Douro antigo, de rosto brutal,
Livro de xisto, altar ancestral.
Cada muro é um verso que o tempo não move,
Cada vinha é um salmo que a alma consome.
Ao pôr do sol, quando a uva descansa,
O homem amadurece em estranha esperança.
As sombras descem, mantos de mistério,
Cobrem o cansaço deste império.
O silêncio é uma prece no dia que finda,
Escutando na terra a voz que é linda,
De um passado imenso, de luz e de cor,
Que guarda o segredo do meu amor.
Olhai para o Rio, esse espelho sagrado,
Caminho das almas, do tempo parado.
Não corre ali água, mas sim a memória,
Do xisto azulado lavrado em glória.
O Rio é o barqueiro que leva o cansaço,
Unindo os vivos num eterno abraço.
É a veia aberta que a montanha conduz,
Levando o lodo em correntes de luz.
Vejo a fauna que dança no reino das fragas,
As flores que resistem às velhas pragas.
O voo da águia, guardiã do que é puro,
Do que ninguém quebra no tempo futuro.
Este não é um vale de posses ou tronos,
É um reino de deuses que não têm donos.
Feito de suor, de silêncio e de fé,
Onde o xisto se faz pão e o homem se mantém de pé.
Houve tempos de sombra e de rudes ruturas,
Anos de luto com doenças sem curas.
Lágrimas que caíram na videira esquecida,
Como feridas abertas na própria vida.
Mas o Douro não verga, o Douro é um clarão,
Ergue-se da pedra com força e paixão.
Pois quem nasce do xisto e bebe o seu fogo,
Sabe que a morte é apenas um jogo.
Eu sou filho desta encosta, duriense de verdade,
Sou o passado vivo nesta dura realidade.
Quando ergo o meu copo ao céu do levante,
Levanto o sangue de um povo gigante.
Não é apenas vinho, é o eco de um canto,
É a força dos que lutaram entre o riso e o pranto.
Que o mundo respeite o Douro por favor,
Pois o Douro morre de dor...
Victor Marques
Douro
Portugal
Feb 15
Feb 15, 2026 at 3:52 PM UTC