
“Adam”
Adam,
filho do pó e da água.
Nasce barro,
moldado
entre dedos e amor,
som crocante e molhado,
formando imagem e semelhança
do Criador.
Quente sopro de vida
preenche o barro,
a terra que agora, em carne,
vive no mundo habitável.
Vivente entre víveres,
estuda-os
e os entende.
O conhecimento do outro
ensina sobre si mesmo.
Semelhanças pontuais,
diferenças marcantes.
Encontros
que não se reconhecem.
O propósito da vida
pesando:
ter norte,
mas não continuidade.
O ser conjugado em sermos,
serdes
e sejam.
Adam coexistia entre pares.
Olhos nos olhos.
Sons e vozes.
Desencontros.
No topo das árvores,
o chacoalhar das folhas
dando som aos ventos.
O pólen se espalha
e brotos nascem.
Em seus ombros,
aves.
Nas águas,
peixes.
Toda vida retornava
a um semelhante.
Nessas presenças,
a ausência do outro igual.
A solidão de Adam
não cabia em palavras.
Silêncio entre vozes.
Adam, na conjugação do ser:
era presente.
No futuro,
seria só.
E, na não perfeição divina,
humano que era,
conjugava silêncio.
Não havia verbo,
nem ação,
que conjugasse solidão.
May 22
May 22, 2026 at 10:07 PM UTC
Quando o céu
estende seu pergaminho de estrelas,
despindo se do falso azul, tom fraco.
Nua, a negrura revela
a força autônoma das constelações.
Seduz a humanidade:
filhos planeta Terra, não degenera
o externo corpo opaco ,
por dentro, lama e magma.
Lumen da alma à meia-luz,
A liquidez do intentos
depurados,
inconfessos ,
evaporam da consciência
aos *** seus feitos.
Foi dado ao homem,
ainda noite,
sinais e direção:
segue estrelares luzeiros,.
Se descobrir-se seu norte,
Ao contrário,
busca perder-se?
silêncio
O breu te esconderá
e logo o escuro te será claro,
olhos leoninos.
Constante é a viagem da luz no espaço:
estrelas mortas polemizam energia e calor,
assistem ao espetáculo,
ao baile gravitacional.
Girando, girando, a Terra opaca,
lama e magma explodem,
derramam alma incandescente,
queima e endurece.
Tela atmosférica de cores dinâmicas,
luz e sombra,
nuvem e chuva
abençoam e desgraçam a todos
sem distinção.
Luz-dia, luz-noite.
A Terra segue girando
no oceano sideral,
dança em seu habitat orbital,
temporiza, ano a ano,
diverte-se com o Sol,
juiz que brilha.
Sua luz é vida e morte
aos terráqueos opacos.
Senhora Noite,
Nudez bordada em astros.
lumes celestes.
Debruça-se no céu
sem recato,
testemunha de crimes,
da justiça.
Relatando os Deus
Na mesma tessitura,
retórica do gesto:
testemunha do Criador e de seus feitos.
Noite inteira, de noite em noite,
grandezas reveladas em silêncio,
pergaminho aberto.
Sobriedade refletida:
a noite clareia a consciência
obscurecida na ignorância.
Nela há vozes, sons, falas:
sapos coaxam ironias,
gatos insinuam,
miam, ronronam,
cio estridente.
Os sons do dia, barulhentos,
silenciam.
Prenuncia-se a noite.
Em respeito às vozes noturnas:
sussurros, gemidos,
o latejar da consciência.
O céu desbota tintas em chuva
e recebe em vapor aquecido
vaidades e desejos.
Em nuvens de chuva ácida,
caem sobre nós, profundas,
nossas próprias maldades.
Na quietude da madrugada,
a ausência da luz evidencia:
a goteira da pia
vira corneta atalaia.
Gota a gota acusa, perturba
aqueles que, fantasiados de dia,
à noite estão nus e crus.
Trevas trazem luz
ao que, exposto à vista, se oculta.
Como o leão escondido,
dormindo,
a noite ataca e come.
De dia, sol.
À noite, lua.
Divisor de hábitos,
tão escuro que conforta
o despir moral.
Traz à tona o pior ou o melhor.
Escuridão que ilumina:
alguns brilham neon,
outros alertam.
Noite contrastante,
natureza ambivalente:
luz e trevas em xeque.
Cegas-te à vista
e ignoras o Criador
que em luz e sombra
escreve autobiografia.
Vislumbra-se
o próprio crepúsculo,
opaco Edon.
May 22
May 22, 2026 at 10:06 PM UTC
Hoje,
presente,
acontece em
milésimos de segundo,
incompletude eterna,
tempo que é,
se esvai em milésimos,
é sendo, não é.
A Terra gira sua face,
ocultando-se do sul,
flertando com a lua.
Tonteia a percepção
do passar do tempo,
que não passa de milésimos.
Gira.
Pião de água, terra e lava,
carregando gente como carrapato,
de ponta-cabeça no espaço.
Percebo apenas o sol:
interruptor ligado.
À noite, desligado.
O tempo se vai.
Não sei como.
Mas empurra.
Outro dia.
Outra boa-noite.
O presente gera passado
e nunca alcança o futuro,
será que este existe?
Se tudo são instantes de presente,
passado e futuro
são reais
ou convenção?
Nuvens, cinzas, prenúncia,
navegam no céu
como um ser aquático,
de milésimo em milésimo,
em
centímetro a centímetro,
milésimos,
esse é meu real.
Nuvem navegante,
viaja no tempo?
Ou o desafia?
De onde se formaste,
a distância navegada
para trás ficou
e para onde vai,
milésimo de milésimo
aqui ainda não chegou,
meu futuro és
se esvaindo
em
milésimo de milésimo
e
indo,
o agora,
milésimos de milésimos
continuo vê-la,
a nuvem
que passou,
meu passado
é futura chuva
ao mesmo tempo
tempo de milésimo.
O presente é real?
Ou acordo coletivo?
As estações persistem
nesses milésimos.
Estacionadas.
Não importa o que dizem do tempo.
Constato cinza permanente.
Frio.
Vento.
O ar se move,
varrendo folhas,
verificando o pulso
nos braços das árvores.
Livre,
carrega o gélido fúnebre
da morte da luz.
O sol zangou-se daqui?
Entregou-se ao hemisfério que quis?
Ou foi o pião
que birra, se inclina
e finge não precisar de calor?
Chove todo dia.
Sem parar.
Ou parando o tempo.
Chove em passar.
Pinga no telhado.
Que pinga na minha cabeça.
Escorre no corpo
com a frieza de uma lâmina.
Pingos na paisagem.
Respinga em tudo.
Úmido.
Chuva como lágrimas da nuvem.
Choro como olhos de nuvem.
Escorre.
Pinga.
Molhada dor.
Sentimento navegando
no inverno da alma.
May 22
May 22, 2026 at 10:04 PM UTC
Eu, matéria opaca em presença estática,
rebelde à conjugação temporal,
ser cansado,
de pijama eterno,
fito o então jardim,
que o era bem antes de mim,
paralelamente coexistentes separados por lentes vitrais,
minha janela, silenciosamente translucida,
transmite a grama, brotando o que é,
paradoxal ao tempo,
que conjuga nascer o ser que repete descender:
é hoje o que ontem foi diferentemente do que é,
o mesmo amanhã será.
Irreconhecível grama que é,
será o que jamais foi,
sendo ainda o que é —
de novo em novo,
mesmo em mesmo,
bordado em outros,
compondo cada um em si,
nos outros,
em outros.
E sois,
sendo ou ausentando,
ecoando ainda assim o que é.
O tempo que em mim vivo:
sepultado em terra,
varrido pelo vento,
concretado em máquinas,
brotando em verde —
o novo antigo que será.
May 22
May 22, 2026 at 10:00 PM UTC
shiii…
Sonoro arranhar da
agulha,
friamente na lisura
do disco.
Lado A exposto.
Extrai
circularmente
o blues,
nascido
do som sujo,
da tensão
de notas
entre
notas.
Voltas do giro,
grave
e baixo.
Do escuro,
plateia, silencio
tocada em dó, mi, fá, sol
Em si, testemunhava.
Deponho:
Como uma boneca de pano
você dançava
ritmados socos
e chutes.
Como uma boneca de pano
você voava
e nem chorava.
Acho que bonecas de pano
não choram.
Você não rasgava
e não quebrava.
Doía muito?
Como você suportou?
Não precisou remendar?
Deixa eu te dar um beijo.
Você suportava calada,
já sabia o que fazer
para satisfazer
o desejo do mal.
Shiii…
Arranha a lisura,
circular o disco.
Notas rápidas do blues,
notas que
amassam,
puxam,
cabelos voam.
Não é tocar limpo,
é tocar
com nervo.
Alucinante ritmo,
latejando em
minutos intermináveis.
Silencioso
choro engolido
a seco.
Noites infindáveis.
Sonhos findáveis.
A escuridão noturna
aqui dentro,
agora.
Alma foge,
inconsciente
dos múltiplos golpes,
afundando a carne,
transfigurando identidade,
amortecendo a vida.
Morta-viva.
Boneca de pano.
Shiii...
Não acordes.
Preces repetidas
em Dó maior,
como disco arranhado.
Reza repetida,
mais uma vez.
Dias em círculos.
Talvez Deus não goste
de bonecas de pano.
A noite girou,
o dia raiou,
e o automático
braço da agulha
foi
interrompido.
A boneca de pano,
em Sol, ecoou.
Recompensa
à bravura resiliente:
em notas limpas
faz do blues
jazz.
Mágica transformação,
Boneca em pessoa,
pano em pele,
choro em riso.
Terror em paz,
noites de sono.
Bom dia,
mulher inteira,
de retalhos
coloridos.
May 22
May 22, 2026 at 9:55 PM UTC
E disse, vibrou e formou…
Vendo o que fez,
poema.
Etimologicamente:
Mãe Grega.
Contemplando rebentos
do oculto… à luz.
Essência verbalizada.
Quem primeiro vibrou
como cordas em notas,
palato, glote, língua…
sons em códigos vivos?
E disse, vibrou e formou…
Vendo o que fez,
poema.
Fonéticos codificados,
descodificados… geram
vida…
ou a matam.
Recém-nascidos,
expirando o sopro internalizado,
contorcem-se em vida
de cordas vocais, sons oralizando…
balbuciando ao mundo
a existência retumbante,
timbrando a história…
acordes singulares entoados.
E disse, vibrou e formou…
Vendo o que fez,
poema.
Tudo e todos,
nascidos de uma vontade,
material, visível ou sensorial…
nascem poema.
Poemas, palavras são intentos…
verdadeiros ou mentirosos,
trazem em si notas distintas.
E disse, vibrou e formou…
Vendo o que fez,
poema.
Ouvir, pensar…
te fará protegida
das construções…
ou em construções protetoras.
Nas páginas da vida,
sua existência tem trazido
poemas declamados:
nefastos… transtornando
em rimas as métricas construídas,
ou harmônicas, rítmicas…
rimas de amor transformando
vidas em composições
retumbantes por gerações.
E disse, vibrou e formou…
Vendo o que fez,
poema.
May 22
May 22, 2026 at 9:48 PM UTC