Hello Poetry
Submit your work and get some sparkles! Create free account
O Cântico do Douro que Ainda Não Foi Ouvido No princípio não foi o mercado. Nem o preço. Nem o contrato. Foi a terra. E antes da terra, foi o silêncio. Um silêncio antigo, mais velho que impérios, onde o xisto se partiu para dar lugar à raiz, e a raiz chamou o homem. Ali nasceu o Douro não como região, mas como consciência viva. Entre montanhas que falam em ecos de Mesopotâmia, nos gestos herdados de Anatólia, e na memória líquida do Mediterrâneo, o vinho sempre foi mais do que bebida: foi ponte. foi sangue. foi linguagem entre deuses e homens. E no Douro esse altar inclinado sobre o tempo o vinho não se faz: revela-se. Mas eis que chegaram os números, as contas frias, os mercados sem rosto. E aquilo que era sagrado foi medido em cêntimos. Aquilo que era herança foi reduzido a custo. Aquilo que era destino foi negociado como excedente. E o homem do Douro guardião de séculos, filho do sol e da pedra foi empurrado para a margem daquilo que ele próprio criou. Mas há leis que não se escrevem em papel. Há leis que vivem na terra. E a terra… nunca esquece. Tal como nas vinhas antigas, onde cada cepa guarda a memória de mil estações, também o Douro guarda uma verdade inevitável: Nenhum sistema que nega o valor da origem pode sobreviver ao tempo. Hoje fala-se de aguardente, de dentro e de fora, de custos e equilíbrios. Mas isso é apenas a superfície. Porque no fundo no fundo verdadeiro a questão é outra: Quem tem o direito de definir o valor daquilo que nasce da terra? O Viticultor não responde com revolta. Responde com visão. Porque ele sabe: o Douro não precisa de gritar. Precisa de despertar. E esse despertar virá. Como veio o vinho às civilizações antigas, como veio a luz às catedrais invisíveis do espírito, como vem sempre a verdade quando o tempo amadurece. Haverá um tempo não anunciado por decretos, nem controlado por interesses em que: a aguardente voltará à sua origem o vinho voltará à sua dignidade e o homem voltará ao centro do valor Nesse tempo, o Douro deixará de pedir permissão. E passará a afirmar-se como aquilo que sempre foi: um dos últimos territórios sagrados do mundo. E então, quem hoje compra barato terá de aprender a respeitar. Quem hoje controla terá de aprender a partilhar. E quem sempre resistiu em silêncio, em pedra, em suor será finalmente reconhecido. Porque o vinho… não esquece quem o fez nascer. E a terra… não trai quem a honra. 🌿 Victor Marques Douro
0
Mar 31
Mar 31, 2026 at 7:51 AM UTC
O Cntico do Douro que Ainda No Foi Ouvido
O Cântico do Douro que Ainda Não Foi Ouvido No princípio não foi o mercado. Nem o preço. Nem o contrato. Foi a terra. E antes da terra, foi o silêncio. Um silêncio antigo, mais velho que impérios, onde o xisto se partiu para dar lugar à raiz, e a raiz chamou o homem. Ali nasceu o Douro não como região, mas como consciência viva. Entre montanhas que falam em ecos de Mesopotâmia, nos gestos herdados de Anatólia, e na memória líquida do Mediterrâneo, o vinho sempre foi mais do que bebida: foi ponte. foi sangue. foi linguagem entre deuses e homens. E no Douro esse altar inclinado sobre o tempo o vinho não se faz: revela-se. Mas eis que chegaram os números, as contas frias, os mercados sem rosto. E aquilo que era sagrado foi medido em cêntimos. Aquilo que era herança foi reduzido a custo. Aquilo que era destino foi negociado como excedente. E o homem do Douro guardião de séculos, filho do sol e da pedra foi empurrado para a margem daquilo que ele próprio criou. Mas há leis que não se escrevem em papel. Há leis que vivem na terra. E a terra… nunca esquece. Tal como nas vinhas antigas, onde cada cepa guarda a memória de mil estações, também o Douro guarda uma verdade inevitável: Nenhum sistema que nega o valor da origem pode sobreviver ao tempo. Hoje fala-se de aguardente, de dentro e de fora, de custos e equilíbrios. Mas isso é apenas a superfície. Porque no fundo no fundo verdadeiro a questão é outra: Quem tem o direito de definir o valor daquilo que nasce da terra? O Viticultor não responde com revolta. Responde com visão. Porque ele sabe: o Douro não precisa de gritar. Precisa de despertar. E esse despertar virá. Como veio o vinho às civilizações antigas, como veio a luz às catedrais invisíveis do espírito, como vem sempre a verdade quando o tempo amadurece. Haverá um tempo não anunciado por decretos, nem controlado por interesses em que: a aguardente voltará à sua origem o vinho voltará à sua dignidade e o homem voltará ao centro do valor Nesse tempo, o Douro deixará de pedir permissão. E passará a afirmar-se como aquilo que sempre foi: um dos últimos territórios sagrados do mundo. E então, quem hoje compra barato terá de aprender a respeitar. Quem hoje controla terá de aprender a partilhar. E quem sempre resistiu em silêncio, em pedra, em suor será finalmente reconhecido. Porque o vinho… não esquece quem o fez nascer. E a terra… não trai quem a honra. 🌿 Victor Marques Douro
Douro canto vinho
victor-marques
Written by
Portuguese
Mar 31
Mar 31, 2026 at 7:51 AM UTC
Request permission to use this poem