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O Douro: O Sangue da Pedra O Douro não se explica: sente-se no calo da mão e no silêncio sagrado que precede o rebento. Quando o horizonte de março se incendeia sobre as cristas das montanhas, a terra deixa de ser matéria para se tornar mistério. Não é apenas o inverno que finda; é o xisto que, num suspiro, abre os poros para que a vida o atravesse. Olhar a vinha a despertar é assistir a um milagre de geometria divina: cada "olho" que rasga a madeira velha é uma ressurreição. Ali, o vinho de ontem não morreu; corre, invisível e eterno, na seiva de hoje. Ouve-se o canto dos pássaros, mas para os iniciados nesta mística, esse som é o cântico de uma catedral sem teto. É a primavera que desce sobre os socalcos como um véu de luz filtrada, onde cada videira é uma prece erguida ao sol. O vinho é o sangue destilado desta pedra e eu, embora homem de um tempo só, sinto que habito estas encostas há milénios. Ao cair do sol, quando o frio reclama a energia que a terra guardou, a noite desperta com o rumor do invisível. É o latejar da montanha a ajustar-se, da água que vicia as fendas profundas e das criaturas que guardam este altar. Sob um manto de estrelas que quase roça os cumes, a imortalidade revela-se: o homem é breve, o testemunho é entregue, mas a vinha permanece imutável no seu destino de transmutar a pedra em luz líquida. "Plantar uma vinha no Douro é escrever uma obra sem fim. É a única forma que conheço de aprisionar a eternidade." Victor Marques Douro Portugal
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Mar 6
Mar 6, 2026 at 12:45 PM UTC
O Douro: o sangue da pedra
O Douro: O Sangue da Pedra O Douro não se explica: sente-se no calo da mão e no silêncio sagrado que precede o rebento. Quando o horizonte de março se incendeia sobre as cristas das montanhas, a terra deixa de ser matéria para se tornar mistério. Não é apenas o inverno que finda; é o xisto que, num suspiro, abre os poros para que a vida o atravesse. Olhar a vinha a despertar é assistir a um milagre de geometria divina: cada "olho" que rasga a madeira velha é uma ressurreição. Ali, o vinho de ontem não morreu; corre, invisível e eterno, na seiva de hoje. Ouve-se o canto dos pássaros, mas para os iniciados nesta mística, esse som é o cântico de uma catedral sem teto. É a primavera que desce sobre os socalcos como um véu de luz filtrada, onde cada videira é uma prece erguida ao sol. O vinho é o sangue destilado desta pedra e eu, embora homem de um tempo só, sinto que habito estas encostas há milénios. Ao cair do sol, quando o frio reclama a energia que a terra guardou, a noite desperta com o rumor do invisível. É o latejar da montanha a ajustar-se, da água que vicia as fendas profundas e das criaturas que guardam este altar. Sob um manto de estrelas que quase roça os cumes, a imortalidade revela-se: o homem é breve, o testemunho é entregue, mas a vinha permanece imutável no seu destino de transmutar a pedra em luz líquida. "Plantar uma vinha no Douro é escrever uma obra sem fim. É a única forma que conheço de aprisionar a eternidade." Victor Marques Douro Portugal
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