Dizem que o Douro é uma paisagem moldada pelo homem, mas quem lá nasce sabe a verdade: é o Douro que nos molda a nós.
Eu não olho para estes socalcos como quem vê um postal. Eu vejo-os como quem lê as cicatrizes na palma da própria mão. Nasci a 27 de novembro sob o signo do rigor e da entrega, e desde então o meu sangue corre no mesmo ritmo que o rio.
Ser Vigneron aqui não é um cargo, é um destino. É saber que o vinho que hoje corre no copo começou a ser desenhado há muitos anos atrás, no suor dos animais, no apito do comboio que levava os nossos rapazes e no peso heróico dos cestos de verga. O mundo lá fora corre, grita e muda. Mas aqui, entre a videira e o rio, o tempo tem outro compasso.
Escrevi estas palavras porque o vinho tem voz, mas às vezes precisa que alguém lhe empreste os pulmões. O que vão ouvir não é apenas um poema... é o eco de uma ferradura que ainda bate no meu peito.
Sou Xisto, Sou Vinho
Não sou apenas homem sou raiz e sou pedra,
Nascido no socalco onde o silêncio medra.
O meu olhar não vê só a videira a brotar,
Vê séculos de brio que a montanha quis guardar.
O Douro é um livro com páginas de xisto,
Onde escrevo, com a poda, o que ainda não foi dito.
Vi aldeias vibrantes, o pulsar da vida inteira,
Quando a mão era o compasso e a única medida.
Lembro o comboio o apito a rasgar o vale,
Levando o rapaz, o seu sotaque banal.
E o bater dos cascos ferro vivo contra o chão,
Música antiga de força, suor e devoção.
Nas fontes velhas, o bicho matava o cansaço,
Enquanto o sol, no horizonte, se partia em pedaço.
Machos e mulas, o dorso em pura tensão,
Abriam sulcos de esperança na face da nação.
O cesto às costas? Era o peso do destino,
Levado por homens de passo firme e divino.
Muitos anos passaram, o mundo ali acelerou,
Mas o vinho que eu faço... esse nunca mudou.
Porque no meu copo vive a velha ferradura,
O frescor da fonte e a da minha doçura.
Sou Vigneron, guardião desta memória antiga,
Transformo o passado no vinho que me abriga.
Victor Marques
Douro
Portugal
Feb 1
Feb 1, 2026 at 4:11 AM UTC
Dizem que o Douro é uma paisagem moldada pelo homem, mas quem lá nasce sabe a verdade: é o Douro que nos molda a nós.
Eu não olho para estes socalcos como quem vê um postal. Eu vejo-os como quem lê as cicatrizes na palma da própria mão. Nasci a 27 de novembro sob o signo do rigor e da entrega, e desde então o meu sangue corre no mesmo ritmo que o rio.
Ser Vigneron aqui não é um cargo, é um destino. É saber que o vinho que hoje corre no copo começou a ser desenhado há muitos anos atrás, no suor dos animais, no apito do comboio que levava os nossos rapazes e no peso heróico dos cestos de verga. O mundo lá fora corre, grita e muda. Mas aqui, entre a videira e o rio, o tempo tem outro compasso.
Escrevi estas palavras porque o vinho tem voz, mas às vezes precisa que alguém lhe empreste os pulmões. O que vão ouvir não é apenas um poema... é o eco de uma ferradura que ainda bate no meu peito.
Sou Xisto, Sou Vinho
Não sou apenas homem sou raiz e sou pedra,
Nascido no socalco onde o silêncio medra.
O meu olhar não vê só a videira a brotar,
Vê séculos de brio que a montanha quis guardar.
O Douro é um livro com páginas de xisto,
Onde escrevo, com a poda, o que ainda não foi dito.
Vi aldeias vibrantes, o pulsar da vida inteira,
Quando a mão era o compasso e a única medida.
Lembro o comboio o apito a rasgar o vale,
Levando o rapaz, o seu sotaque banal.
E o bater dos cascos ferro vivo contra o chão,
Música antiga de força, suor e devoção.
Nas fontes velhas, o bicho matava o cansaço,
Enquanto o sol, no horizonte, se partia em pedaço.
Machos e mulas, o dorso em pura tensão,
Abriam sulcos de esperança na face da nação.
O cesto às costas? Era o peso do destino,
Levado por homens de passo firme e divino.
Muitos anos passaram, o mundo ali acelerou,
Mas o vinho que eu faço... esse nunca mudou.
Porque no meu copo vive a velha ferradura,
O frescor da fonte e a da minha doçura.
Sou Vigneron, guardião desta memória antiga,
Transformo o passado no vinho que me abriga.
Victor Marques
Douro
Portugal
