#marques
A la final me dejé de tantos tecnicismos. De tantos margenes y cánones.
Me aburrí del molde cortazariano y de los coloquios de García Márquez.
Me cansé de tantos esquemas y lineas.
Las palabras cursis no enamoran a todas las chicas.
Y menos a ti. Y a ti que no te gusta la melancolía ni los suspiros ni las tardes frías.
A ti que no te gustan las cosas tan profundas; ni Cultura Profética ni Vicente García.
Así que te escribí esa carta en la que te decía lo que sentía.
Y recuerdo que cuando te dije que te escribí una carta de amor en mi cara te reíste y me dijiste que aborrecías.
Ay, cariño. Bastante cara me saliste.
Mucho gasté en rosas y chocolates que a la final no te entregué.
Y ahora me encapsulo de nuevo en mis moldes.
Y supongo que después de tu fiasco más nunca de nuevo saldré.
Jun 19, 2014
Jun 19, 2014 at 7:12 PM UTC
Dizem que o Douro é uma paisagem moldada pelo homem, mas quem lá nasce sabe a verdade: é o Douro que nos molda a nós.
Eu não olho para estes socalcos como quem vê um postal. Eu vejo-os como quem lê as cicatrizes na palma da própria mão. Nasci a 27 de novembro sob o signo do rigor e da entrega, e desde então o meu sangue corre no mesmo ritmo que o rio.
Ser Vigneron aqui não é um cargo, é um destino. É saber que o vinho que hoje corre no copo começou a ser desenhado há muitos anos atrás, no suor dos animais, no apito do comboio que levava os nossos rapazes e no peso heróico dos cestos de verga. O mundo lá fora corre, grita e muda. Mas aqui, entre a videira e o rio, o tempo tem outro compasso.
Escrevi estas palavras porque o vinho tem voz, mas às vezes precisa que alguém lhe empreste os pulmões. O que vão ouvir não é apenas um poema... é o eco de uma ferradura que ainda bate no meu peito.
Sou Xisto, Sou Vinho
Não sou apenas homem sou raiz e sou pedra,
Nascido no socalco onde o silêncio medra.
O meu olhar não vê só a videira a brotar,
Vê séculos de brio que a montanha quis guardar.
O Douro é um livro com páginas de xisto,
Onde escrevo, com a poda, o que ainda não foi dito.
Vi aldeias vibrantes, o pulsar da vida inteira,
Quando a mão era o compasso e a única medida.
Lembro o comboio o apito a rasgar o vale,
Levando o rapaz, o seu sotaque banal.
E o bater dos cascos ferro vivo contra o chão,
Música antiga de força, suor e devoção.
Nas fontes velhas, o bicho matava o cansaço,
Enquanto o sol, no horizonte, se partia em pedaço.
Machos e mulas, o dorso em pura tensão,
Abriam sulcos de esperança na face da nação.
O cesto às costas? Era o peso do destino,
Levado por homens de passo firme e divino.
Muitos anos passaram, o mundo ali acelerou,
Mas o vinho que eu faço... esse nunca mudou.
Porque no meu copo vive a velha ferradura,
O frescor da fonte e a da minha doçura.
Sou Vigneron, guardião desta memória antiga,
Transformo o passado no vinho que me abriga.
Victor Marques
Douro
Portugal
Feb 1
Feb 1, 2026 at 4:11 AM UTC
O Testamento do Xisto e da Vide
Em memória de António Alexandre Marques
No anfiteatro de pedra, onde o tempo se demora,
O sol, monarca de brasa, se deita e cora;
Amadurece o bago, inflama-se o horizonte,
Enquanto o passado murmura na água da fonte.
Sou herdeiro do gesto, do suor e da lida,
Onde a vide é o mastro que sustenta a vida.
Subo socalcos, degraus para o céu,
Rasgando a névoa que o Douro faz véu.
Revejo as mãos de meu pai calos de memória,
E o rasto do avô gravado na história.
Não plantaram apenas bagos na terra agreste:
Semearam raízes no xisto celeste.
Nas veias do rio, onde o xisto é senhor,
Consagro o meu passo, herdeiro da dor.
De um pai que foi tronco, de um avô que foi feliz,
Num reino de Baco que o silêncio bendiz.
António Alexandre, no plano invisível,
Vigia o lagar num zelo indizível.
Oitenta e dois faria, se o fado deixasse,
Mas vive no vinho que em mim renasce.
O frio do granito acolhe o meu passo,
No ventre da adega, em terno abraço.
Onde o bago se rompe, o mistério se expande:
Não há força humana que ali não comande.
Pisa-se a uva, esmaga-se o medo,
Extraindo da casca o mais íntimo segredo.
E as flores da encosta, no odor do engaço,
Dão alma ao perfume que marca o meu traço.
Assisto ao milagre: a vide que chora,
Lágrima pura que a terra devora.
É o sangue dos velhos, místico e profundo,
Que pulsa no centro secreto do mundo.
Não guio apenas a pena ou o arado,
Sou eco vivente de um tempo sagrado.
Se o pai partiu num Setembro de luz,
Cada Novembro o meu verso o traduz.
Sou o Vigneron, o bardo da vinha,
Buscando na terra a rima divina.
O passado é lume, o presente é a lenha,
O futuro é a marca que o Douro desenha.
Nada se apaga no reino do pai:
Onde a vida se colhe, a morte se esvai.
Neste império sagrado de pedra e de fé,
O que foi Alexandre... Victor ainda o é.
Victor Marques
Feb 13
Feb 13, 2026 at 8:02 AM UTC