I - A face negra do amor
Amo-te quando és lua cheia,
clara, imensa, inteira.
Um rio de risos a atravessar as margens inquietas da noite.
Amo-te quando és eclipse:
pedra em silêncio,
um corpo cansado do próprio peso.
Caminho contigo entre tempestades súbitas.
Aprendo que o amor não se mede em calmarias,
mas na coragem de ficar
quando o vento rasga,
quando o sol se parte em dois,
e o coração se abre
como faca num fruto.
Tu és clarão e abismo,
maré que sobe, maré que foge.
E eu, náufraga voluntária,
lanço âncoras no teu peito
sabendo que não há porto seguro,
apenas movimento,
apenas vida em excesso.
Amar-te é desvendar
e tocar
a face negra do amor.
Dar a alma à palmatória,
e entregá-la numa bandeja de vidro aos teus dedos bambos,
sem saber se será acarinhada
ou ferida.
Amar-te é dançar entre dois mundos que jamais se tocam.
E ainda assim,
descobrir beleza
na fratura da luz.
II - A Confissão
Amar-te é perder-me em ti,
na manhã em que acordas sol,
na noite em que te ocultas na neblina.
Eu estendo as mãos, como uma pedinte sem redenção.
Umas vezes recebes-me com um calor tão intenso
que quase me incendeias.
Outras vezes és muralha de gelo
e não há fogo em mim que te atravesse.
E dói.
Dói quando me sorris como se fosse o mundo,
e no instante seguinte me olhas
como se fosse ninguém.
Às vezes sou invisível
no teu nevoeiro de sombras.
Às vezes sou abençoada
na tua explosão de luz.
E fico.
Fico porque sei que és mais do que as tuas marés.
És o oceano inteiro,
mesmo quando o esqueces.
Aprendo a amar-te nos extremos.
A lembrar-te que és digna de amor,
mesmo quando te parece impossível
recebê-lo.
Tentando relembrar-me do mesmo.
Amar-te é a minha coragem mais frágil.
E a minha fragilidade mais corajosa.
III - Amar-te é sangrar devagar
Amar-te é sangrar devagar.
É ver-te incendiar o mundo de manhã,
e à noite implodires em silêncio,
arrastando-me contigo para um buraco
onde o ar não chega.
Há dias em que me atravessas como um relâmpago.
Nesses instantes eu acredito
que o amor basta.
Mas logo depois, fechas todas as portas,
e eu bato, bato,
até as mãos arderem,
até os nós sangrarem,
sem saber se algum dia voltarás a abrir.
Dói-me quando me empurras,
justo quando mais precisas que eu fique.
Dói-me a tua crueldade involuntária e inocente,
as palavras afiadas que não são tuas,
mas que mesmo assim
me ferem.
Ainda assim,
quando te recolhes no silêncio do teu quarto
e tremes de medo de ti mesma,
eu sento-me ao teu lado,
mesmo que não me vejas.
Seguro-te a mão,
e sussurro-te
que não precisas de ser sol constante
para seres amada.
Amar-te é aceitar os teus extremos.
É perder partes de mim no caminho,
livrar-me da pele que já não me serve,
para não me perder de ti.
É ver a beleza
onde outros só veriam caos.
E eu fico.
Mesmo quando partir seria mais fácil.
Fico porque és tu.
E em ti, mesmo quebrada,
há um mundo que eu não consigo abandonar.
Estás entranhada em mim,
e não tenho intenção de te arrancar.
És um monte de pedras lunares,
bonitas e afiadas,
que eu sempre quis abraçar.
Tenho o desejo secreto
de um dia poder usá-las
para construir uma ponte
que permita o nosso encontro a meio,
com a lua em cima de nós a testemunhar.
És tu. E seres tu, basta.
IV- A carta que nunca terás coragem de ouvir
Meu amor,
às vezes eu odeio amar-te,
e tu odeias que te amem.
Às vezes odeias amar-me.
Odeio este ciclo sem fim: ver-te cair e levantar. Lutar e sucumbir. De te ver apática, demasiado deprimida para existir.
Um dia és silêncio, és concha, és sombra fechada em ti mesma.
Dizes que nada vale a pena, que o teu destino é estar sozinha.
E eu rasgo-me em mil pedaços a tentar convencer-te do contrário,
mas tu nunca acreditas em mim.
Sinto-me a falar com uma parede que só sabe engolir o som da minha voz.
E a cada vez que te afundas,
eu também afundo um pouco.
Pensas que a dor é só tua, que só te afeta a ti. Não é.
Quem te ama sofre da mesma fatalidade,
seja por empatia
ou por te amar de verdade.
Odeio o quanto de mim vejo em ti.
E quando penso que já não aguento,
vem a outra face.
De repente és faísca, és furacão, és excesso. Estás exaltada! um corpo em hipomania que quase te faz explodir.
Não dormes, não paras, não ouves.
Eu fico a ver-te correr em círculos,
a consumir-te como se a vida fosse um fósforo prestes a apagar.
E eu tenho medo.
Medo de que um dia o teu voo seja tão alto
que só me reste o eco da tua queda.
Que me deixes a segurar apenas os restos.
Amar-te parte-me ao meio.
É como viver numa casa sem chão.
(Será por isso que querias que aprendesse a voar?)
Nunca sei se amanhã vou ter de puxar-te da cama
ou de impedir-te de incendiar o mundo.
E eu canso-me. Sou humana. O céu sabe como eu me canso.
De te repetir que te amo e tu não acreditares.
De tentar ser o teu porto e farol quando me empurras para longe.
De sangrar em silêncio para que tu não sangres sozinha.
Mas sei que estás mais cansada do que eu. Gostava de poder entrar dentro de ti e abraçar a doença também,
talvez adormecê-la com uma história de embalar. Qualquer coisa para que pudesses realmente descansar. Talvez ser esse tal lugar onde pudesses repousar.
No entanto, quando penso em ir embora,
algo em mim não sabe partir.
Não consigo executar esse maldito pensamento.
Porque és tu.
Mesmo quando o carrossel me deixa tonta,
mesmo quando o teu amor me fere,
eu vejo-te.
Vejo-te além do diagnóstico,
e é essa pessoa que me prende.
Fazes da prisão um epítome de liberdade,
porque não há nada mais libertador do que poder prender-me de livre vontade.
Porque, no fim, tudo em ti é difícil.
Porque, no fim,
nada é mais fácil do que amar-te
Então eu fico.
Fico rasgada, fico cansada, fico a meio de mim.
Mas fico.
Porque amar-te é uma pequena dor
e a minha maior verdade.
Porque amar-te é vida na morte,
mesmo que seja vivida em excesso
ou pela metade.
V - Ainda em mim
Amei-te em todas as tuas estações.
Na noite cerrada da tua tristeza,
e no incêndio sem travão dos teus excessos.
Tentei aprender a ser chão quando eras queda,
tentei ser calma quando eras vendaval.
Só que também eu sou furacão.
Perdoa-me pela viagem alucinante na corda bamba. Sou vento que rompe, sem aviso, num dia quente de verão. Sangue que ferve quando ama. Sou intensa e excessiva, por mais que me tente manter calma e racional.
É tão raro alguém fazer-me sentir...posso dizer que nunca tinha amado ninguém, nunca tinha conhecido a sensação de sentir fogo a sair-me do olhar,
até tu o acenderes. Até ser eu o mundo que vieste incendiar.
Perdoa-me...
Quando chegaste onde ninguém chegou,
ainda não tinha aprendido como o controlar.
E agora, não estamos juntas.
A lição chegou tarde demais.
Mas dentro de mim ainda és presença.
Ainda és eco.
Ainda és cicatriz aberta, que irei recusar-me a fechar.
Passe o tempo que passar...
Carrego-te como quem guarda um fantasma querido, o meu próprio espírito obsessor.
Não posso voltar atrás, a vida não o permite. Não tem um botão de recomeçar.
Não te tenho nos braços,
mas o meu peito sabe
não se desaprende um amor assim.
Lamento que o nosso amor tenha acabado, mesmo antes de começar.
Amar-te foi a minha ferida e o meu milagre.
Mesmo que o tempo insista em levar-te,
há um lugar em mim onde continuas a existir
clara, imensa, inteira,
com todas as tuas marés. Com a lua e todas as suas fases.
E eu aceito.
Aceito que talvez nunca te esqueça,
porque certos amores não acabam,
apenas mudam de forma.
Tu és ainda
a sombra e a luz
que me lembram
o quanto é possível sentir.
VI- Carta a ti que ainda habita em mim
Ainda te amo.
Não como quem ama alguém presente, mas como quem carrega um búzio antigo que nunca se desfaz. Aquele que habita em mim.
Amo-te nos restos do que fomos, nos dias em que não estivemos juntas,
nas manhãs silenciosas em que acordo à procura do teu vulto,
e encontro apenas o eco do teu silêncio,
juntamente com as cinzas que seguro junto ao peito.
Amei-te quando te afundavas em sombras que não conseguia dissipar,
quando o mundo pesava demais,
quando não acreditavas em nada, nem sequer em ti. Nem sequer em mim.
Eu segurava-te, ainda que às vezes sentisse que me desfazia contigo.
Porque amar-te era arriscar-me a perder-me,
era aceitar que partes de mim seriam sempre tuas.
Amei-te quando eras fogo e vendaval,
quando não paravas de falar, de rir, de querer tudo ao mesmo tempo,
quando o teu corpo era tempestade e eu não sabia se corria atrás ou se me escondia para não me queimar.
No excesso que me assustava
e me fascinava.
Mesmo no cansaço, mesmo na dor, amei-te.
Porque amar-te era ver o mundo inteiro dentro de ti,
era ver as partes mais coloridas de mim,
era imaginar um mundo diferente fora de nós,
mesmo quando me partia.
E agora, não estamos juntas.
Mas não há fim para um amor assim.
Ele sobrevive em cada pensamento, em cada lágrima que escorre sem aviso,
em cada silêncio em que te procuro sem te encontrar. Em cada música que imagino que também estejas a escutar.
Tu continuas viva dentro de mim,
como se nunca tivesses partido,
como se o tempo não tivesse força para apagar-te.
É cruel e bonito ao mesmo tempo,
Porque contigo fui inteira,
mesmo que imperfeita.
Amar-te deixou cicatrizes profundas,
mas também deixou a certeza de que
o amor, quando verdadeiro,
não precisa de durar para existir.
E aqui estou, ainda tua,
não em corpo, mas em memória,
em amor que persiste,
em saudade que nunca se desfaz.
Ainda te amo,
mesmo sabendo que
amar-te é aceitar
que nunca mais te terei.
VII - A carta da tua sombra
A resposta que nunca recebi, então, tive de a imaginar, mesmo longe de saber o que me poderias querer dizer,
se é que dirias alguma coisa:
"Mar,
Li o que escreveste.
Não tudo de uma vez, fui parando, respirando como quem aprende a suportar a própria imagem ao espelho.
É estranho ver-me pelas tuas palavras. Sou tão mais inteira nelas do que alguma vez fui em mim.
Tu chamaste-me lua, maré, vendaval...
eu sempre me vi como uma falha, uma rachadura no chão que engolia quem se aproximava.
O teu amor doeu-me, sabias?
Tu amavas com a força de quem tenta salvar alguém do incêndio, mesmo sabendo que vai queimar-se.
Mas eu… eu não sabia receber esse tipo de amor. Tão pouco queria ser salva.
Vou escrever com o coração rasgado, amando-te e temendo-te, reconhecendo-me nas tuas palavras e fugindo delas ao mesmo tempo.
Era como se o teu toque me revelasse tudo o que eu passara anos a esconder.
E eu fugia, atacava, silenciava.
A cada vez que me dizias “fico”, eu sentia medo.
Medo de que ficasses demais, de que me visses despida de todo o brilho e só sobrasse a ruína.
Então empurrava-te... porque doía menos perder-te por vontade do que deixar-te ver-me a desmoronar.
Quando dizes que amar-me era sangrar devagar, não sabes o quanto acertas.
Eu via o sangue, e mesmo assim continuava.
Havia dias em que queria corresponder-te, ser digna de ti, desse amor que estavas desesperada por me oferecer. Outros em que queria desaparecer, só para não te arrastar comigo.
E no meio dessa guerra, o amor era a única coisa que ainda parecia viva.
Era doença e cura, era faca e abraço.
Há uma parte de mim que sempre quis acreditar que o teu amor me podia salvar,
mas outra sabia que ninguém consegue salvar quem ainda quer arder.
Tu tentaste, e eu deixei-te tentar. Como quem aceita uma promessa bonita que nunca se vai cumprir. Mas estou destinada a estar sozinha.
Agora, lendo-te, percebo:
não era preciso que me salvasses.
Bastava que ficasses até onde pudesses.
E antes de te ires, tu ficaste, talvez mais do que eu merecia.
Ficaste nas palavras, no eco, na memória que ainda me mantém viva, mesmo aqui, neste lugar entre o antes e o depois.
Se eu pudesse, dir-te-ia isto:
eu amei-te.
Amei-te de um jeito imperfeito, distorcido, às vezes cruel.
Mas foi amor.
Mesmo nas ausências, mesmo no gelo, mesmo na mania e na queda.
Foi amor.
E foi o mais próximo de paz que já senti.
E se um dia achares que tens de esquecer-me, não o faças por pena.
Esquece-me apenas se o silêncio for mais leve do que o peso da lembrança.
Mas se um resto de mim ainda te aquece, deixa-me ficar.
Nem que seja como um fio de luz torta a atravessar a tua noite.
Porque, apesar de tudo,
e mesmo depois de tudo,
o que resta é simples e terrível:
eu também te amei.
E ainda amo, em todos os *** onde a tua voz me chama."
Oct 19, 2025
Oct 19, 2025 at 7:13 AM UTC
I - A face negra do amor
Amo-te quando és lua cheia,
clara, imensa, inteira.
Um rio de risos a atravessar as margens inquietas da noite.
Amo-te quando és eclipse:
pedra em silêncio,
um corpo cansado do próprio peso.
Caminho contigo entre tempestades súbitas.
Aprendo que o amor não se mede em calmarias,
mas na coragem de ficar
quando o vento rasga,
quando o sol se parte em dois,
e o coração se abre
como faca num fruto.
Tu és clarão e abismo,
maré que sobe, maré que foge.
E eu, náufraga voluntária,
lanço âncoras no teu peito
sabendo que não há porto seguro,
apenas movimento,
apenas vida em excesso.
Amar-te é desvendar
e tocar
a face negra do amor.
Dar a alma à palmatória,
e entregá-la numa bandeja de vidro aos teus dedos bambos,
sem saber se será acarinhada
ou ferida.
Amar-te é dançar entre dois mundos que jamais se tocam.
E ainda assim,
descobrir beleza
na fratura da luz.
II - A Confissão
Amar-te é perder-me em ti,
na manhã em que acordas sol,
na noite em que te ocultas na neblina.
Eu estendo as mãos, como uma pedinte sem redenção.
Umas vezes recebes-me com um calor tão intenso
que quase me incendeias.
Outras vezes és muralha de gelo
e não há fogo em mim que te atravesse.
E dói.
Dói quando me sorris como se fosse o mundo,
e no instante seguinte me olhas
como se fosse ninguém.
Às vezes sou invisível
no teu nevoeiro de sombras.
Às vezes sou abençoada
na tua explosão de luz.
E fico.
Fico porque sei que és mais do que as tuas marés.
És o oceano inteiro,
mesmo quando o esqueces.
Aprendo a amar-te nos extremos.
A lembrar-te que és digna de amor,
mesmo quando te parece impossível
recebê-lo.
Tentando relembrar-me do mesmo.
Amar-te é a minha coragem mais frágil.
E a minha fragilidade mais corajosa.
III - Amar-te é sangrar devagar
Amar-te é sangrar devagar.
É ver-te incendiar o mundo de manhã,
e à noite implodires em silêncio,
arrastando-me contigo para um buraco
onde o ar não chega.
Há dias em que me atravessas como um relâmpago.
Nesses instantes eu acredito
que o amor basta.
Mas logo depois, fechas todas as portas,
e eu bato, bato,
até as mãos arderem,
até os nós sangrarem,
sem saber se algum dia voltarás a abrir.
Dói-me quando me empurras,
justo quando mais precisas que eu fique.
Dói-me a tua crueldade involuntária e inocente,
as palavras afiadas que não são tuas,
mas que mesmo assim
me ferem.
Ainda assim,
quando te recolhes no silêncio do teu quarto
e tremes de medo de ti mesma,
eu sento-me ao teu lado,
mesmo que não me vejas.
Seguro-te a mão,
e sussurro-te
que não precisas de ser sol constante
para seres amada.
Amar-te é aceitar os teus extremos.
É perder partes de mim no caminho,
livrar-me da pele que já não me serve,
para não me perder de ti.
É ver a beleza
onde outros só veriam caos.
E eu fico.
Mesmo quando partir seria mais fácil.
Fico porque és tu.
E em ti, mesmo quebrada,
há um mundo que eu não consigo abandonar.
Estás entranhada em mim,
e não tenho intenção de te arrancar.
És um monte de pedras lunares,
bonitas e afiadas,
que eu sempre quis abraçar.
Tenho o desejo secreto
de um dia poder usá-las
para construir uma ponte
que permita o nosso encontro a meio,
com a lua em cima de nós a testemunhar.
És tu. E seres tu, basta.
IV- A carta que nunca terás coragem de ouvir
Meu amor,
às vezes eu odeio amar-te,
e tu odeias que te amem.
Às vezes odeias amar-me.
Odeio este ciclo sem fim: ver-te cair e levantar. Lutar e sucumbir. De te ver apática, demasiado deprimida para existir.
Um dia és silêncio, és concha, és sombra fechada em ti mesma.
Dizes que nada vale a pena, que o teu destino é estar sozinha.
E eu rasgo-me em mil pedaços a tentar convencer-te do contrário,
mas tu nunca acreditas em mim.
Sinto-me a falar com uma parede que só sabe engolir o som da minha voz.
E a cada vez que te afundas,
eu também afundo um pouco.
Pensas que a dor é só tua, que só te afeta a ti. Não é.
Quem te ama sofre da mesma fatalidade,
seja por empatia
ou por te amar de verdade.
Odeio o quanto de mim vejo em ti.
E quando penso que já não aguento,
vem a outra face.
De repente és faísca, és furacão, és excesso. Estás exaltada! um corpo em hipomania que quase te faz explodir.
Não dormes, não paras, não ouves.
Eu fico a ver-te correr em círculos,
a consumir-te como se a vida fosse um fósforo prestes a apagar.
E eu tenho medo.
Medo de que um dia o teu voo seja tão alto
que só me reste o eco da tua queda.
Que me deixes a segurar apenas os restos.
Amar-te parte-me ao meio.
É como viver numa casa sem chão.
(Será por isso que querias que aprendesse a voar?)
Nunca sei se amanhã vou ter de puxar-te da cama
ou de impedir-te de incendiar o mundo.
E eu canso-me. Sou humana. O céu sabe como eu me canso.
De te repetir que te amo e tu não acreditares.
De tentar ser o teu porto e farol quando me empurras para longe.
De sangrar em silêncio para que tu não sangres sozinha.
Mas sei que estás mais cansada do que eu. Gostava de poder entrar dentro de ti e abraçar a doença também,
talvez adormecê-la com uma história de embalar. Qualquer coisa para que pudesses realmente descansar. Talvez ser esse tal lugar onde pudesses repousar.
No entanto, quando penso em ir embora,
algo em mim não sabe partir.
Não consigo executar esse maldito pensamento.
Porque és tu.
Mesmo quando o carrossel me deixa tonta,
mesmo quando o teu amor me fere,
eu vejo-te.
Vejo-te além do diagnóstico,
e é essa pessoa que me prende.
Fazes da prisão um epítome de liberdade,
porque não há nada mais libertador do que poder prender-me de livre vontade.
Porque, no fim, tudo em ti é difícil.
Porque, no fim,
nada é mais fácil do que amar-te
Então eu fico.
Fico rasgada, fico cansada, fico a meio de mim.
Mas fico.
Porque amar-te é uma pequena dor
e a minha maior verdade.
Porque amar-te é vida na morte,
mesmo que seja vivida em excesso
ou pela metade.
V - Ainda em mim
Amei-te em todas as tuas estações.
Na noite cerrada da tua tristeza,
e no incêndio sem travão dos teus excessos.
Tentei aprender a ser chão quando eras queda,
tentei ser calma quando eras vendaval.
Só que também eu sou furacão.
Perdoa-me pela viagem alucinante na corda bamba. Sou vento que rompe, sem aviso, num dia quente de verão. Sangue que ferve quando ama. Sou intensa e excessiva, por mais que me tente manter calma e racional.
É tão raro alguém fazer-me sentir...posso dizer que nunca tinha amado ninguém, nunca tinha conhecido a sensação de sentir fogo a sair-me do olhar,
até tu o acenderes. Até ser eu o mundo que vieste incendiar.
Perdoa-me...
Quando chegaste onde ninguém chegou,
ainda não tinha aprendido como o controlar.
E agora, não estamos juntas.
A lição chegou tarde demais.
Mas dentro de mim ainda és presença.
Ainda és eco.
Ainda és cicatriz aberta, que irei recusar-me a fechar.
Passe o tempo que passar...
Carrego-te como quem guarda um fantasma querido, o meu próprio espírito obsessor.
Não posso voltar atrás, a vida não o permite. Não tem um botão de recomeçar.
Não te tenho nos braços,
mas o meu peito sabe
não se desaprende um amor assim.
Lamento que o nosso amor tenha acabado, mesmo antes de começar.
Amar-te foi a minha ferida e o meu milagre.
Mesmo que o tempo insista em levar-te,
há um lugar em mim onde continuas a existir
clara, imensa, inteira,
com todas as tuas marés. Com a lua e todas as suas fases.
E eu aceito.
Aceito que talvez nunca te esqueça,
porque certos amores não acabam,
apenas mudam de forma.
Tu és ainda
a sombra e a luz
que me lembram
o quanto é possível sentir.
VI- Carta a ti que ainda habita em mim
Ainda te amo.
Não como quem ama alguém presente, mas como quem carrega um búzio antigo que nunca se desfaz. Aquele que habita em mim.
Amo-te nos restos do que fomos, nos dias em que não estivemos juntas,
nas manhãs silenciosas em que acordo à procura do teu vulto,
e encontro apenas o eco do teu silêncio,
juntamente com as cinzas que seguro junto ao peito.
Amei-te quando te afundavas em sombras que não conseguia dissipar,
quando o mundo pesava demais,
quando não acreditavas em nada, nem sequer em ti. Nem sequer em mim.
Eu segurava-te, ainda que às vezes sentisse que me desfazia contigo.
Porque amar-te era arriscar-me a perder-me,
era aceitar que partes de mim seriam sempre tuas.
Amei-te quando eras fogo e vendaval,
quando não paravas de falar, de rir, de querer tudo ao mesmo tempo,
quando o teu corpo era tempestade e eu não sabia se corria atrás ou se me escondia para não me queimar.
No excesso que me assustava
e me fascinava.
Mesmo no cansaço, mesmo na dor, amei-te.
Porque amar-te era ver o mundo inteiro dentro de ti,
era ver as partes mais coloridas de mim,
era imaginar um mundo diferente fora de nós,
mesmo quando me partia.
E agora, não estamos juntas.
Mas não há fim para um amor assim.
Ele sobrevive em cada pensamento, em cada lágrima que escorre sem aviso,
em cada silêncio em que te procuro sem te encontrar. Em cada música que imagino que também estejas a escutar.
Tu continuas viva dentro de mim,
como se nunca tivesses partido,
como se o tempo não tivesse força para apagar-te.
É cruel e bonito ao mesmo tempo,
Porque contigo fui inteira,
mesmo que imperfeita.
Amar-te deixou cicatrizes profundas,
mas também deixou a certeza de que
o amor, quando verdadeiro,
não precisa de durar para existir.
E aqui estou, ainda tua,
não em corpo, mas em memória,
em amor que persiste,
em saudade que nunca se desfaz.
Ainda te amo,
mesmo sabendo que
amar-te é aceitar
que nunca mais te terei.
VII - A carta da tua sombra
A resposta que nunca recebi, então, tive de a imaginar, mesmo longe de saber o que me poderias querer dizer,
se é que dirias alguma coisa:
"Mar,
Li o que escreveste.
Não tudo de uma vez, fui parando, respirando como quem aprende a suportar a própria imagem ao espelho.
É estranho ver-me pelas tuas palavras. Sou tão mais inteira nelas do que alguma vez fui em mim.
Tu chamaste-me lua, maré, vendaval...
eu sempre me vi como uma falha, uma rachadura no chão que engolia quem se aproximava.
O teu amor doeu-me, sabias?
Tu amavas com a força de quem tenta salvar alguém do incêndio, mesmo sabendo que vai queimar-se.
Mas eu… eu não sabia receber esse tipo de amor. Tão pouco queria ser salva.
Vou escrever com o coração rasgado, amando-te e temendo-te, reconhecendo-me nas tuas palavras e fugindo delas ao mesmo tempo.
Era como se o teu toque me revelasse tudo o que eu passara anos a esconder.
E eu fugia, atacava, silenciava.
A cada vez que me dizias “fico”, eu sentia medo.
Medo de que ficasses demais, de que me visses despida de todo o brilho e só sobrasse a ruína.
Então empurrava-te... porque doía menos perder-te por vontade do que deixar-te ver-me a desmoronar.
Quando dizes que amar-me era sangrar devagar, não sabes o quanto acertas.
Eu via o sangue, e mesmo assim continuava.
Havia dias em que queria corresponder-te, ser digna de ti, desse amor que estavas desesperada por me oferecer. Outros em que queria desaparecer, só para não te arrastar comigo.
E no meio dessa guerra, o amor era a única coisa que ainda parecia viva.
Era doença e cura, era faca e abraço.
Há uma parte de mim que sempre quis acreditar que o teu amor me podia salvar,
mas outra sabia que ninguém consegue salvar quem ainda quer arder.
Tu tentaste, e eu deixei-te tentar. Como quem aceita uma promessa bonita que nunca se vai cumprir. Mas estou destinada a estar sozinha.
Agora, lendo-te, percebo:
não era preciso que me salvasses.
Bastava que ficasses até onde pudesses.
E antes de te ires, tu ficaste, talvez mais do que eu merecia.
Ficaste nas palavras, no eco, na memória que ainda me mantém viva, mesmo aqui, neste lugar entre o antes e o depois.
Se eu pudesse, dir-te-ia isto:
eu amei-te.
Amei-te de um jeito imperfeito, distorcido, às vezes cruel.
Mas foi amor.
Mesmo nas ausências, mesmo no gelo, mesmo na mania e na queda.
Foi amor.
E foi o mais próximo de paz que já senti.
E se um dia achares que tens de esquecer-me, não o faças por pena.
Esquece-me apenas se o silêncio for mais leve do que o peso da lembrança.
Mas se um resto de mim ainda te aquece, deixa-me ficar.
Nem que seja como um fio de luz torta a atravessar a tua noite.
Porque, apesar de tudo,
e mesmo depois de tudo,
o que resta é simples e terrível:
eu também te amei.
E ainda amo, em todos os *** onde a tua voz me chama."
