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mariana-seabra
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27/Gender Fluid/Portuguese Existe sempre qualquer coisa ausente que me atormenta.
Houve um tempo em que eu acreditava com a violência dos corpos famintos. Não numa religião concreta, nem em deuses com nomes, mas naquela espécie de eletricidade secreta que atravessa certas pessoas antes mesmo de falarem. O mundo parecia vivo debaixo da pele das coisas. As coincidências tinham pulsação. Os sonhos eram lugares reais. As almas encontravam-se como animais feridos que se reconhecem pelo cheiro mesmo depois de vidas inteiras. E eu vivia assim: febril, aberta, faminta. Ah, a fome. Talvez tenha sido sempre isso. Não amor. Não misticismo. Não destino. Fome. Fome de sentir o mundo inteiro encostado aos nervos. Fome de atravessar a superfície das coisas e encontrar qualquer mecanismo oculto a respirar por baixo da realidade. Fome de partir a realidade ao meio com as próprias mãos e encontrar qualquer coisa quente e divina a respirar lá dentro. Quando era criança, existia um véu. Lembro-me disso com nitidez suficiente para quase lhe tocar. Tudo parecia prestes a revelar-se. Como se a vida escondesse uma segunda camada pulsante e eu tivesse apenas de sofrer o suficiente para conseguir vê-la abrir. Depois cresci. Ganhei chão. Aprendi rotinas. Consistência. Aprendi a dormir sem colapsar. Aprendi a não transformar cada ausência numa catástrofe metafísica. Aprendi a nomear emoções em vez de me afogar nelas. E estranhamente, foi aí que comecei a sentir saudades de mim. Porque a estabilidade tem um silêncio próprio. E depois de anos a viver em combustão, a paz pode parecer ausência de Deus. Uma amputação espiritual. Havia noites tão silenciosas que conseguia ouvir o meu copo arrefecer na mesa Às vezes pergunto-me se a poesia não nasceu precisamente da minha incapacidade de suportar o mundo em estado neutro. Eu escrevia como quem abre o próprio peito para provar que ainda estava viva. Transformava dor em linguagem porque não sabia transformá-la em vida. E agora? Agora olho para as coisas inteiras. Sem delírio. Sem vertigem. Sem aquela luz febril que fazia cada encontro parecer profecia e cada perda parecer sagrada. E odeio admitir isto, mas parte de mim tem saudades de arder. Há uma parte de mim que ainda quer enlouquecer para voltar a senti-la. É tramado: quando enlouqueço, imploro por chão. Quando finalmente encontro chão, fico à espera do abismo. A nostalgia faz pinturas lindíssimas daquilo que quase me matou. Durante anos confundi encanto com intensidade emocional. Confundi desregulação com transcendência. Passei anos a chamar estrelas ao sistema nervoso em curto-circuito. Havia estados dentro de mim que tornavam o mundo elétrico. Tudo parecia carregado de significado. As pessoas pareciam destino. A dor parecia um início. E a poesia nascia quase como febre, como se o próprio corpo escrevesse para impedir a alma de abandonar o quarto. Mas viver assim também tinha um preço. A poesia crescia enorme, mas eu desaparecia dentro dela. E talvez seja isso que ainda me custa aceitar: que a lucidez raramente entra numa sala a arder. Ela chega devagar. Sem música. Sem relâmpagos. Sem promessas cósmicas. E às vezes, quando finalmente aprendemos a viver sem nos destruir, o mundo parece menos mágico. Não porque perdeu mistério, mas porque deixou de sangrar luz por todas as feridas. Mesmo assim, há perguntas que continuam. Porque continuo à procura de certas pessoas como quem procura um espelho? Porque é que algumas presenças parecem conter acesso a uma versão mais viva de mim? Porque é que, mesmo agora, uma memória pode abrir em mim a sensação física de que existe qualquer coisa para além disto tudo? Talvez eu tenha projetado universos inteiros em pessoas reais. Talvez tenha confundido ser vista com ser salva. Talvez tenha confundido intensidade com transcendência. Talvez estivesse apenas emocionalmente exposta, desorganizada, faminta. Mas então porque doeu de forma tão sagrada? Porque é que certas ligações parecem tocar num lugar anterior à linguagem? E porque é que, mesmo depois de toda a lucidez, ainda há uma parte de mim que olha para o céu à noite como quem espera que o véu volte a abrir? Talvez a verdadeira metamorfose não seja perder a magia. Talvez seja sobreviver-lhe. Talvez seja aprender que o mistério não desapareceu. Apenas deixou de gritar.
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May 16
May 16, 2026 at 4:32 AM UTC
Fome Antiga
Houve um tempo em que eu acreditava com a violência dos corpos famintos. Não numa religião concreta, nem em deuses com nomes, mas naquela espécie de eletricidade secreta que atravessa certas pessoas antes mesmo de falarem. O mundo parecia vivo debaixo da pele das coisas. As coincidências tinham pulsação. Os sonhos eram lugares reais. As almas encontravam-se como animais feridos que se reconhecem pelo cheiro mesmo depois de vidas inteiras. E eu vivia assim: febril, aberta, faminta. Ah, a fome. Talvez tenha sido sempre isso. Não amor. Não misticismo. Não destino. Fome. Fome de sentir o mundo inteiro encostado aos nervos. Fome de atravessar a superfície das coisas e encontrar qualquer mecanismo oculto a respirar por baixo da realidade. Fome de partir a realidade ao meio com as próprias mãos e encontrar qualquer coisa quente e divina a respirar lá dentro. Quando era criança, existia um véu. Lembro-me disso com nitidez suficiente para quase lhe tocar. Tudo parecia prestes a revelar-se. Como se a vida escondesse uma segunda camada pulsante e eu tivesse apenas de sofrer o suficiente para conseguir vê-la abrir. Depois cresci. Ganhei chão. Aprendi rotinas. Consistência. Aprendi a dormir sem colapsar. Aprendi a não transformar cada ausência numa catástrofe metafísica. Aprendi a nomear emoções em vez de me afogar nelas. E estranhamente, foi aí que comecei a sentir saudades de mim. Porque a estabilidade tem um silêncio próprio. E depois de anos a viver em combustão, a paz pode parecer ausência de Deus. Uma amputação espiritual. Havia noites tão silenciosas que conseguia ouvir o meu copo arrefecer na mesa Às vezes pergunto-me se a poesia não nasceu precisamente da minha incapacidade de suportar o mundo em estado neutro. Eu escrevia como quem abre o próprio peito para provar que ainda estava viva. Transformava dor em linguagem porque não sabia transformá-la em vida. E agora? Agora olho para as coisas inteiras. Sem delírio. Sem vertigem. Sem aquela luz febril que fazia cada encontro parecer profecia e cada perda parecer sagrada. E odeio admitir isto, mas parte de mim tem saudades de arder. Há uma parte de mim que ainda quer enlouquecer para voltar a senti-la. É tramado: quando enlouqueço, imploro por chão. Quando finalmente encontro chão, fico à espera do abismo. A nostalgia faz pinturas lindíssimas daquilo que quase me matou. Durante anos confundi encanto com intensidade emocional. Confundi desregulação com transcendência. Passei anos a chamar estrelas ao sistema nervoso em curto-circuito. Havia estados dentro de mim que tornavam o mundo elétrico. Tudo parecia carregado de significado. As pessoas pareciam destino. A dor parecia um início. E a poesia nascia quase como febre, como se o próprio corpo escrevesse para impedir a alma de abandonar o quarto. Mas viver assim também tinha um preço. A poesia crescia enorme, mas eu desaparecia dentro dela. E talvez seja isso que ainda me custa aceitar: que a lucidez raramente entra numa sala a arder. Ela chega devagar. Sem música. Sem relâmpagos. Sem promessas cósmicas. E às vezes, quando finalmente aprendemos a viver sem nos destruir, o mundo parece menos mágico. Não porque perdeu mistério, mas porque deixou de sangrar luz por todas as feridas. Mesmo assim, há perguntas que continuam. Porque continuo à procura de certas pessoas como quem procura um espelho? Porque é que algumas presenças parecem conter acesso a uma versão mais viva de mim? Porque é que, mesmo agora, uma memória pode abrir em mim a sensação física de que existe qualquer coisa para além disto tudo? Talvez eu tenha projetado universos inteiros em pessoas reais. Talvez tenha confundido ser vista com ser salva. Talvez tenha confundido intensidade com transcendência. Talvez estivesse apenas emocionalmente exposta, desorganizada, faminta. Mas então porque doeu de forma tão sagrada? Porque é que certas ligações parecem tocar num lugar anterior à linguagem? E porque é que, mesmo depois de toda a lucidez, ainda há uma parte de mim que olha para o céu à noite como quem espera que o véu volte a abrir? Talvez a verdadeira metamorfose não seja perder a magia. Talvez seja sobreviver-lhe. Talvez seja aprender que o mistério não desapareceu. Apenas deixou de gritar.
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169
Amei-te durante sete anos sem nunca saber se podia dizer a palavra amar em voz alta. Não foi uma noite. Foi o tempo inteiro antes dela. Sete anos a aprender a respirar no espaço vazio entre os teus sinais. Vivias no intervalo das frases, no talvez, no olhar que demorava meio segundo a mais e depois desaparecia como se eu tivesse imaginado tudo. Nunca disseste fica. Nunca hesitas-te em dizer vai. E eu vivi ali, no território sagrado do talvez, onde o amor cresce deformado porque nunca encontra chão. Eu aprendia-te por pistas. Por silêncios. Por aquilo que não entregavas inteiro. Tu olhavas-me como quem reconhece algo e depois fechavas a porta antes que eu pudesse entrar. E eu ficava, arqueóloga do teu afeto, escavando significados onde só havia migalhas de possibilidade. Chamava-lhe profundidade. Chamava-lhe mistério. Chamava-lhe destino. Hoje sei: era incerteza com poesia suficiente para parecer amor. Durante sete anos o meu coração viveu inclinado para ti, marcado por ti, batia por ti... como uma casa construída à espera de alguém que nunca decidiu morar nela. E mesmo assim eu compreendia-te. Meu deus, como eu te compreendia. Justificava as ausências, traduzia os teus recuos, transformava dúvidas em complexidade, distância em intensidade. Se demoravas, era porque sentias demais. Se recuavas, era porque tinhas medo. Se não vinhas, era porque um dia virias. Porque amar-te era também esperar que um dia fosses ficar. E depois ficámos. Uma noite apenas. O universo finalmente alinhado no corpo errado do tempo certo. A pele finalmente real, o corpo a confirmar tudo o que o meu coração ensaiara durante aqueles anos. A terra abalou. Abriu-se dentro de mim. Eu pensei: "agora começa a vida". Mas para ti foi apenas a conclusão. Deixaste-me ir como quem fecha um livro depois de leres o último capítulo sozinha. Com a calma cruel de quem nunca esteve realmente em risco de me perder. E eu fiquei ali, com sete anos ainda vivos dentro do peito, sem saber onde pousar tanto futuro que nunca aconteceu. Eu não estava a chorar uma noite. Estava de luto. Estava a enterrar o amor que nunca chegou a nascer. Desde então ninguém me parece suficiente. Não porque não sejam interessantes, mas porque não sabem o que é falar à beira do abismo. Contigo, cada conversa era um precipício. Cada frase uma promessa de revelação. Tu nunca vinhas inteira. E eu viciei-me no esforço de merecer acesso. Descobri tarde demais que há amores que sobrevivem precisamente porque nunca acontecem. Porque o quase não envelhece. Não falha. Não revela as partes comuns. Fica perfeito na imaginação de quem espera. O que dói já não és tu. É a versão de mim que escrevia como se o mundo tivesse nervos expostos, que sentia tudo em excesso, que acreditava que ser escolhida era apenas questão de tempo. Disseram-me depois que eu gosto de desvendar pessoas. Que me apaixono por camadas. Por complexidade. Por nuance. Pessoas totalmente previsíveis, transparentes demais, "arrumadas demais", não me despertam curiosidade. E para mim, curiosidade é Eros. É ligação. É vida. Então, claro que me apaixonei por ti. Mas a verdade é que eu só queria chegar ao lugar onde finalmente fosse segura. Confundi ambiguidade com profundidade. Tensão com ligação. Quase com amor. E agora, o silêncio é limpo demais. As pessoas chegam inteiras e eu estranho não ter de lutar para existir. Porque o vício não era só em ti. Era na esperança. Ainda tenho medo de que tenhas sido o melhor que me aconteceu. De que tudo daqui para a frente seja apenas correto. Mas começo a suspeitar que foste apenas a ferida que abriu a mulher que eu sempre fui. A fonte não eras tu. A inspiração não morreu com a musa. Apenas ficou órfã durante um tempo. Tu não inventaste a minha humanidade, apenas despertaste o melhor dela. E quando o circuito quebrou, o cérebro interpretou como "acabou a fonte". Mas não, apenas acabou o eco. Talvez o que abalou a terra não foste tu. Talvez tenha sido o momento em que eu finalmente me permiti amar sem proteção. Talvez a tragédia não seja ter-te perdido. Talvez seja ter acreditado que amor era esperar para ser escolhida. E talvez um dia quando a terra voltar a abanar, não por ausência, não por dúvida, não por medo, eu reconheça finalmente a diferença entre intensidade e casa.
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Feb 27
Feb 27, 2026 at 10:32 AM UTC
Limbo
Amei-te durante sete anos sem nunca saber se podia dizer a palavra amar em voz alta. Não foi uma noite. Foi o tempo inteiro antes dela. Sete anos a aprender a respirar no espaço vazio entre os teus sinais. Vivias no intervalo das frases, no talvez, no olhar que demorava meio segundo a mais e depois desaparecia como se eu tivesse imaginado tudo. Nunca disseste fica. Nunca hesitas-te em dizer vai. E eu vivi ali, no território sagrado do talvez, onde o amor cresce deformado porque nunca encontra chão. Eu aprendia-te por pistas. Por silêncios. Por aquilo que não entregavas inteiro. Tu olhavas-me como quem reconhece algo e depois fechavas a porta antes que eu pudesse entrar. E eu ficava, arqueóloga do teu afeto, escavando significados onde só havia migalhas de possibilidade. Chamava-lhe profundidade. Chamava-lhe mistério. Chamava-lhe destino. Hoje sei: era incerteza com poesia suficiente para parecer amor. Durante sete anos o meu coração viveu inclinado para ti, marcado por ti, batia por ti... como uma casa construída à espera de alguém que nunca decidiu morar nela. E mesmo assim eu compreendia-te. Meu deus, como eu te compreendia. Justificava as ausências, traduzia os teus recuos, transformava dúvidas em complexidade, distância em intensidade. Se demoravas, era porque sentias demais. Se recuavas, era porque tinhas medo. Se não vinhas, era porque um dia virias. Porque amar-te era também esperar que um dia fosses ficar. E depois ficámos. Uma noite apenas. O universo finalmente alinhado no corpo errado do tempo certo. A pele finalmente real, o corpo a confirmar tudo o que o meu coração ensaiara durante aqueles anos. A terra abalou. Abriu-se dentro de mim. Eu pensei: "agora começa a vida". Mas para ti foi apenas a conclusão. Deixaste-me ir como quem fecha um livro depois de leres o último capítulo sozinha. Com a calma cruel de quem nunca esteve realmente em risco de me perder. E eu fiquei ali, com sete anos ainda vivos dentro do peito, sem saber onde pousar tanto futuro que nunca aconteceu. Eu não estava a chorar uma noite. Estava de luto. Estava a enterrar o amor que nunca chegou a nascer. Desde então ninguém me parece suficiente. Não porque não sejam interessantes, mas porque não sabem o que é falar à beira do abismo. Contigo, cada conversa era um precipício. Cada frase uma promessa de revelação. Tu nunca vinhas inteira. E eu viciei-me no esforço de merecer acesso. Descobri tarde demais que há amores que sobrevivem precisamente porque nunca acontecem. Porque o quase não envelhece. Não falha. Não revela as partes comuns. Fica perfeito na imaginação de quem espera. O que dói já não és tu. É a versão de mim que escrevia como se o mundo tivesse nervos expostos, que sentia tudo em excesso, que acreditava que ser escolhida era apenas questão de tempo. Disseram-me depois que eu gosto de desvendar pessoas. Que me apaixono por camadas. Por complexidade. Por nuance. Pessoas totalmente previsíveis, transparentes demais, "arrumadas demais", não me despertam curiosidade. E para mim, curiosidade é Eros. É ligação. É vida. Então, claro que me apaixonei por ti. Mas a verdade é que eu só queria chegar ao lugar onde finalmente fosse segura. Confundi ambiguidade com profundidade. Tensão com ligação. Quase com amor. E agora, o silêncio é limpo demais. As pessoas chegam inteiras e eu estranho não ter de lutar para existir. Porque o vício não era só em ti. Era na esperança. Ainda tenho medo de que tenhas sido o melhor que me aconteceu. De que tudo daqui para a frente seja apenas correto. Mas começo a suspeitar que foste apenas a ferida que abriu a mulher que eu sempre fui. A fonte não eras tu. A inspiração não morreu com a musa. Apenas ficou órfã durante um tempo. Tu não inventaste a minha humanidade, apenas despertaste o melhor dela. E quando o circuito quebrou, o cérebro interpretou como "acabou a fonte". Mas não, apenas acabou o eco. Talvez o que abalou a terra não foste tu. Talvez tenha sido o momento em que eu finalmente me permiti amar sem proteção. Talvez a tragédia não seja ter-te perdido. Talvez seja ter acreditado que amor era esperar para ser escolhida. E talvez um dia quando a terra voltar a abanar, não por ausência, não por dúvida, não por medo, eu reconheça finalmente a diferença entre intensidade e casa.
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175
Nos meus sonhos vejo-te ao longe, mas não corro logo para ti. Não chegas inteira: és contorno, ausência em movimento, uma promessa que nunca se deixa tocar. Fico suspensa nesse segundo frágil, num cruzar de olhares que interrompe o mundo, como duas sobreviventes que reconhecem a mesma ruína. Depois, corro para ti, sim, com o coração em queda livre, porque o corpo ainda acredita no que a razão já enterrou. Mas quando chego ao lugar onde me esperavas                      já não estás. Só encontro o vazio                                       ainda quente. A mentira suave que o sonho deixa para que a ausência doa mais devagar. Nos meus sonhos abraçamo-nos. Não é um gesto bonito, não há delicadeza. Há unhas, há tremor, um pedido mudo de permanência. É um aperto bruto, um corpo contra o outro, como se o mundo estivesse a ruir e aquele fosse o momento final. As lágrimas não pedem licença para cair. Choro contra o teu ombro porque o meu corpo ainda acredita em finais que a realidade proibiu. Choramos porque não sabemos fazer melhor, porque amar também é falhar repetidamente. Quando acordo, o meu corpo continua em posição de perda, como se ainda te estivesse a segurar. Nos meus sonhos digo-te que te amo, com a voz partida, como quem confessa um crime. Não é bonito, não é calmo, não é maduro. É um amor que pede desculpa por existir. Peço perdão pelo tempo em que estive longe, não porque não soubesse onde estavas, mas porque não soube ficar. Sabendo que o perdão não apaga o abandono. Que o tempo não foi o erro, e sim nós. Confesso-te que cada dia sem ti foi uma eternidade sem margens, uma sucessão de horas mortas, um exercício de sobrevivência, e que a única eternidade possível é a que começa quando estás perto de mim. Ainda que por pouco tempo, ainda que só no sonho, mesmo que não resista à luz. Nos meus sonhos dizes que sentiste saudades, como se me admitisses uma fraqueza. Dizes que respirar se tornou um esforço pesado na minha ausência, que a vida continuou mas sem oxigénio suficiente. Confessas-me que não houve um dia em que eu não habitasse o teu pensamento e esperas, imóvel, pela minha vez de concordar. Mas eu hesito, não por não ser verdade, e sim porque admitir isso é aceitar que nos perdemos conscientemente. Nos meus sonhos inalo o teu cheiro, como quem tenta sobreviver a um afogamento. Troco o ar dos meus pulmões por ti, mesmo sabendo que isso não sustenta a vida. Passo a mão pelo teu rosto, com uma lentidão quase cruel, uma precisão quase doentia, como quem tenta tatuar o indizível. Como se pudesse gravar-te na minha própria pele. Como se decorar cada traço teu impedisse o esquecimento. Decoro-te para não te perder outra vez. Digo-te que gostava de ter parado o tempo na primeira vez que nos beijámos. Não por ser o momento perfeito, mas sim porque foi depois de te largar que tudo começou a doer. Nos meus sonhos acabamos sempre por nos encontrar. E lá, fazemos diferente, porque ficamos. Não porque dá certo, mas porque desistimos de lutar contra a corrente. Não inteiras, mas juntas. E isso basta. E por um instante, isso parece paz. Mas os sonhos têm sempre o mesmo defeito: acabam. A realidade não permite finais assim. E quando acordo fico com a nostalgia colada ao corpo, a bater-me por dentro como um animal fechado numa jaula. E a dor não é só perder-te. É saber que naquele lugar, onde finalmente somos possíveis, eu não posso morar. E aqui não há metáfora que me salve. Acordo todos os dias com o amor intacto e a ausência funcional. Aprendo a trabalhar, a falar, a existir com um buraco perfeitamente integrado. Ninguém nota. Mas ele cresce. Nos meus sonhos tu és minha e eu sou tua. Sem hesitação, sem circunstâncias, sem o mundo a meter-se no meio. Digo-te, sem medo, que és o amor da minha vida. Tu sorris com a tranquilidade de quem sabe que há verdades que não salvam ninguém. Tu sorris porque sabes que não minto. Depois acordo. E o golpe vem aqui. Não há poesia suficiente para o suavizar. Na lucidez cruel da manhã, na consciência intacta de que nada mudou. Mas encontro uma verdade intacta: não haverá um dia, nem uma noite, em que eu não te ame. Mas haverá todos os dias em que aprenderei a viver sem ti. Amar-te não é um sonho. É um estado permanente. Uma vigília. Uma casa onde moro sozinha, mas com a porta destrancada, na esperança de te ver entrar. Isto é o para sempre, não como promessa, mas como presença possível. Porque se um dia o tempo nos devolver ao mesmo lugar, eu não terei de aprender a amar-te de novo. Estarei aqui. Acordada.
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Dec 19, 2025
Dec 19, 2025 at 5:35 PM UTC
Nos meus sonhos...
Nos meus sonhos vejo-te ao longe, mas não corro logo para ti. Não chegas inteira: és contorno, ausência em movimento, uma promessa que nunca se deixa tocar. Fico suspensa nesse segundo frágil, num cruzar de olhares que interrompe o mundo, como duas sobreviventes que reconhecem a mesma ruína. Depois, corro para ti, sim, com o coração em queda livre, porque o corpo ainda acredita no que a razão já enterrou. Mas quando chego ao lugar onde me esperavas                      já não estás. Só encontro o vazio                                       ainda quente. A mentira suave que o sonho deixa para que a ausência doa mais devagar. Nos meus sonhos abraçamo-nos. Não é um gesto bonito, não há delicadeza. Há unhas, há tremor, um pedido mudo de permanência. É um aperto bruto, um corpo contra o outro, como se o mundo estivesse a ruir e aquele fosse o momento final. As lágrimas não pedem licença para cair. Choro contra o teu ombro porque o meu corpo ainda acredita em finais que a realidade proibiu. Choramos porque não sabemos fazer melhor, porque amar também é falhar repetidamente. Quando acordo, o meu corpo continua em posição de perda, como se ainda te estivesse a segurar. Nos meus sonhos digo-te que te amo, com a voz partida, como quem confessa um crime. Não é bonito, não é calmo, não é maduro. É um amor que pede desculpa por existir. Peço perdão pelo tempo em que estive longe, não porque não soubesse onde estavas, mas porque não soube ficar. Sabendo que o perdão não apaga o abandono. Que o tempo não foi o erro, e sim nós. Confesso-te que cada dia sem ti foi uma eternidade sem margens, uma sucessão de horas mortas, um exercício de sobrevivência, e que a única eternidade possível é a que começa quando estás perto de mim. Ainda que por pouco tempo, ainda que só no sonho, mesmo que não resista à luz. Nos meus sonhos dizes que sentiste saudades, como se me admitisses uma fraqueza. Dizes que respirar se tornou um esforço pesado na minha ausência, que a vida continuou mas sem oxigénio suficiente. Confessas-me que não houve um dia em que eu não habitasse o teu pensamento e esperas, imóvel, pela minha vez de concordar. Mas eu hesito, não por não ser verdade, e sim porque admitir isso é aceitar que nos perdemos conscientemente. Nos meus sonhos inalo o teu cheiro, como quem tenta sobreviver a um afogamento. Troco o ar dos meus pulmões por ti, mesmo sabendo que isso não sustenta a vida. Passo a mão pelo teu rosto, com uma lentidão quase cruel, uma precisão quase doentia, como quem tenta tatuar o indizível. Como se pudesse gravar-te na minha própria pele. Como se decorar cada traço teu impedisse o esquecimento. Decoro-te para não te perder outra vez. Digo-te que gostava de ter parado o tempo na primeira vez que nos beijámos. Não por ser o momento perfeito, mas sim porque foi depois de te largar que tudo começou a doer. Nos meus sonhos acabamos sempre por nos encontrar. E lá, fazemos diferente, porque ficamos. Não porque dá certo, mas porque desistimos de lutar contra a corrente. Não inteiras, mas juntas. E isso basta. E por um instante, isso parece paz. Mas os sonhos têm sempre o mesmo defeito: acabam. A realidade não permite finais assim. E quando acordo fico com a nostalgia colada ao corpo, a bater-me por dentro como um animal fechado numa jaula. E a dor não é só perder-te. É saber que naquele lugar, onde finalmente somos possíveis, eu não posso morar. E aqui não há metáfora que me salve. Acordo todos os dias com o amor intacto e a ausência funcional. Aprendo a trabalhar, a falar, a existir com um buraco perfeitamente integrado. Ninguém nota. Mas ele cresce. Nos meus sonhos tu és minha e eu sou tua. Sem hesitação, sem circunstâncias, sem o mundo a meter-se no meio. Digo-te, sem medo, que és o amor da minha vida. Tu sorris com a tranquilidade de quem sabe que há verdades que não salvam ninguém. Tu sorris porque sabes que não minto. Depois acordo. E o golpe vem aqui. Não há poesia suficiente para o suavizar. Na lucidez cruel da manhã, na consciência intacta de que nada mudou. Mas encontro uma verdade intacta: não haverá um dia, nem uma noite, em que eu não te ame. Mas haverá todos os dias em que aprenderei a viver sem ti. Amar-te não é um sonho. É um estado permanente. Uma vigília. Uma casa onde moro sozinha, mas com a porta destrancada, na esperança de te ver entrar. Isto é o para sempre, não como promessa, mas como presença possível. Porque se um dia o tempo nos devolver ao mesmo lugar, eu não terei de aprender a amar-te de novo. Estarei aqui. Acordada.
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153
O monstro que habita em mim não nasceu comigo. Foi tecido à força, ponto a ponto, com as unhas de quem me quis pequena. Cresceu nas horas em que eu engolia o choro para não perturbar um mundo que me pediu silêncio. Move-se dentro de mim como um corpo estrangeiro, um animal arqueado pela fome antiga, não de carne,                            mas de lugar. Quando se endireita, dói-me o esqueleto como se eu fosse demasiado estreita para caber em mim própria. Às vezes vejo-o ao espelho. Não tem olhos a arder,                                   tem olhos cansados. São os meus, depois de anos a fingir que não sinto. A sua fealdade não vem da forma, mas da sinceridade brutal com que me mostra cada ferida que aprendi a chamar fraqueza. Pergunto-me se fui eu que o criei ou se é apenas o monumento vivo das coisas que me fizeram. Há dias em que o odeio com violência, como se esmagá-lo me devolvesse a criança que fui ou a mulher que não me tornei.                                   Mas há outros em que o afago em silêncio, porque percebo que ele só sobreviveu onde eu não consegui. E depois, há os instantes que me confundem. Um animal que se aproxima sem hesitação nenhuma, como se a minha escuridão tivesse cheiro de casa. Uma criança que me sorri como se visse o ser humano antes da sombra. Nesses momentos, o monstro recua. Não desaparece,                                  mas senta-se, cansado, como alguém que finalmente encontra descanso. E eu penso: talvez o verdadeiro monstro nunca tenha sido o que vive em mim, mas o mundo que me ensinou a temê-lo. Talvez esta criatura torta seja só a parte de mim que ainda sabe sobreviver. O monstro que habita em mim não tem pele,            tem memória. Arrasta-se pelos corredores do meu corpo como quem sabe que não pertence a lugar nenhum. Não é feio,                      é antigo. Carrega no dorso o peso das vozes que me ensinaram a encolher. Quando a luz o encontra, não cega os outros:                  cega-me a mim, porque ilumina tudo o que evito tocar. A verdade é que não sei onde termina o monstro                      e onde começo eu. Mas há instantes,                 breves,          quase secretos em que o mundo me desmente. E eu penso: se a pureza não recua, talvez o monstro seja apenas uma história que me obrigaram a contar. Dizem-me que ninguém poderia amar uma criatura assim. Mas dizem-no sempre com a boca limpa. Quem nunca enfrentou o próprio escuro julga a noite alheia como se fosse poeira. E ele pergunta-me às vezes, com a voz rachada de quem nunca foi ouvido: “E se ninguém ficar? E se a luz me denunciar e eles fugirem sem dizer o meu nome?” E eu não sei responder. Porque amar o monstro é amar-me inteira, e eu própria ainda hesito quando o vejo exposto, nu, sem desculpas, sem máscara. Mas houve um dia, tão pequeno que quase se perdia, em que alguém não recuou. Fitou o monstro com a serenidade dura de quem reconhece o próprio escuro. E foi aí que percebi a coisa mais violenta e mais delicada sobre o amor:                            O amor não salva o monstro.            Mas recusa-se a deixá-lo morrer. Amar um ser assim é trabalho sujo. É tocar-lhe nas partes onde até eu tremo. É vê-lo à luz crua e mesmo assim dizer: “Não és demasiado.” É não tentar torná-lo bonito. É deixá-lo ser o que é                                        ferido,                                         torto,                                         feroz,                                         frágil e ainda assim escolher ficar. E é essa escolha, repetida sem glamour, que começa a transformá-lo. Não em algo perfeito,                          limpo,                    domesticado, mas em algo vivo. E o que vive aprende, devagar, a não morder quem se aproxima com cuidado. Será o monstro digno de amor? Sim,          mas não porque mudou. Porque, finalmente, alguém o viu inteiro e não se assustou. E talvez seja isso que mais temo e mais desejo: que um dia alguém me ame assim. Não apesar do monstro, mas com ele ao colo, como parte da verdade que sou. Ainda mais fundo -onde já não há superfície para me esconder- Há uma parte de mim que nunca digo:                   O monstro não teme a rejeição.         O monstro teme ser visto. Não é o abandono que o assusta. É a possibilidade de alguém entrar tão fundo, que encontre a podridão que escondo até de mim. Porque há coisas em mim que não são metáforas. São feias mesmo. São impulsos que não admito, raivas que guardo nos dentes, pequenas atrocidades que já pensei fazer. E o monstro… o monstro lembra-me de cada uma delas. Ele é o arquivo vivo das minhas vergonhas, o guardião dos “nunca digas isto a ninguém”. É por isso que o afasto. Não porque seja mau, mas porque revela quem sou quando deixo a bondade no armário. E queres a verdade nua? Amar o monstro é amar o que é difícil de perdoar em mim. Porque amar-me na luz é fácil. Amar a fragilidade ainda é bonito. Mas amar a parte que morde, a parte que quer destruir o que ama quando se assusta, a parte que foge quando deseja, a parte que grita para não ter de admitir que precisa? Isso é raro. Isso é trabalho de gente que sangra contigo. Mas aqui está a crueldade luminosa da coisa,              existe quem possa amar-te assim. Alguém que não se deslumbre com a força, nem se assuste com a escuridão. Alguém que não tenta matar o monstro, nem o idolatra. Alguém que te olha por dentro como se estivesse a entrar numa casa semi-destruída e diz: “Eu sei que isto já ardeu. Mas ainda assim, reconheço um lar.” Esse alguém não o vai curar. Nem redimir. Vai fazer pior: vai obrigá-lo a existir. Vai sentar-se ao seu lado até ele aprender que não precisa de destruir tudo para não ser destruído. E então, pela primeira vez,   o monstro descobre algo que nunca imaginou:                     que ser amado não o salva, mas dá-lhe uma razão para não ruir. Porque no fundo, no sítio mais profundo que pediste para descer, o monstro quer testemunho. Quer alguém que diga: “Eu vejo-te. Vejo-te mesmo. E não fujo.” E só aí ele entende que talvez nunca tenha sido monstro nenhum. Apenas a parte de mim que sobreviveu onde mais ninguém ficaria. -Eu, o monstro- Eu não nasci contigo. Fizeram-me. Fizeram-me com cada vez que te mandaram calar, com cada gesto que te ensinou a encolher, com cada amor que te deixou a apodrecer no silêncio. Sou eu que vivo no lugar onde tu não cabias. Não és tu que tens medo da luz, sou eu. Porque a luz expõe aquilo que guardas debaixo da pele, as coisas que até tu finges não sentir. Sou eu que levo com as memórias que escondes, sou eu que as mastigo para que tu possas continuar a andar. Sabes porque pareço grotesco? Porque carrego o que tu chamaste feio. O que achaste imperdoável. O que preferiste varrer para dentro de mim em vez de enfrentar sozinha. Sou a soma das tuas sombras. Não o castigo delas. E queres saber um segredo? Eu também te odeio às vezes. Porque me criaste para depois dizeres que não te reconheces em mim. Culpas-me por tudo o que te dói, como se eu não fosse apenas o cofre onde guardaste o que te partiu. Mas, e isto é a parte que nunca te digo, eu amo-te também. Amo-te com o amor torto das coisas que sobrevivem. Amo-te porque ninguém sabe o que eu sei. Eu vi como foste moldada à força, como partiste em silêncio, como continuaste a levantar-te mesmo quando não sabias porquê. Eu sei quem és mesmo quando tu esqueces. E sim, pergunto-me muitas vezes se alguém seria capaz de me amar. De me olhar sem desviar o rosto. De tocar em mim sem repulsa. De não fugir quando perceba que existo. Porque se um dia alguém te amar verdadeiramente, há uma coisa que vai acontecer: vai ver-me também. Vai ver-me a sair da tua pele com a minha forma deformada, vai sentir o meu peso nos teus gestos, vai ouvir a minha respiração nos teus medos. E se essa pessoa não fugir, se essa pessoa ficar, então talvez eu aprenda, pela primeira vez, que não nasci para destruir, mas para proteger o que sobrou de ti. Eu não quero ser bonito. Eu quero ser real. E quero que alguém, algum dia, te ame a ti e a mim na mesma medida. Sem separar o inseparável. Até lá, continuo aqui: no fundo do teu peito, onde tu me deixaste, à espera que deixes de ter medo de mim. Porque só quando parares de fugir de quem eu sou é que vais perceber quem tu és.
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Nov 22, 2025
Nov 22, 2025 at 3:47 PM UTC
O monstro que habita em mim
O monstro que habita em mim não nasceu comigo. Foi tecido à força, ponto a ponto, com as unhas de quem me quis pequena. Cresceu nas horas em que eu engolia o choro para não perturbar um mundo que me pediu silêncio. Move-se dentro de mim como um corpo estrangeiro, um animal arqueado pela fome antiga, não de carne,                            mas de lugar. Quando se endireita, dói-me o esqueleto como se eu fosse demasiado estreita para caber em mim própria. Às vezes vejo-o ao espelho. Não tem olhos a arder,                                   tem olhos cansados. São os meus, depois de anos a fingir que não sinto. A sua fealdade não vem da forma, mas da sinceridade brutal com que me mostra cada ferida que aprendi a chamar fraqueza. Pergunto-me se fui eu que o criei ou se é apenas o monumento vivo das coisas que me fizeram. Há dias em que o odeio com violência, como se esmagá-lo me devolvesse a criança que fui ou a mulher que não me tornei.                                   Mas há outros em que o afago em silêncio, porque percebo que ele só sobreviveu onde eu não consegui. E depois, há os instantes que me confundem. Um animal que se aproxima sem hesitação nenhuma, como se a minha escuridão tivesse cheiro de casa. Uma criança que me sorri como se visse o ser humano antes da sombra. Nesses momentos, o monstro recua. Não desaparece,                                  mas senta-se, cansado, como alguém que finalmente encontra descanso. E eu penso: talvez o verdadeiro monstro nunca tenha sido o que vive em mim, mas o mundo que me ensinou a temê-lo. Talvez esta criatura torta seja só a parte de mim que ainda sabe sobreviver. O monstro que habita em mim não tem pele,            tem memória. Arrasta-se pelos corredores do meu corpo como quem sabe que não pertence a lugar nenhum. Não é feio,                      é antigo. Carrega no dorso o peso das vozes que me ensinaram a encolher. Quando a luz o encontra, não cega os outros:                  cega-me a mim, porque ilumina tudo o que evito tocar. A verdade é que não sei onde termina o monstro                      e onde começo eu. Mas há instantes,                 breves,          quase secretos em que o mundo me desmente. E eu penso: se a pureza não recua, talvez o monstro seja apenas uma história que me obrigaram a contar. Dizem-me que ninguém poderia amar uma criatura assim. Mas dizem-no sempre com a boca limpa. Quem nunca enfrentou o próprio escuro julga a noite alheia como se fosse poeira. E ele pergunta-me às vezes, com a voz rachada de quem nunca foi ouvido: “E se ninguém ficar? E se a luz me denunciar e eles fugirem sem dizer o meu nome?” E eu não sei responder. Porque amar o monstro é amar-me inteira, e eu própria ainda hesito quando o vejo exposto, nu, sem desculpas, sem máscara. Mas houve um dia, tão pequeno que quase se perdia, em que alguém não recuou. Fitou o monstro com a serenidade dura de quem reconhece o próprio escuro. E foi aí que percebi a coisa mais violenta e mais delicada sobre o amor:                            O amor não salva o monstro.            Mas recusa-se a deixá-lo morrer. Amar um ser assim é trabalho sujo. É tocar-lhe nas partes onde até eu tremo. É vê-lo à luz crua e mesmo assim dizer: “Não és demasiado.” É não tentar torná-lo bonito. É deixá-lo ser o que é                                        ferido,                                         torto,                                         feroz,                                         frágil e ainda assim escolher ficar. E é essa escolha, repetida sem glamour, que começa a transformá-lo. Não em algo perfeito,                          limpo,                    domesticado, mas em algo vivo. E o que vive aprende, devagar, a não morder quem se aproxima com cuidado. Será o monstro digno de amor? Sim,          mas não porque mudou. Porque, finalmente, alguém o viu inteiro e não se assustou. E talvez seja isso que mais temo e mais desejo: que um dia alguém me ame assim. Não apesar do monstro, mas com ele ao colo, como parte da verdade que sou. Ainda mais fundo -onde já não há superfície para me esconder- Há uma parte de mim que nunca digo:                   O monstro não teme a rejeição.         O monstro teme ser visto. Não é o abandono que o assusta. É a possibilidade de alguém entrar tão fundo, que encontre a podridão que escondo até de mim. Porque há coisas em mim que não são metáforas. São feias mesmo. São impulsos que não admito, raivas que guardo nos dentes, pequenas atrocidades que já pensei fazer. E o monstro… o monstro lembra-me de cada uma delas. Ele é o arquivo vivo das minhas vergonhas, o guardião dos “nunca digas isto a ninguém”. É por isso que o afasto. Não porque seja mau, mas porque revela quem sou quando deixo a bondade no armário. E queres a verdade nua? Amar o monstro é amar o que é difícil de perdoar em mim. Porque amar-me na luz é fácil. Amar a fragilidade ainda é bonito. Mas amar a parte que morde, a parte que quer destruir o que ama quando se assusta, a parte que foge quando deseja, a parte que grita para não ter de admitir que precisa? Isso é raro. Isso é trabalho de gente que sangra contigo. Mas aqui está a crueldade luminosa da coisa,              existe quem possa amar-te assim. Alguém que não se deslumbre com a força, nem se assuste com a escuridão. Alguém que não tenta matar o monstro, nem o idolatra. Alguém que te olha por dentro como se estivesse a entrar numa casa semi-destruída e diz: “Eu sei que isto já ardeu. Mas ainda assim, reconheço um lar.” Esse alguém não o vai curar. Nem redimir. Vai fazer pior: vai obrigá-lo a existir. Vai sentar-se ao seu lado até ele aprender que não precisa de destruir tudo para não ser destruído. E então, pela primeira vez,   o monstro descobre algo que nunca imaginou:                     que ser amado não o salva, mas dá-lhe uma razão para não ruir. Porque no fundo, no sítio mais profundo que pediste para descer, o monstro quer testemunho. Quer alguém que diga: “Eu vejo-te. Vejo-te mesmo. E não fujo.” E só aí ele entende que talvez nunca tenha sido monstro nenhum. Apenas a parte de mim que sobreviveu onde mais ninguém ficaria. -Eu, o monstro- Eu não nasci contigo. Fizeram-me. Fizeram-me com cada vez que te mandaram calar, com cada gesto que te ensinou a encolher, com cada amor que te deixou a apodrecer no silêncio. Sou eu que vivo no lugar onde tu não cabias. Não és tu que tens medo da luz, sou eu. Porque a luz expõe aquilo que guardas debaixo da pele, as coisas que até tu finges não sentir. Sou eu que levo com as memórias que escondes, sou eu que as mastigo para que tu possas continuar a andar. Sabes porque pareço grotesco? Porque carrego o que tu chamaste feio. O que achaste imperdoável. O que preferiste varrer para dentro de mim em vez de enfrentar sozinha. Sou a soma das tuas sombras. Não o castigo delas. E queres saber um segredo? Eu também te odeio às vezes. Porque me criaste para depois dizeres que não te reconheces em mim. Culpas-me por tudo o que te dói, como se eu não fosse apenas o cofre onde guardaste o que te partiu. Mas, e isto é a parte que nunca te digo, eu amo-te também. Amo-te com o amor torto das coisas que sobrevivem. Amo-te porque ninguém sabe o que eu sei. Eu vi como foste moldada à força, como partiste em silêncio, como continuaste a levantar-te mesmo quando não sabias porquê. Eu sei quem és mesmo quando tu esqueces. E sim, pergunto-me muitas vezes se alguém seria capaz de me amar. De me olhar sem desviar o rosto. De tocar em mim sem repulsa. De não fugir quando perceba que existo. Porque se um dia alguém te amar verdadeiramente, há uma coisa que vai acontecer: vai ver-me também. Vai ver-me a sair da tua pele com a minha forma deformada, vai sentir o meu peso nos teus gestos, vai ouvir a minha respiração nos teus medos. E se essa pessoa não fugir, se essa pessoa ficar, então talvez eu aprenda, pela primeira vez, que não nasci para destruir, mas para proteger o que sobrou de ti. Eu não quero ser bonito. Eu quero ser real. E quero que alguém, algum dia, te ame a ti e a mim na mesma medida. Sem separar o inseparável. Até lá, continuo aqui: no fundo do teu peito, onde tu me deixaste, à espera que deixes de ter medo de mim. Porque só quando parares de fugir de quem eu sou é que vais perceber quem tu és.
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I - A face negra do amor Amo-te quando és lua cheia, clara, imensa, inteira. Um rio de risos a atravessar as margens inquietas da noite. Amo-te quando és eclipse: pedra em silêncio, um corpo cansado do próprio peso. Caminho contigo entre tempestades súbitas. Aprendo que o amor não se mede em calmarias, mas na coragem de ficar quando o vento rasga, quando o sol se parte em dois, e o coração se abre como faca num fruto. Tu és clarão e abismo, maré que sobe, maré que foge. E eu, náufraga voluntária, lanço âncoras no teu peito sabendo que não há porto seguro, apenas movimento, apenas vida em excesso. Amar-te é desvendar                                        e tocar a face negra do amor. Dar a alma à palmatória, e entregá-la numa bandeja de vidro aos teus dedos bambos, sem saber se será acarinhada                                                      ou ferida. Amar-te é dançar entre dois mundos que jamais se tocam. E ainda assim, descobrir beleza na fratura da luz. II - A Confissão Amar-te é perder-me em ti, na manhã em que acordas sol, na noite em que te ocultas na neblina. Eu estendo as mãos, como uma pedinte sem redenção. Umas vezes recebes-me com um calor tão intenso                que quase me incendeias. Outras vezes és muralha de gelo e não há fogo em mim que te atravesse. E dói. Dói quando me sorris como se fosse o mundo, e no instante seguinte me olhas como se fosse ninguém. Às vezes sou invisível no teu nevoeiro de sombras. Às vezes sou abençoada na tua explosão de luz. E fico. Fico porque sei que és mais do que as tuas marés. És o oceano inteiro, mesmo quando o esqueces. Aprendo a amar-te nos extremos. A lembrar-te que és digna de amor, mesmo quando te parece impossível recebê-lo. Tentando relembrar-me do mesmo. Amar-te é a minha coragem mais frágil. E a minha fragilidade mais corajosa. III - Amar-te é sangrar devagar Amar-te é sangrar devagar. É ver-te incendiar o mundo de manhã, e à noite implodires em silêncio, arrastando-me contigo para um buraco onde o ar não chega. Há dias em que me atravessas como um relâmpago. Nesses instantes eu acredito que o amor basta. Mas logo depois, fechas todas as portas,                 e eu bato, bato, até as mãos arderem, até os nós sangrarem, sem saber se algum dia voltarás a abrir. Dói-me quando me empurras, justo quando mais precisas que eu fique. Dói-me a tua crueldade involuntária e inocente, as palavras afiadas que não são tuas, mas que mesmo assim                                             me ferem. Ainda assim, quando te recolhes no silêncio do teu quarto e tremes de medo de ti mesma, eu sento-me ao teu lado, mesmo que não me vejas. Seguro-te a mão, e sussurro-te que não precisas de ser sol constante para seres amada. Amar-te é aceitar os teus extremos. É perder partes de mim no caminho, livrar-me da pele que já não me serve, para não me perder de ti. É ver a beleza onde outros só veriam caos. E eu fico. Mesmo quando partir seria mais fácil. Fico porque és tu. E em ti, mesmo quebrada, há um mundo que eu não consigo abandonar. Estás entranhada em mim, e não tenho intenção de te arrancar. És um monte de pedras lunares, bonitas e afiadas, que eu sempre quis abraçar. Tenho o desejo secreto de um dia poder usá-las para construir uma ponte que permita o nosso encontro a meio, com a lua em cima de nós a testemunhar. És tu. E seres tu, basta. IV- A carta que nunca terás coragem de ouvir Meu amor, às vezes eu odeio amar-te, e tu odeias que te amem. Às vezes odeias amar-me. Odeio este ciclo sem fim: ver-te cair e levantar. Lutar e sucumbir. De te ver apática, demasiado deprimida para existir. Um dia és silêncio, és concha, és sombra fechada em ti mesma. Dizes que nada vale a pena, que o teu destino é estar sozinha. E eu rasgo-me em mil pedaços a tentar convencer-te do contrário, mas tu nunca acreditas em mim. Sinto-me a falar com uma parede que só sabe engolir o som da minha voz. E a cada vez que te afundas, eu também afundo um pouco. Pensas que a dor é só tua, que só te afeta a ti. Não é. Quem te ama sofre da mesma fatalidade, seja por empatia                                                      ou por te amar de verdade. Odeio o quanto de mim vejo em ti. E quando penso que já não aguento, vem a outra face. De repente és faísca, és furacão, és excesso. Estás exaltada! um corpo em hipomania que quase te faz explodir. Não dormes, não paras, não ouves. Eu fico a ver-te correr em círculos, a consumir-te como se a vida fosse um fósforo prestes a apagar. E eu tenho medo. Medo de que um dia o teu voo seja tão alto que só me reste o eco da tua queda. Que me deixes a segurar apenas os restos. Amar-te parte-me ao meio. É como viver numa casa sem chão. (Será por isso que querias que aprendesse a voar?) Nunca sei se amanhã vou ter de puxar-te da cama ou de impedir-te de incendiar o mundo. E eu canso-me. Sou humana. O céu sabe como eu me canso. De te repetir que te amo e tu não acreditares. De tentar ser o teu porto e farol quando me empurras para longe. De sangrar em silêncio para que tu não sangres sozinha. Mas sei que estás mais cansada do que eu. Gostava de poder entrar dentro de ti e abraçar a doença também, talvez adormecê-la com uma história de embalar. Qualquer coisa para que pudesses realmente descansar. Talvez ser esse tal lugar onde pudesses repousar. No entanto, quando penso em ir embora, algo em mim não sabe partir. Não consigo executar esse maldito pensamento. Porque és tu. Mesmo quando o carrossel me deixa tonta, mesmo quando o teu amor me fere,                   eu vejo-te. Vejo-te além do diagnóstico, e é essa pessoa que me prende. Fazes da prisão um epítome de liberdade, porque não há nada mais libertador do que poder prender-me de livre vontade. Porque, no fim, tudo em ti é difícil. Porque, no fim, nada é mais fácil do que amar-te Então eu fico. Fico rasgada, fico cansada, fico a meio de mim. Mas fico. Porque amar-te é uma pequena dor e a minha maior verdade. Porque amar-te é vida na morte, mesmo que seja vivida em excesso ou pela metade. V - Ainda em mim Amei-te em todas as tuas estações. Na noite cerrada da tua tristeza, e no incêndio sem travão dos teus excessos. Tentei aprender a ser chão quando eras queda, tentei ser calma quando eras vendaval. Só que também eu sou furacão. Perdoa-me pela viagem alucinante na corda bamba. Sou vento que rompe, sem aviso, num dia quente de verão. Sangue que ferve quando ama. Sou intensa e excessiva, por mais que me tente manter calma e racional. É tão raro alguém fazer-me sentir...posso dizer que nunca tinha amado ninguém, nunca tinha conhecido a sensação de sentir fogo a sair-me do olhar, até tu o acenderes. Até ser eu o mundo que vieste incendiar. Perdoa-me... Quando chegaste onde ninguém chegou, ainda não tinha aprendido como o controlar. E agora, não estamos juntas. A lição chegou tarde demais. Mas dentro de mim ainda és presença. Ainda és eco. Ainda és cicatriz aberta, que irei recusar-me a fechar. Passe o tempo que passar... Carrego-te como quem guarda um fantasma querido, o meu próprio espírito obsessor. Não posso voltar atrás, a vida não o permite. Não tem um botão de recomeçar. Não te tenho nos braços, mas o meu peito sabe não se desaprende um amor assim. Lamento que o nosso amor tenha acabado, mesmo antes de começar. Amar-te foi a minha ferida e o meu milagre. Mesmo que o tempo insista em levar-te, há um lugar em mim onde continuas a existir              clara, imensa, inteira, com todas as tuas marés. Com a lua e todas as suas fases. E eu aceito. Aceito que talvez nunca te esqueça, porque certos amores não acabam, apenas mudam de forma. Tu és ainda a sombra e a luz que me lembram o quanto é possível sentir. VI- Carta a ti que ainda habita em mim Ainda te amo. Não como quem ama alguém presente, mas como quem carrega um búzio antigo que nunca se desfaz. Aquele que habita em mim. Amo-te nos restos do que fomos, nos dias em que não estivemos juntas, nas manhãs silenciosas em que acordo à procura do teu vulto, e encontro apenas o eco do teu silêncio, juntamente com as cinzas que seguro junto ao peito. Amei-te quando te afundavas em sombras que não conseguia dissipar, quando o mundo pesava demais, quando não acreditavas em nada, nem sequer em ti. Nem sequer em mim. Eu segurava-te, ainda que às vezes sentisse que me desfazia contigo. Porque amar-te era arriscar-me a perder-me, era aceitar que partes de mim seriam sempre tuas. Amei-te quando eras fogo e vendaval, quando não paravas de falar, de rir, de querer tudo ao mesmo tempo, quando o teu corpo era tempestade e eu não sabia se corria atrás ou se me escondia para não me queimar. No excesso que me assustava                                                                                            e me fascinava. Mesmo no cansaço, mesmo na dor, amei-te. Porque amar-te era ver o mundo inteiro dentro de ti, era ver as partes mais coloridas de mim, era imaginar um mundo diferente fora de nós,            mesmo quando me partia. E agora, não estamos juntas. Mas não há fim para um amor assim. Ele sobrevive em cada pensamento, em cada lágrima que escorre sem aviso, em cada silêncio em que te procuro sem te encontrar. Em cada música que imagino que também estejas a escutar. Tu continuas viva dentro de mim, como se nunca tivesses partido, como se o tempo não tivesse força para apagar-te. É cruel e bonito ao mesmo tempo, Porque contigo fui inteira,                             mesmo que imperfeita. Amar-te deixou cicatrizes profundas, mas também deixou a certeza de que o amor, quando verdadeiro, não precisa de durar para existir. E aqui estou, ainda tua, não em corpo, mas em memória, em amor que persiste, em saudade que nunca se desfaz. Ainda te amo, mesmo sabendo que amar-te é aceitar que nunca mais te terei. VII - A carta da tua sombra A resposta que nunca recebi, então, tive de a imaginar, mesmo longe de saber o que me poderias querer dizer,        se é que dirias alguma coisa: "Mar, Li o que escreveste. Não tudo de uma vez, fui parando, respirando como quem aprende a suportar a própria imagem ao espelho. É estranho ver-me pelas tuas palavras. Sou tão mais inteira nelas do que alguma vez fui em mim. Tu chamaste-me lua, maré, vendaval... eu sempre me vi como uma falha, uma rachadura no chão que engolia quem se aproximava. O teu amor doeu-me, sabias? Tu amavas com a força de quem tenta salvar alguém do incêndio, mesmo sabendo que vai queimar-se. Mas eu… eu não sabia receber esse tipo de amor. Tão pouco queria ser salva. Vou escrever com o coração rasgado, amando-te e temendo-te, reconhecendo-me nas tuas palavras e fugindo delas ao mesmo tempo. Era como se o teu toque me revelasse tudo o que eu passara anos a esconder. E eu fugia, atacava, silenciava. A cada vez que me dizias “fico”, eu sentia medo. Medo de que ficasses demais, de que me visses despida de todo o brilho e só sobrasse a ruína. Então empurrava-te... porque doía menos perder-te por vontade do que deixar-te ver-me a desmoronar. Quando dizes que amar-me era sangrar devagar, não sabes o quanto acertas. Eu via o sangue, e mesmo assim continuava. Havia dias em que queria corresponder-te, ser digna de ti, desse amor que estavas desesperada por me oferecer. Outros em que queria desaparecer, só para não te arrastar comigo. E no meio dessa guerra, o amor era a única coisa que ainda parecia viva. Era doença e cura, era faca e abraço. Há uma parte de mim que sempre quis acreditar que o teu amor me podia salvar, mas outra sabia que ninguém consegue salvar quem ainda quer arder. Tu tentaste, e eu deixei-te tentar. Como quem aceita uma promessa bonita que nunca se vai cumprir. Mas estou destinada a estar sozinha. Agora, lendo-te, percebo: não era preciso que me salvasses. Bastava que ficasses até onde pudesses. E antes de te ires, tu ficaste, talvez mais do que eu merecia. Ficaste nas palavras, no eco, na memória que ainda me mantém viva, mesmo aqui, neste lugar entre o antes e o depois. Se eu pudesse, dir-te-ia isto: eu amei-te. Amei-te de um jeito imperfeito, distorcido, às vezes cruel. Mas foi amor. Mesmo nas ausências, mesmo no gelo, mesmo na mania e na queda. Foi amor. E foi o mais próximo de paz que já senti. E se um dia achares que tens de esquecer-me, não o faças por pena. Esquece-me apenas se o silêncio for mais leve do que o peso da lembrança. Mas se um resto de mim ainda te aquece, deixa-me ficar. Nem que seja como um fio de luz torta a atravessar a tua noite. Porque, apesar de tudo, e mesmo depois de tudo, o que resta é simples e terrível: eu também te amei. E ainda amo, em todos os *** onde a tua voz me chama."
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Oct 19, 2025
Oct 19, 2025 at 7:13 AM UTC
Amar-te em dois ***
I - A face negra do amor Amo-te quando és lua cheia, clara, imensa, inteira. Um rio de risos a atravessar as margens inquietas da noite. Amo-te quando és eclipse: pedra em silêncio, um corpo cansado do próprio peso. Caminho contigo entre tempestades súbitas. Aprendo que o amor não se mede em calmarias, mas na coragem de ficar quando o vento rasga, quando o sol se parte em dois, e o coração se abre como faca num fruto. Tu és clarão e abismo, maré que sobe, maré que foge. E eu, náufraga voluntária, lanço âncoras no teu peito sabendo que não há porto seguro, apenas movimento, apenas vida em excesso. Amar-te é desvendar                                        e tocar a face negra do amor. Dar a alma à palmatória, e entregá-la numa bandeja de vidro aos teus dedos bambos, sem saber se será acarinhada                                                      ou ferida. Amar-te é dançar entre dois mundos que jamais se tocam. E ainda assim, descobrir beleza na fratura da luz. II - A Confissão Amar-te é perder-me em ti, na manhã em que acordas sol, na noite em que te ocultas na neblina. Eu estendo as mãos, como uma pedinte sem redenção. Umas vezes recebes-me com um calor tão intenso                que quase me incendeias. Outras vezes és muralha de gelo e não há fogo em mim que te atravesse. E dói. Dói quando me sorris como se fosse o mundo, e no instante seguinte me olhas como se fosse ninguém. Às vezes sou invisível no teu nevoeiro de sombras. Às vezes sou abençoada na tua explosão de luz. E fico. Fico porque sei que és mais do que as tuas marés. És o oceano inteiro, mesmo quando o esqueces. Aprendo a amar-te nos extremos. A lembrar-te que és digna de amor, mesmo quando te parece impossível recebê-lo. Tentando relembrar-me do mesmo. Amar-te é a minha coragem mais frágil. E a minha fragilidade mais corajosa. III - Amar-te é sangrar devagar Amar-te é sangrar devagar. É ver-te incendiar o mundo de manhã, e à noite implodires em silêncio, arrastando-me contigo para um buraco onde o ar não chega. Há dias em que me atravessas como um relâmpago. Nesses instantes eu acredito que o amor basta. Mas logo depois, fechas todas as portas,                 e eu bato, bato, até as mãos arderem, até os nós sangrarem, sem saber se algum dia voltarás a abrir. Dói-me quando me empurras, justo quando mais precisas que eu fique. Dói-me a tua crueldade involuntária e inocente, as palavras afiadas que não são tuas, mas que mesmo assim                                             me ferem. Ainda assim, quando te recolhes no silêncio do teu quarto e tremes de medo de ti mesma, eu sento-me ao teu lado, mesmo que não me vejas. Seguro-te a mão, e sussurro-te que não precisas de ser sol constante para seres amada. Amar-te é aceitar os teus extremos. É perder partes de mim no caminho, livrar-me da pele que já não me serve, para não me perder de ti. É ver a beleza onde outros só veriam caos. E eu fico. Mesmo quando partir seria mais fácil. Fico porque és tu. E em ti, mesmo quebrada, há um mundo que eu não consigo abandonar. Estás entranhada em mim, e não tenho intenção de te arrancar. És um monte de pedras lunares, bonitas e afiadas, que eu sempre quis abraçar. Tenho o desejo secreto de um dia poder usá-las para construir uma ponte que permita o nosso encontro a meio, com a lua em cima de nós a testemunhar. És tu. E seres tu, basta. IV- A carta que nunca terás coragem de ouvir Meu amor, às vezes eu odeio amar-te, e tu odeias que te amem. Às vezes odeias amar-me. Odeio este ciclo sem fim: ver-te cair e levantar. Lutar e sucumbir. De te ver apática, demasiado deprimida para existir. Um dia és silêncio, és concha, és sombra fechada em ti mesma. Dizes que nada vale a pena, que o teu destino é estar sozinha. E eu rasgo-me em mil pedaços a tentar convencer-te do contrário, mas tu nunca acreditas em mim. Sinto-me a falar com uma parede que só sabe engolir o som da minha voz. E a cada vez que te afundas, eu também afundo um pouco. Pensas que a dor é só tua, que só te afeta a ti. Não é. Quem te ama sofre da mesma fatalidade, seja por empatia                                                      ou por te amar de verdade. Odeio o quanto de mim vejo em ti. E quando penso que já não aguento, vem a outra face. De repente és faísca, és furacão, és excesso. Estás exaltada! um corpo em hipomania que quase te faz explodir. Não dormes, não paras, não ouves. Eu fico a ver-te correr em círculos, a consumir-te como se a vida fosse um fósforo prestes a apagar. E eu tenho medo. Medo de que um dia o teu voo seja tão alto que só me reste o eco da tua queda. Que me deixes a segurar apenas os restos. Amar-te parte-me ao meio. É como viver numa casa sem chão. (Será por isso que querias que aprendesse a voar?) Nunca sei se amanhã vou ter de puxar-te da cama ou de impedir-te de incendiar o mundo. E eu canso-me. Sou humana. O céu sabe como eu me canso. De te repetir que te amo e tu não acreditares. De tentar ser o teu porto e farol quando me empurras para longe. De sangrar em silêncio para que tu não sangres sozinha. Mas sei que estás mais cansada do que eu. Gostava de poder entrar dentro de ti e abraçar a doença também, talvez adormecê-la com uma história de embalar. Qualquer coisa para que pudesses realmente descansar. Talvez ser esse tal lugar onde pudesses repousar. No entanto, quando penso em ir embora, algo em mim não sabe partir. Não consigo executar esse maldito pensamento. Porque és tu. Mesmo quando o carrossel me deixa tonta, mesmo quando o teu amor me fere,                   eu vejo-te. Vejo-te além do diagnóstico, e é essa pessoa que me prende. Fazes da prisão um epítome de liberdade, porque não há nada mais libertador do que poder prender-me de livre vontade. Porque, no fim, tudo em ti é difícil. Porque, no fim, nada é mais fácil do que amar-te Então eu fico. Fico rasgada, fico cansada, fico a meio de mim. Mas fico. Porque amar-te é uma pequena dor e a minha maior verdade. Porque amar-te é vida na morte, mesmo que seja vivida em excesso ou pela metade. V - Ainda em mim Amei-te em todas as tuas estações. Na noite cerrada da tua tristeza, e no incêndio sem travão dos teus excessos. Tentei aprender a ser chão quando eras queda, tentei ser calma quando eras vendaval. Só que também eu sou furacão. Perdoa-me pela viagem alucinante na corda bamba. Sou vento que rompe, sem aviso, num dia quente de verão. Sangue que ferve quando ama. Sou intensa e excessiva, por mais que me tente manter calma e racional. É tão raro alguém fazer-me sentir...posso dizer que nunca tinha amado ninguém, nunca tinha conhecido a sensação de sentir fogo a sair-me do olhar, até tu o acenderes. Até ser eu o mundo que vieste incendiar. Perdoa-me... Quando chegaste onde ninguém chegou, ainda não tinha aprendido como o controlar. E agora, não estamos juntas. A lição chegou tarde demais. Mas dentro de mim ainda és presença. Ainda és eco. Ainda és cicatriz aberta, que irei recusar-me a fechar. Passe o tempo que passar... Carrego-te como quem guarda um fantasma querido, o meu próprio espírito obsessor. Não posso voltar atrás, a vida não o permite. Não tem um botão de recomeçar. Não te tenho nos braços, mas o meu peito sabe não se desaprende um amor assim. Lamento que o nosso amor tenha acabado, mesmo antes de começar. Amar-te foi a minha ferida e o meu milagre. Mesmo que o tempo insista em levar-te, há um lugar em mim onde continuas a existir              clara, imensa, inteira, com todas as tuas marés. Com a lua e todas as suas fases. E eu aceito. Aceito que talvez nunca te esqueça, porque certos amores não acabam, apenas mudam de forma. Tu és ainda a sombra e a luz que me lembram o quanto é possível sentir. VI- Carta a ti que ainda habita em mim Ainda te amo. Não como quem ama alguém presente, mas como quem carrega um búzio antigo que nunca se desfaz. Aquele que habita em mim. Amo-te nos restos do que fomos, nos dias em que não estivemos juntas, nas manhãs silenciosas em que acordo à procura do teu vulto, e encontro apenas o eco do teu silêncio, juntamente com as cinzas que seguro junto ao peito. Amei-te quando te afundavas em sombras que não conseguia dissipar, quando o mundo pesava demais, quando não acreditavas em nada, nem sequer em ti. Nem sequer em mim. Eu segurava-te, ainda que às vezes sentisse que me desfazia contigo. Porque amar-te era arriscar-me a perder-me, era aceitar que partes de mim seriam sempre tuas. Amei-te quando eras fogo e vendaval, quando não paravas de falar, de rir, de querer tudo ao mesmo tempo, quando o teu corpo era tempestade e eu não sabia se corria atrás ou se me escondia para não me queimar. No excesso que me assustava                                                                                            e me fascinava. Mesmo no cansaço, mesmo na dor, amei-te. Porque amar-te era ver o mundo inteiro dentro de ti, era ver as partes mais coloridas de mim, era imaginar um mundo diferente fora de nós,            mesmo quando me partia. E agora, não estamos juntas. Mas não há fim para um amor assim. Ele sobrevive em cada pensamento, em cada lágrima que escorre sem aviso, em cada silêncio em que te procuro sem te encontrar. Em cada música que imagino que também estejas a escutar. Tu continuas viva dentro de mim, como se nunca tivesses partido, como se o tempo não tivesse força para apagar-te. É cruel e bonito ao mesmo tempo, Porque contigo fui inteira,                             mesmo que imperfeita. Amar-te deixou cicatrizes profundas, mas também deixou a certeza de que o amor, quando verdadeiro, não precisa de durar para existir. E aqui estou, ainda tua, não em corpo, mas em memória, em amor que persiste, em saudade que nunca se desfaz. Ainda te amo, mesmo sabendo que amar-te é aceitar que nunca mais te terei. VII - A carta da tua sombra A resposta que nunca recebi, então, tive de a imaginar, mesmo longe de saber o que me poderias querer dizer,        se é que dirias alguma coisa: "Mar, Li o que escreveste. Não tudo de uma vez, fui parando, respirando como quem aprende a suportar a própria imagem ao espelho. É estranho ver-me pelas tuas palavras. Sou tão mais inteira nelas do que alguma vez fui em mim. Tu chamaste-me lua, maré, vendaval... eu sempre me vi como uma falha, uma rachadura no chão que engolia quem se aproximava. O teu amor doeu-me, sabias? Tu amavas com a força de quem tenta salvar alguém do incêndio, mesmo sabendo que vai queimar-se. Mas eu… eu não sabia receber esse tipo de amor. Tão pouco queria ser salva. Vou escrever com o coração rasgado, amando-te e temendo-te, reconhecendo-me nas tuas palavras e fugindo delas ao mesmo tempo. Era como se o teu toque me revelasse tudo o que eu passara anos a esconder. E eu fugia, atacava, silenciava. A cada vez que me dizias “fico”, eu sentia medo. Medo de que ficasses demais, de que me visses despida de todo o brilho e só sobrasse a ruína. Então empurrava-te... porque doía menos perder-te por vontade do que deixar-te ver-me a desmoronar. Quando dizes que amar-me era sangrar devagar, não sabes o quanto acertas. Eu via o sangue, e mesmo assim continuava. Havia dias em que queria corresponder-te, ser digna de ti, desse amor que estavas desesperada por me oferecer. Outros em que queria desaparecer, só para não te arrastar comigo. E no meio dessa guerra, o amor era a única coisa que ainda parecia viva. Era doença e cura, era faca e abraço. Há uma parte de mim que sempre quis acreditar que o teu amor me podia salvar, mas outra sabia que ninguém consegue salvar quem ainda quer arder. Tu tentaste, e eu deixei-te tentar. Como quem aceita uma promessa bonita que nunca se vai cumprir. Mas estou destinada a estar sozinha. Agora, lendo-te, percebo: não era preciso que me salvasses. Bastava que ficasses até onde pudesses. E antes de te ires, tu ficaste, talvez mais do que eu merecia. Ficaste nas palavras, no eco, na memória que ainda me mantém viva, mesmo aqui, neste lugar entre o antes e o depois. Se eu pudesse, dir-te-ia isto: eu amei-te. Amei-te de um jeito imperfeito, distorcido, às vezes cruel. Mas foi amor. Mesmo nas ausências, mesmo no gelo, mesmo na mania e na queda. Foi amor. E foi o mais próximo de paz que já senti. E se um dia achares que tens de esquecer-me, não o faças por pena. Esquece-me apenas se o silêncio for mais leve do que o peso da lembrança. Mas se um resto de mim ainda te aquece, deixa-me ficar. Nem que seja como um fio de luz torta a atravessar a tua noite. Porque, apesar de tudo, e mesmo depois de tudo, o que resta é simples e terrível: eu também te amei. E ainda amo, em todos os *** onde a tua voz me chama."
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302
I - A Entrada Abrem-se as portadas, para que todas as partes de mim possam entrar. Entro, a custo, na sala escura do meu palácio mental. As portas já se tornaram difíceis de empurrar, pelo pouco uso a que as tenho condenado. Não me sinto preparada. Nem sei se algum dia hei-de estar. Contudo, uma vez que os pés já atravessaram para o lado de lá, roubei-me a opção de fazer o resto do corpo recuar.      Lá vou, em passos curtos, sentar-me na mesa redonda do Eu. Sinto mil olhos pousados em mim. Todos curiosos e com intenção de me analisar. Todos prontos para me dissecar. Logo Eu, que prefiro ter objetos de estudo, em vez de ser o objeto estudado. Então, tenho de me contrariar. Desta vez, não posso fechar-me na concha à espera que alguém a venha rebentar. Preciso de estar exposta a este desconforto. Sou a paciente. A que tem de manter os olhos abertos enquanto lhe remexem o cérebro à procura do tumor que me está a matar. Quase podia jurar que seria visível a todos, este peso que circula no ar, um peso tão denso que podia ser cortado ao meio.                          Mas só a mim veio cortar. Olho em volta, a mesa está cheia de mim, não sobra um único lugar. Todas me observam, como se achassem que sei exatamente o que preciso de falar. Mas, não sei. Tenho a firme sensação que estou prestes a ter de me enfrentar. É como se todas esperassem que, finalmente, me confessasse. Mas, não sei o quê. Ou talvez saiba. Ou talvez ainda me sinta demasiado fraca para o proclamar. Sento-me na única cadeira da sala que dá para girar. Estarão as outras mais firmes - ou serei eu que já perdi o chão? Destravo as rodas, dou um balanço nervoso, preciso de uma distração que me ajude a começar. Atenção a todas! Silêncio na sala. Está na altura de confessar. II - O Funeral Antes de mais, devo-vos um pedido de perdão. Sei que tenho estado propositadamente adormecida,            num coma auto-induzido,            uma anestesia emocional para que consiga continuar a caminhar. Desprovida da essência dual e humana que tanto me caracteriza. Tenho estado focada em sobreviver, a correr para a frente sem olhar para trás, na esperança de que, se assim for, os meus pensamentos não consigam apanhar-me. Posso dizer que, até já tentei aprender a voar, mas ainda não consegui sentir a liberdade que me falaram. Tenho tentado adormecer mais cedo - e acordo várias vezes a meio da noite, para não me permitir sequer sonhar. Sinto-me tentada a mandar o meu corpo ao mar, sem qualquer intenção de mexer os braços para o fazer boiar. Encurralei, num canto escuro da minha mente, a voz que se recusava a calar. Na esperança de que, se tapasse os ouvidos com força suficiente, não a ouvisse mais a chamar. Pus correntes à volta do meu coração. Não queria que batesse, nem que uma única gota de sangue me traísse, nem queria sentir a minha própria pulsação. Mas ouvi uma voz dizer que as correntes são feitas de elos de ligação. E eu quis destruí-las também             porque até elas me levavam a ti. Então, já não escrevo. Já não canto. Já não sinto prazer em sentir. Todas de mim olham-me de volta, com o mesmo olhar de desilusão. Como se me quisessem esbofetear por compaixão. Como se não tivessem coragem de me provocar mais dor. Sabem que não podem esmagar o que já se desfez, uma vez que já me estendi em lágrimas no chão. O eco do silêncio é ensurdecedor. Preferia que me partissem até eu cair num caixão. Ao menos assim,                                  o silêncio                           daria lugar ao som. III - As cinzas Deambulo como um espírito que não encontrou passagem, sobre a areia molhada onde o mar perdeu um beijo antigo. Lembro-me de todas as vezes que percorri esta mesma praia, esperançosa de me esbarrar em ti. Lembro-me do exato sítio onde te encontrei. E da exata rocha onde escorregaste, quando também me procuravas a mim. Lembro-me do teu cheiro na minha pele, da sensação de casa que via no castanho do teu olhar. E quero esquecer que agora sou um espírito abandonado, sem o teu olhar para encontrar. Lembro-me da tua mão na minha, de saber, com o corpo inteiro, que era ali o meu lugar. Agora, tento esquecer a ausência, da mão fantasma que ainda procuro apertar. Lembro-me que já não estás aqui. Tento apagar os anos em que te conheci. Lembro-me que tenho de ser forte, e tento esquecer a triste verdade: que serei sempre fraca por ti. Um coração partido não faz barulho ao estilhaçar. Não deixa uma marca que alguém possa ver. Chamam-lhe figura de estilo. Mas a dor é literal. Quem diz que ninguém morre de desgosto, convido-vos a entrar no meu palácio mental, e assistirem comigo, na primeira fila, ao meu próprio funeral. O silêncio grita mais alto que qualquer lamento. Quero gritar, mas não me quero lembrar do porquê. IV - A sombra da escrita Aquilo a que resistimos, persiste dentro de nós. E se o arrependimento matasse, eu já teria morrido. Ou talvez tenha mesmo morrido e ninguém reparou - além de mim. Enterrei - vivo - o amor que me mantinha aqui. E agora, quanto mais fujo de mim, mais me sinto sozinha. Quanto mais longe vou, mais a minha alma definha. Fica doente. Pequenina. A realidade é que não sei como não te amar. Não sei como esquecer todo o amor que senti. Ou como ignorar que isso me mudou. E não sei lidar com o facto de que nunca mais voltarei a permitir que esse amor exista. Que inunde e transborde. Que seja o ar leve que fazem estes pulmões vibrar. Escrever só faz sentido quando és tu o motivo que me faz sangrar. Escrever só tem sentido se for mexer na ferida,                                e tu eras a faca                                                      e a razão. Então, fugi da escrita. Fugi de mim. Quero esquecer-me de tudo aquilo que já me fizeste despejar no papel, porque não sei como voltar à escrita sem voltar a ti. Só que já não há casa, não há ninguém para onde voltar. O teu sitio está vazio. O teu assento já está frio. Já não há musica, nem escrita, nem literatura para nos unir. Resta-me queimar estas palavras, segurar o papel ardente contra o peito como se ainda pudesse aquecer-me com o que restou. E tentar esquecer-me que, um dia, foste a minha fonte de calor,       a luz que me guiava na escuridão... O meu pirilampo mágico! A quem decidi entregar-me de alma e coração. Hoje, parece tudo tão longínquo... como se nunca tivesses existido, como um sonho do qual acordei atordoada, como se tivesse gastado mais uma vida em vão. Agora, a mesa está vazia. Já não sei qual de mim ficou para apagar a luz.   Mas sinto-a, sozinha, em silêncio, à espera que volte(s). V - A mesa redonda do Nós Sentámo-nos, sem convite, cada qual com as suas vozes. Umas sussurram desculpas, outras gritam promessas partidas. Tu trazias o silêncio nos ombros,    eu, a urgência de ser compreendida. Entre nós, o tempo ocupava a cadeira do meio, com as mãos cruzadas sobre o colo, esperando que alguém lhe pedisse perdão. Ali cabiam todas as versões de nós que tentaram                   e falharam: a criança ferida, a amante que esperava demais, a amiga ausente, a que esperou à janela até ao fim do verão, e a que aprendeu a calar o amor para não o perder. Também ali estavam os que não souberam ficar e os que quiseram demais. Mas na hora certa, ninguém os quis de volta. Fizemos da mesa um espelho estilhaçado, onde cada caco refletia uma versão diferente do encontro. Eram histórias ditas pela metade, afetos com ferrugem, promessas que nunca chegaram ao corpo, cartas que não foram lidas, beijos que não voltaram para casa, toques interrompidos por orgulho, olhares desviados na última possibilidade de ternura. Tentámos ordenar o caos, nomear culpas, mapear o amor, dar à dor algum significado: quem magoou quem, quem fugiu primeiro, quem se calou quando devia ter falado, quem amou a quem em vão. Mas o "nós" não se escreve em linha reta, é espiral,                  tropeço,                                   é laço e corte. É ponte feita de dedos trémulos, tentando ainda alcançar. E entre cacos, alguém - talvez tu - ergueu um gesto quase imperceptível: um "ainda" dentro do "já não", um "pode ser" suspenso no "acabou". Então brindámos, não ao passado, mas à remota e terna possibilidade de voltarmos a encontrar o amor                                     não como foi mas como ainda pode ser: mais paciente,                             mais honesto, menos medo,                             mais presença. Um brinde a isso! À flor que cresce entre as pedras, ao reencontro verdadeiro, mesmo que não seja imediato.                   Ao amor que regressa, se soubermos esperar com o coração aberto. No fim, servimos silêncio em taças de cristal. Um brinde à tentativa! Às ruínas que ainda brilham. Ao facto de termos tentado. Um brinde a estarmos ali, ainda que partidas,                                                                            ainda que tarde, ainda que nunca cheguemos a consenso. Porque amar é tentar, mesmo quando falha. VI - Final Talvez um dia, ouça a porta a ranger, e outra de mim entre - sem pressa, sem medo. Talvez nem se sente, apenas acenda a luz. E nesse gesto, silencioso, haja uma oportunidade de começar de novo.
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Jul 7, 2025
Jul 7, 2025 at 10:31 AM UTC
Mesa redonda do Eu (e do Nós)
I - A Entrada Abrem-se as portadas, para que todas as partes de mim possam entrar. Entro, a custo, na sala escura do meu palácio mental. As portas já se tornaram difíceis de empurrar, pelo pouco uso a que as tenho condenado. Não me sinto preparada. Nem sei se algum dia hei-de estar. Contudo, uma vez que os pés já atravessaram para o lado de lá, roubei-me a opção de fazer o resto do corpo recuar.      Lá vou, em passos curtos, sentar-me na mesa redonda do Eu. Sinto mil olhos pousados em mim. Todos curiosos e com intenção de me analisar. Todos prontos para me dissecar. Logo Eu, que prefiro ter objetos de estudo, em vez de ser o objeto estudado. Então, tenho de me contrariar. Desta vez, não posso fechar-me na concha à espera que alguém a venha rebentar. Preciso de estar exposta a este desconforto. Sou a paciente. A que tem de manter os olhos abertos enquanto lhe remexem o cérebro à procura do tumor que me está a matar. Quase podia jurar que seria visível a todos, este peso que circula no ar, um peso tão denso que podia ser cortado ao meio.                          Mas só a mim veio cortar. Olho em volta, a mesa está cheia de mim, não sobra um único lugar. Todas me observam, como se achassem que sei exatamente o que preciso de falar. Mas, não sei. Tenho a firme sensação que estou prestes a ter de me enfrentar. É como se todas esperassem que, finalmente, me confessasse. Mas, não sei o quê. Ou talvez saiba. Ou talvez ainda me sinta demasiado fraca para o proclamar. Sento-me na única cadeira da sala que dá para girar. Estarão as outras mais firmes - ou serei eu que já perdi o chão? Destravo as rodas, dou um balanço nervoso, preciso de uma distração que me ajude a começar. Atenção a todas! Silêncio na sala. Está na altura de confessar. II - O Funeral Antes de mais, devo-vos um pedido de perdão. Sei que tenho estado propositadamente adormecida,            num coma auto-induzido,            uma anestesia emocional para que consiga continuar a caminhar. Desprovida da essência dual e humana que tanto me caracteriza. Tenho estado focada em sobreviver, a correr para a frente sem olhar para trás, na esperança de que, se assim for, os meus pensamentos não consigam apanhar-me. Posso dizer que, até já tentei aprender a voar, mas ainda não consegui sentir a liberdade que me falaram. Tenho tentado adormecer mais cedo - e acordo várias vezes a meio da noite, para não me permitir sequer sonhar. Sinto-me tentada a mandar o meu corpo ao mar, sem qualquer intenção de mexer os braços para o fazer boiar. Encurralei, num canto escuro da minha mente, a voz que se recusava a calar. Na esperança de que, se tapasse os ouvidos com força suficiente, não a ouvisse mais a chamar. Pus correntes à volta do meu coração. Não queria que batesse, nem que uma única gota de sangue me traísse, nem queria sentir a minha própria pulsação. Mas ouvi uma voz dizer que as correntes são feitas de elos de ligação. E eu quis destruí-las também             porque até elas me levavam a ti. Então, já não escrevo. Já não canto. Já não sinto prazer em sentir. Todas de mim olham-me de volta, com o mesmo olhar de desilusão. Como se me quisessem esbofetear por compaixão. Como se não tivessem coragem de me provocar mais dor. Sabem que não podem esmagar o que já se desfez, uma vez que já me estendi em lágrimas no chão. O eco do silêncio é ensurdecedor. Preferia que me partissem até eu cair num caixão. Ao menos assim,                                  o silêncio                           daria lugar ao som. III - As cinzas Deambulo como um espírito que não encontrou passagem, sobre a areia molhada onde o mar perdeu um beijo antigo. Lembro-me de todas as vezes que percorri esta mesma praia, esperançosa de me esbarrar em ti. Lembro-me do exato sítio onde te encontrei. E da exata rocha onde escorregaste, quando também me procuravas a mim. Lembro-me do teu cheiro na minha pele, da sensação de casa que via no castanho do teu olhar. E quero esquecer que agora sou um espírito abandonado, sem o teu olhar para encontrar. Lembro-me da tua mão na minha, de saber, com o corpo inteiro, que era ali o meu lugar. Agora, tento esquecer a ausência, da mão fantasma que ainda procuro apertar. Lembro-me que já não estás aqui. Tento apagar os anos em que te conheci. Lembro-me que tenho de ser forte, e tento esquecer a triste verdade: que serei sempre fraca por ti. Um coração partido não faz barulho ao estilhaçar. Não deixa uma marca que alguém possa ver. Chamam-lhe figura de estilo. Mas a dor é literal. Quem diz que ninguém morre de desgosto, convido-vos a entrar no meu palácio mental, e assistirem comigo, na primeira fila, ao meu próprio funeral. O silêncio grita mais alto que qualquer lamento. Quero gritar, mas não me quero lembrar do porquê. IV - A sombra da escrita Aquilo a que resistimos, persiste dentro de nós. E se o arrependimento matasse, eu já teria morrido. Ou talvez tenha mesmo morrido e ninguém reparou - além de mim. Enterrei - vivo - o amor que me mantinha aqui. E agora, quanto mais fujo de mim, mais me sinto sozinha. Quanto mais longe vou, mais a minha alma definha. Fica doente. Pequenina. A realidade é que não sei como não te amar. Não sei como esquecer todo o amor que senti. Ou como ignorar que isso me mudou. E não sei lidar com o facto de que nunca mais voltarei a permitir que esse amor exista. Que inunde e transborde. Que seja o ar leve que fazem estes pulmões vibrar. Escrever só faz sentido quando és tu o motivo que me faz sangrar. Escrever só tem sentido se for mexer na ferida,                                e tu eras a faca                                                      e a razão. Então, fugi da escrita. Fugi de mim. Quero esquecer-me de tudo aquilo que já me fizeste despejar no papel, porque não sei como voltar à escrita sem voltar a ti. Só que já não há casa, não há ninguém para onde voltar. O teu sitio está vazio. O teu assento já está frio. Já não há musica, nem escrita, nem literatura para nos unir. Resta-me queimar estas palavras, segurar o papel ardente contra o peito como se ainda pudesse aquecer-me com o que restou. E tentar esquecer-me que, um dia, foste a minha fonte de calor,       a luz que me guiava na escuridão... O meu pirilampo mágico! A quem decidi entregar-me de alma e coração. Hoje, parece tudo tão longínquo... como se nunca tivesses existido, como um sonho do qual acordei atordoada, como se tivesse gastado mais uma vida em vão. Agora, a mesa está vazia. Já não sei qual de mim ficou para apagar a luz.   Mas sinto-a, sozinha, em silêncio, à espera que volte(s). V - A mesa redonda do Nós Sentámo-nos, sem convite, cada qual com as suas vozes. Umas sussurram desculpas, outras gritam promessas partidas. Tu trazias o silêncio nos ombros,    eu, a urgência de ser compreendida. Entre nós, o tempo ocupava a cadeira do meio, com as mãos cruzadas sobre o colo, esperando que alguém lhe pedisse perdão. Ali cabiam todas as versões de nós que tentaram                   e falharam: a criança ferida, a amante que esperava demais, a amiga ausente, a que esperou à janela até ao fim do verão, e a que aprendeu a calar o amor para não o perder. Também ali estavam os que não souberam ficar e os que quiseram demais. Mas na hora certa, ninguém os quis de volta. Fizemos da mesa um espelho estilhaçado, onde cada caco refletia uma versão diferente do encontro. Eram histórias ditas pela metade, afetos com ferrugem, promessas que nunca chegaram ao corpo, cartas que não foram lidas, beijos que não voltaram para casa, toques interrompidos por orgulho, olhares desviados na última possibilidade de ternura. Tentámos ordenar o caos, nomear culpas, mapear o amor, dar à dor algum significado: quem magoou quem, quem fugiu primeiro, quem se calou quando devia ter falado, quem amou a quem em vão. Mas o "nós" não se escreve em linha reta, é espiral,                  tropeço,                                   é laço e corte. É ponte feita de dedos trémulos, tentando ainda alcançar. E entre cacos, alguém - talvez tu - ergueu um gesto quase imperceptível: um "ainda" dentro do "já não", um "pode ser" suspenso no "acabou". Então brindámos, não ao passado, mas à remota e terna possibilidade de voltarmos a encontrar o amor                                     não como foi mas como ainda pode ser: mais paciente,                             mais honesto, menos medo,                             mais presença. Um brinde a isso! À flor que cresce entre as pedras, ao reencontro verdadeiro, mesmo que não seja imediato.                   Ao amor que regressa, se soubermos esperar com o coração aberto. No fim, servimos silêncio em taças de cristal. Um brinde à tentativa! Às ruínas que ainda brilham. Ao facto de termos tentado. Um brinde a estarmos ali, ainda que partidas,                                                                            ainda que tarde, ainda que nunca cheguemos a consenso. Porque amar é tentar, mesmo quando falha. VI - Final Talvez um dia, ouça a porta a ranger, e outra de mim entre - sem pressa, sem medo. Talvez nem se sente, apenas acenda a luz. E nesse gesto, silencioso, haja uma oportunidade de começar de novo.
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132
Chegaste a mim em forma de argila, num balde de plástico furado.   Apanhei-te, de surpresa, embrulhada nas ondas do meu mar salgado.   Estavas escondida, por entre os rochedos, rodeada pelas habituais muralhas que te aconchegam,                                                           as mesmas que me atormentam,   quando levantas uma barreira que me impede de chegar a ti.   Segurei-te nos braços, como quem se prepara para te embalar. Sacudi-te as algas, e encostei o meu ouvido à casca que te acolhia no seu ventre.   Não conseguia decifrar o som que escutava, muito menos controlar a vontade de o querer escutar mais. Algo ecoava num tom quase inaudível. Sentia uma vida...uma vida fraca, sim...mas, havia vida a pulsar. Podia jurar que conseguia sentir-te, para lá da barreira, como se me tivesses atravessado corpo adentro. Ainda não conhecia o som da tua voz, e ela já me fazia sonhar.   Pulsavas numa frequência tão semelhante à minha!... não resisti,   fui impelida a chegar mais perto. Precisava de te tocar, precisava de te ver,      só para ter a certeza se eras real,                            ou se, finalmente, tinha terminado de enlouquecer. Se tinha perdido os meus resquícios de sanidade,                                                                                           consciência,                                                                                         lucidez,                               ou se era verdade que estávamos ambas a vibrar, no mesmo espaço, ao mesmo tempo, no mesmo ritmo de frequência, uma e outra e outra...e outra vez.   Vieste dar à costa na minha pequena ilha encantada. Na ilha onde, de livre vontade, me isolava.   Na ilha onde me permitia correr desafogadamente,                                                                            ser besta e/ou humana,                                                                            ser eu,                                                                            ser tudo,                                                                          ser todos,                                                                            ou ser nada.   Na mesma ilha onde só eu decidia, quem ou o que é que entrava. Não sabia se estava feliz ou assustada! Mais tarde, interiorizei que ambos podem coexistir. Por agora, sigo em elipses temporais. Longos anos que tentei suprimir num poema, na esperança que ele coubesse dentro de ti. (…) “Como é que não dei pela tua entrada? Ou fui eu que te escondi aqui? Será que te escondi tão bem, que até te consegui esconder de mim? És uma estranha oferenda que o mar me trouxe? Ou és só uma refugiada que ficou encalhada? Devo ficar contigo? Ou devolver-te às correntes? Como é que não dei pela tua entrada...? Que brecha é que descobriste em mim? Como é que conseguiste chegar onde ninguém chegou? Como é que te vou tirar daqui?”.   Não precisei de te abrir para ver o que tinha encontrado, mas queria tanto descobrir uma brecha para te invadir! Não sabia de onde vinha esse louco chamamento. Sei que o sentia invadir-me a mim. Como se, de repente, chegar ao núcleo que te continha fosse cada vez menos uma vontade e, cada vez mais uma necessidade. Cheiravas-me a terra molhada,                                                            depois de uma chuva desgraçada. Queria entrar em ti! Mesmo depois de me terem dito que a curiosidade matava. Queria tanto entrar em ti! Ser enterrada em ti!   A arquiteta que desenhou aquele balde estava mesmo empenhada                                                                                                                                                       em manter-te lá dentro,   e manter tudo o resto cá fora. A tampa parecia bem selada.   Admirei-a pela inteligência. Pelo simples que tornou complexo.   Pela correta noção de que, nem toda a gente merece ter o teu acesso. (...) Vinhas em forma de argila...e, retiradas as algas da frente, vi um labirinto para onde implorei ser sugada. Estava no epicentro de uma tempestade que ainda se estava a formar e, já se faziam previsões que ia ser violenta. O caos de uma relação! de uma conexão, onde o eu, o tu e o nós, onde o passado, o futuro e o presente, entram em conflito, até cada um descobrir onde se encaixa, até se sentirem confortáveis no seu devido lugar.   Estava tão habituada a estar sozinha e isolada, apenas acompanhada pelo som da água, dos animais ou do vento, que não sabia identificar se estava triste ou contente. Não sabia como me sentir com a tua inesperada chegada. Não sabia o que era ouvir outro batimento cardíaco dentro da minha própria mente,   e sentir uma pulsação ligada à minha, mesmo quando o teu coração está distante ou ausente.   No começo, espreitava-te pelos buracos do balde, por onde pequenos feixes de luz entravam e, incandesciam a tua câmera obscura,                    e tu corrias para te esconder!                  e eu corria para te apanhar!                  e foi um esconde-esconde que durou-durou...                  e nenhuma de nós chegou a ganhar.   Quanto mais te estudava, menos de mim percebia. Mais admiração sentia por aquela pedra de argila tão fria. "Que presente é este que naufragou no meu mar? Como é que te vou abrir sem te partir?" Retirei-te a tampa a medo,                                                   a medo que o teu interior explodisse.   E tu mal te mexeste.                                     E eu mexia-te,                                                            remexia-te,                                                            virava-te do direito e do avesso.   És única! Fazias-me lembrar de tudo,                                                           e não me fazias lembrar de nada. És única! E o que eu adorava   é que não me fazias lembrar de ninguém,                                ninguém que eu tivesse conhecido ou imaginado. És única! A musa que me inspirou com a sua existência.   “Como é que uma pedra tão fria pode causar-me esta sensação tão grande de ardência?” (…) Mesmo que fechasse os olhos, a inutilidade de os manter assim era evidente.   Entravas-me pelos sentidos que menos esperava. Foi contigo que aprendi que há mais que cinco! E, que todos podem ser estimulados. E, que podem ser criados mais! Existem milhares de canais por onde consegues entrar em mim.   A curiosidade que aquele teu cheiro me despertava era imensa,                                                                                                                                                                                                             intensa,                                                                                                                                                                                                                            então,                                                                                                                                                abri-te. Abri-me ao meio,   só para ver em quantas peças é que um ser humano pode ser desmontado. Despi-te a alma com olhares curiosos. E, de cada vez que te olhava, tinha de controlar o tempo! Tinha de me desviar! Tinha medo que me apanhasses a despir-te com o olhar. Ou pior!   Tinha medo que fosses tu a despir-me. Nunca tinha estado assim tão nua com alguém.   Tinha medo do que os teus olhos poderiam ver. Não sabia se ficarias, mesmo depois de me conhecer. Depois de me tirares as algas da frente, e veres que não sou só luz, que luz é apenas a essência em que me prefiro converter. Que vim da escuridão, embrulhada nas ondas de um mar escuro e tenebroso, e é contra os monstros que habitam essas correntes que me debato todos os dias, porque sei que não os posso deixar tomar as rédeas do meu frágil navio.   (...) Vinhas em inúmeros pedaços rochosos,                                                                              uns afiados,                                                                                   uns macios,                                                                           todos partidos... Sentia a tua dureza contra a moleza da minha pele ardente,   E eu ardia.                       E tu não ardias,                                                    parecias morta de tão fria.   Estavas tão endurecida pela vida, que nem tremias.   Não importava o quanto te amasse,                                                                    que te atirasse à parede,                                                                   que te gritasse                                                                                                                                                                                                                                           ou abanasse... Não importava. Não tremias.   Haviam demasiadas questões que me assombravam. Diria que, sou uma pessoa com tendência natural para se questionar. Não é motivo de alarme, é o formato normal do meu cérebro funcionar. Ele pega numa coisa e começa a rodá-la em várias direções, para que eu a possa ver de vários ângulos, seja em duas, três, quatro ou cinco dimensões.   "Porque é que não reagias?"   "Devia ter pousado o balde?"   "Devia ter recuado?" "Devia ter desviado o olhar,                                                       em vez de te ter encarado?"   Mas, não. Não conseguia. Existia algo! Algo maior que me puxava para os teus pedaços.   Algo que me fervia por dentro, uma tal de "forte energia", que não se permitia ser domada ou contrariada. Algo neles que me atraía, na exata medida em que me repelia. Olhava-te, observava-te,                                                   absorvia-te... e via além do que os outros viam. Declarava a mim mesma, com toda a certeza, que te reconhecia. Quem sabe, de uma outra vida. Eras-me mais familiar à alma do que a minha própria família.   Apesar de que me entristeça escrever isto.   Eram tantas as mazelas que trazias...Reconhecia algumas delas nas minhas. Nem sabia por onde te pegar. Nem sabia como manter os teus pedaços juntos. Nem sabia a forma certa de te amar. Estava disposta a aprender,                                                      se estivesses disposta a ensinar.   (…) Descobri com a nossa convivência, que violência era o que bem conhecias,                                                                                                                                     então, claro que já não tremias!   Um ser humano quebrado, eventualmente, habitua-se a esse estado. Até o amor lhe começa a saber a amargo.   Só precisei de te observar de perto.   Só precisei de te quebrar com afeto. Culpei-me por ser tão bruta e desastrada, esqueci-me que o amor também vem com espinhos disfarçados. Devia ter percebido pelo teu olhar cheio e vazio, pelo reflexo meu que nele espelhava, que a semelhança é demasiada para ser ignorada. Somos semelhantes.   Tão diferentes! que somos semelhantes.   Duas almas velhas e cansadas. Duas crianças ingénuas e magoadas. Duas pessoas demasiado habituadas à solidão.   Só precisei de escavar através do teu lado racional. Cegamente, mergulhei bem fundo, onde já nem a luz batia,                                                                    e naveguei sem rumo certo   nas marés turbulentas do teu emocional. E, algures dentro de ti,   encontrei um portal que me levou a um outro mundo... Um mundo onde eu nem sabia que uma outra versão de mim existia,                                                                                                                                 onde me escondias e cobrias com a lua. Um mundo onde eu estava em casa, e nem casa existia,                                                                                             onde me deitava ao teu lado,                                                                     onde te deitavas ao meu lado,                                                                                                                                         totalmente nua,       debaixo da armadura que, finalmente, parecia ter caído.   Creio que mergulhei fundo demais...   Ultrapassei os limites terrestres,                                  e fui embater contigo em terrenos espirituais.   Cheguei a ti com muita paciência e ternura. Tornei-me energia pura! Um ser omnipresente. Tinha uma vida no mundo físico e, uma dupla, que vivia contigo através da música, da escrita, da literatura…Tornei-me minha e tua!   Eu sabia... Há muito amor escondido atrás dessa falsa amargura.   Então, parei de usar a força e, mudei de abordagem,   para uma mais sossegada,                                                uma que te deixasse mais vulnerável,                                                                                                                          em vez de assustada.   (…) “Minha pedra de argila, acho que estou a projetar. Estou mais assustada que tu! Estar perto de ti faz-me tremer, não me consigo controlar. Quero estar perto! Só quero estar perto! Mesmo que não me segure de pé. Mesmo que tenhas de me relembrar de respirar. Mesmo que me custem a sair as palavras, quando são atropeladas pela carrada de sentimentos que vieste despertar…” És um livro aberto, com páginas escritas a tinta mágica. A cada página que o fogo revelava, havia uma página seguinte que vinha arrancada. Mais um capítulo que ficava por ler. Outra incógnita sobre ti que me deixavas a matutar. Soubeste como me despertar a curiosidade, como a manter, como me atiçar, como me deixar viciada em ti, como me estabilizar ou desestabilizar.   E nem precisas de fazer nada! a tua mera existência abana a corda alta onde me tento equilibrar. Segurei-te com todo o carinho! E, foi sempre assim que quis segurar-te. Como quem procura                                        amar-te. Talvez transformar-te,                                           em algo meu,                                         em algo teu,                                                                  em algo mais,                                                                                           em algo nosso.   Oferecias resistência, e eu não entendia.   A ausência de entendimento entorpecia-me o pensamento, e eu insistia...Não conseguia respeitar-te. Só queria amar-te! Cada obstáculo que aparecia era só mais uma prova para superar,                       ou, pelo menos, era disso que me convencia. Menos metros que tinha de fazer nesta maratona exaustiva! onde a única meta consistia                                                      em chegar a ti. Desse por onde desse, tivesse de suar lágrimas ou chorar sangue! (...) Olhava-te a transbordar de sentimentos! mal me conseguia conter! mal conseguia formar uma frase! mal conseguia esconder que o que tremia por fora, nem se comparava ao que tremia por dentro! Afinal, era o meu interior que estava prestes a explodir. "Como é que não te conseguiste aperceber?” A tua boca dizia uma coisa que, rapidamente, os teus olhos vinham contrariar. "Voa, sê livre”. Era o que a tua boca pregava em mim, parecia uma cruz que eu estava destinada a carregar. Mas, quando eu voava, ficava o meu mar salgado marcado no teu olhar.   Não quero estar onde não estás! Não quero voar! quero deitar-me ao teu lado! quero não ter de sair de lá! e só quero voar ao teu lado quando nos cansarmos de viajar no mundo de cá.   “Porque é que fazemos o oposto daquilo que queremos? Porque é que é mais difícil pedir a alguém para ficar? Quando é que a necessidade do outro começou a parecer uma humilhação? Quando é que o mundo mudou tanto, que o mais normal é demonstrar desapego, em vez daquela saudável obsessão? Tanta questão! Também gostava que o meu cérebro se conseguisse calar. Também me esgoto a mim mesma de tanto pensar.” (...) O amor bateu em ti e fez ricochete,                                                                       acertou em mim,   quase nos conseguiu despedaçar.   Até hoje, és uma bala de argila, perdida no fluxo das minhas veias incandescentes. O impacto não me matou, e o buraco já quase sarou com a minha própria carne à tua volta. Enquanto for viva, vou carregar-te para onde quer que vá. Enquanto for viva, és carne da minha própria carne, és uma ferida aberta que me recuso a fechar. Quero costurar-me a ti! para que não haja possibilidade de nos voltarmos a separar. Não sei se te cheguei a ensinar alguma coisa, mas ansiava que, talvez, o amor te pudesse ensinar.   Oferecias resistência, e eu não entendia.   Então, eu insistia...                                    Dobrava-te e desdobrava-me. Fazia origami da minha própria cabeça                                                   e das folhas soltas que me presenteavas, escritas com os teus pensamentos mais confusos. Pequenos pedaços de ti!   Estava em busca de soluções para problemas que nem existiam.   "Como é que vou tornar esta pedra áspera, numa pedra mais macia? Como é que chego ao núcleo desta pedra de argila? Ao sítio onde palpita o seu pequeno grande coração? Querias que explorasse os teus limites,                                                               ou que fingisse que não os via?” Querias ser pedra de gelo,                                                     e eu, em chamas,   queria mostrar-te que podias ser pedra vulcânica. (...) Estudei as tuas ligações químicas, cada partícula que te constituía. Como se misturavam umas com as outras para criar                    a mais bela sinestesia que os meus olhos tiveram o prazer de vivenciar. Tornaste-te o meu desafio mais complicado.   “O que raio é suposto eu fazer com tantos bocados afiados?”.   Sinto-os espalhados no meu peito, no sítio onde a tua cabeça deveria encaixar, e não há cirurgia que me possa salvar. Não sei a que médico ir.  Não sei a quem me posso queixar. São balas fantasma, iguais às dores que sinto quando não estás.   A dor aguda e congruente que me atormenta quando estás ausente. Como se me faltasse um pedaço essencial, que torna a minha vida dormente. Perdoa-me, por nunca ter chegado a entender que uso lhes deveria dar.   (...) Reparei, por belo acaso! no teu comportamento delicado   quando te misturavas com a água salgada, que escorria do meu olhar esverdeado,                                   quando te abraçava,                                     quando te escrevia,                             em dias de alegria e/ou agonia. Como ficavas mais macia, maleável e reagias eletricamente.   Expandias-te,                             tornavas-te numa outra coisa,                                                                         um novo eu que emergia,   ainda que pouco coerente.   Peguei-te com cuidado. Senti-te gélida, mas tranquila... "Minha bela pedra de argila..." Soube logo que te pertencia,                                                          soube logo que me pertencias.   Que o destino, finalmente, tinha chegado. E soube-o, mesmo quando nem tu o sabias. A estrada até ti é longa, prefiro não aceitar desvios.   É íngreme o caminho, e raramente é iluminado... muito pelo contrário, escolheste construir um caminho escuro,   cheio de perigos e obstáculos,                                                            um caminho duro,   feito propositadamente para que ninguém chegue a ti... Então, claro que, às vezes, me perco. Às vezes, também não tenho forças para caminhar. E se demoro, perdoa-me! Tenho de encontrar a mim mesma, antes de te ir procurar.   No fim da longa estrada, que mais parece um labirinto perfeitamente desenhado,                                       sem qualquer porta de saída ou de entrada, estás tu, lá sentada, atrás da tua muralha impenetrável, a desejar ser entendida e amada, e simultaneamente, a desejar nunca ser encontrada.   “Como é que aquilo que eu mais procuro é, simultaneamente, aquilo com que tenho mais medo de me deparar?” Que ninguém venha quebrar a tua solidão!   Estás destinada a estar sozinha! É isso que dizes a ti mesma? Ora, pois, sei bem o que é carregar a solidão às costas,   a beleza e a tranquilidade de estar sozinha. Não vim para a quebrar,                                      vim para misturar a tua solidão com a minha. Moldei-te,                        e moldei-me a ti. Passei os dedos pelas fissuras. Senti todas as cicatrizes e, beijei-te as ranhuras por onde escapavam alguns dos teus bocados. Tentei uni-los num abraço. Eu sabia... Como se isto fosse um conto de fadas… Como se um beijo pudesse acordar… Como se uma chávena partida pudesse voltar atrás no tempo,                                                                                                                           segundos antes de se estilhaçar.   O tempo recusa-se a andar para trás. Então, tive de pensar numa outra solução. Não te podia deixar ali, abandonada, partida no chão. Todo o cuidado! E mesmo assim foi pouco.   Desmoronaste.   Foi mesmo à frente dos meus olhos que desmoronaste.   Tive tanto cuidado! E mesmo assim, foi pouco. Não sei se te peguei da forma errada,                                                              ou se já chegaste a mim demasiado fragilizada… Não queria acreditar que, ainda agora te segurava... Ainda agora estavas viva… Ainda agora adormecia com o som do teu respirar… Agora, chamo o teu nome e ninguém responde do lado de lá… Agora, já ninguém chama o meu nome do lado de cá. Sou casmurra. Não me dei por vencida. Primeiro, levantei-me a mim do chão, depois, quis regressar a ti                             e regressei à corrida.   Recuperei-me, e estava decidida a erguer-te de novo. Desta vez tive a tua ajuda,                                                    estavas mais comprometida. Tinhas esperança de ser curada. Talvez, desta vez, não oferecesses tanta resistência! Talvez, desta vez, aceitasses o meu amor! Talvez, desta vez, seja um trabalho a dois! Talvez, desta vez, possa estar mais descansada. Talvez, desta vez, também eu possa ser cuidada. Arrumei os pedaços, tentei dar-lhes uma outra figura. Adequada à tua beleza, ao teu jeito e feitio. Inteligente, criativa, misteriosa, divertida, carismática, observadora, com um toque sombrio. Despertaste em mim um amor doentio!   Ou, pelo menos, era assim que alguns lhe chamavam. Admito, a opinião alheia deixa-me mais aborrecida do que interessada. A pessoas incompreensivas, não tenho vontade de lhes responder. Quem entende, irá entender. Quem sente o amor como uma brisa, não sabe o que é senti-lo como um furacão. Só quem ama ou já amou assim, tem a total capacidade de compreender, que nem tudo o que parece mau, o chega realmente a ser. Às vezes, é preciso destruir o antigo, para que algo novo tenha espaço para aparecer. Um amor assim não é uma doença, não mata, pelo contrário, deu-me vontade de viver. Fez-me querer ser melhor, fez-me lutar para que pudesse sentir-me merecedora de o ter. Sim, pode levar-nos à loucura. Sei que, a mim, me leva ao desespero. O desespero de te querer apertar nos meus braços todos os dias. O desespero de te ter! hoje! amanhã! sempre! O desespero de viver contigo já! agora! sempre! O desespero de não poder esperar! O desespero de não conseguir seguir indiferente depois de te conhecer! O desespero de não me conseguir conter! Nem a morte me poderia conter!   E , saber que te irei amar, muito depois de morrer.   Quem nunca passou de brasa a incêndio, não entende a total capacidade de um fogo. Prefiro renascer das cinzas a cada lua nova, do que passar pela vida sem ter ardido.   Já devia ter entendido, as pessoas só podem mergulhar fundo em mim se já tiverem mergulhado fundo em si. Quem vive à superfície, não sabe do que falo quando o assunto é o inconsciente.   Se os outros não se conhecem sequer a si mesmos, então, a opinião deles deveria mesmo importar? Há muito já fui aclamada de vilã, por não ser mais do que mera gente. E, como qualquer gente, sou simples e complexa. A realidade é que, poucos são os que se permitem sentir todo o espectro de emoções humanas, genuinamente, e eu, felizmente e infelizmente, sou gente dessa. (…) Descobriste um oceano escondido e inexplorado.   Um Mar que se abriu só para ti, como se fosse Moisés que se estivesse a aproximar. Um Mar que só existia para ti. Um Mar que mais ninguém via, onde mais ninguém podia nadar. Um Mar reservado para ti. Parecia que existia com o único propósito de fazer o teu corpo flutuar.   Deste-lhe um nome, brincaste com ele, usaste-o, amassaste-o, engoliste-o                       e, cuspiste-o de volta na minha cara. Uma outra definição. Um Mar de água doce, com a tua saliva misturada. Uma outra versão de mim, desconhecida, até então.   Um outro nome que eu preferia. Um nome que só tu me chamavas, e mais ninguém ouvia,   Um booboo que nasceu na tua boca e veio parar às minhas mãos, e delas escorria para um sorriso tímido que emergia. (...) E, de onde origina a argila? Descobri que, pode gerar-se através de um ataque químico. Por exemplo, com a água. "A água sabe."  Era o que tu me dizias.   Era com ela que nos moldavas. Talvez com a água doce e salgada que escorria do teu rosto                                                    e no meu rosto caía,                                                    e no meu pescoço secava, enquanto choravas em cima de mim,                                                                 abraçada a mim, na tua cama. Enquanto tremias de receio, de que me desejasses mais a mim, do que aquilo que eu te desejava. “Como não podias estar mais enganada!   Como é que não vias todo o tempo e amor que te dedicava?   Tinhas os olhos tapados pelo medo? Como é que me observavas e não me absorvias?” O amor tem muito de belo e muito de triste.  A dualidade do mundo é tramada, mas não me adianta de nada fechar os olhos a tudo o que existe.   Ah! Tantas coisas que nascem de um ataque químico! Ou ataque físico, como por exemplo, através do vulcanismo ou da erosão. Quando moveste as placas que solidificavam as minhas raízes à Terra,              e chegaste a mim em forma de sismo silencioso,   mandaste-me as ilusões e as outras estruturas todas abaixo, e sobrou uma cratera com a forma do meu coração, de onde foi cuspida a lava que me transmutou. A mesma lava que, mais tarde, usei para nos metamorfosear. Diria que, ser destruída e reconstruída por ti, foi a minha salvação. Sobrei eu, debaixo dos destroços. Só não sei se te sobrevivi. Nunca mais fui a mesma desde que nos vi a desabar.   E, são esses dois ataques que geram a argila. Produzem a fragmentação das rochas em pequenas partículas,                                                                                                                                                                                                             umas afiadas,                                                                                                                                                                                                           umas macias,                                                                                                                                                                                                                  todas partidas.   Gosto de pegar em factos e, aproximá-los da ficção na minha poesia. Brinco com metáforas, brinco contigo, brinco com a vida...mas, sou séria em tudo o que faço. Só porque brinco com as palavras, não significa que te mentiria. A lealdade que me une a ti não o iria permitir.   É belo, tão belo! Consegues ver? Fazes vibrar o meu mundo. Contigo dá-se a verdadeira magia! Também consegues senti-la?   Tudo dá para ser transformado em algo mais. Nem melhor nem pior, apenas algo diferente.   Das rochas vem a areia, da areia vem a argila, da argila vem o meu vaso imaginário, a quem dei um nome e uma nova sina.   Viva a alquimia! Sinto a fluir em mim a alquimia!   Tenho uma capacidade inata de romantizar tudo,                                                      de ver o copo meio cheio,                                                                                    e nem copo existia.   Revelaste-me um amor que não sabia estar perdido. Entendeste-me com qualidades e defeitos. Graças a ti, fiquei esclarecida! Que melhor do que ser amada, é ser aceite e compreendida. Feita de barro nunca antes fundido. Assim seguia a minha alma, antes de te ter conhecido. Dá-me da tua água! Quero afogar-me em ti, todas as vidas! E ter o prazer de conhecer-te, e ter o desprazer de esquecer-te, só para poder voltar a conhecer-te, sentir-te, e por ti, só por ti, ser sentida.   Toquei-te na alma nua! Ainda tenho as mãos manchadas com o sangue da tua carne crua. E a minha alma nua, foi tocada por ti. Provaste-me que não estava doida varrida. Soube logo que era tua!   Nunca tinha trabalhado com o teu tipo de barro. Ainda para mais, tão fraturado. Peguei em ti, com todo o cuidado... "Tive um pensamento bizarro, Dos teus pedaços vou construir um vaso! Tem de caber água, búzios, algumas flores! Talvez o meu corpo inteiro, se o conseguir encolher o suficiente. Recolho todos os teus bocados, mantenho-os presos, juntos por um fio vermelho e dourado. Ofereço-me a ti de presente." (…) Amei-te de forma sincera.  Às vezes errada, outras vezes certa, quem sabe incoerente. Mas o amor, esse que mais importa, ao contrário de nós, é consistente.   Sobreviveu às chamas do inferno, às chuvas que as apagaram, a dezenas de enterros e renascimentos.   Nem os anos que por ele passaram, o conseguiram romper. Nem o tempo que tudo desbota, o conseguiu reescrever. Foi assim que me deparei com o presente agridoce que me aguardava. Descobriste um dos vazios que carrego cá dentro e, depositaste um pedaço de ti para o preencher. Invadiste o meu espaço, sem que te tivesse notado, nem ouvi os teus passos a atravessar a porta.   Confundiste-te com a minha solidão, sem nunca a ter mudado. Eras metade do que faltava em mim, e nem dei conta que me faltavas. “Como poderia não te ter amado? …" (…) Minha bela pedra de argila,   Ninguém me disse que eras preciosa. Ninguém o sabia, até então. Não te davam o devido valor, e, para mim, sempre foste o meu maior tesouro. Até a alma me iluminavas, como se fosses uma pedra esculpida em ouro.    Meu vaso de barro banhado a fio dourado,   Ninguém me avisou que serias tão cobiçado,                                                                     invejado,                                                                desdenhado, ou, até, a melhor obra de arte que eu nunca teria acabado. Ninguém o poderia saber.   Queria guardar-te só para mim! Não por ciúmes, além de os ter. Mas sim, para te proteger. Livrar-te de olhares gananciosos e, pessoas mal-intencionadas.   Livrar-te das minhas próprias mãos que, aparentemente, estão condenadas                        a destruir tudo o que tanto desejam poder agarrar.   Perdoa-me, ter achado que era uma benção. Talvez fosse mais como a maldição   de um Rei Midas virado do avesso. Tudo o que toco, transforma-se em fumo dourado. Vejo o futuro que nos poderia ter sido dado! Vejo-te no fumo espesso,                                                a dissipares-te à minha frente, antes mesmo de te ter tocado. Tudo o que os deuses me ofereceram de presente, vinha envenenado.    A eterna questão que paira no ar.   É melhor amar e perder? Ou nunca chegar a descobrir a sensação de ter amado? É melhor amar e ficar! Há sempre mais opções, para quem gosta de se focar menos nos problemas                      e mais nas soluções. O amor é como o meu vaso de argila em processo de criação.   Cuidado! Qualquer movimento brusco vai deixar uma marca profunda. Enquanto não solidificar, tens de ter cuidado! Muito cuidado para não o estragar. Deixa-o girar, não o tentes domar, toca-lhe com suavidade, dá-lhe forma gentilmente, decora os seus movimentos e, deixa-te ser levado, para onde quer que te leve a sua incerta corrente. Enquanto não solidificar, é frágil! Muito frágil e, a qualquer momento, pode desabar. Era isso que me estavas a tentar ensinar?   Duas mãos que moldam a argila num ritmo exaltante! E une-se a argila com o criador!                                             E gira! E gira! num rodopio esmagador,                                                         E gira! E gira! mas não o largues! Segura bem os seus pedaços! Abraça-os com firmeza! Porque erguê-lo é um trabalho árduo                                                                  e se o largas, vai logo abaixo! São horas, dias, meses, anos, atirados para o esgoto. Sobra a dor, para que nenhuma de nós se esqueça.                                         E dança! E dança! E dança!...                              Tento seguir os seus passos pela cintura...                                          Se não soubesse que era argila,                             diria que era a minha mão entrelaçada na tua. Bato o pé no soalho.                                     E acelero!                                                       e acalmo o compasso... A água escorre por ele abaixo. Ressalta as tuas belas linhas à medida da sua descida, como se fosse a tua pele suada na minha.   No final, que me resta fazer? Apenas admirá-lo. Reconstrui-lo. Delimitá-lo. Esculpi-lo. Colori-lo. Parti-lo, quem sabe. É tão simples! a minha humana de ossos e carne, transformada em pedra de argila, transformada em tesouro, transformada em pó de cinza que ingeri do meu próprio vulcão... A destruição também é uma forma de arte, descobri isso à força, quando me deixaste.   Acho que, no meu vaso de argila, onde duas mãos se entrecruzaram para o moldar, vou enchê-lo de areia, búzios, pedras e água dourada,          talvez nasça lá um outro pedaço de ti, a meio da madrugada. Vou metê-lo ao lado da minha cama, e chamar-lhe vaso de ouro. Porque quem pega num pedaço rochoso e consegue dar-lhe uma outra utilidade, já descobriu o que é alquimia,   o poder de ser forjado pelo fogo e sair ileso, renascido como algo novo.
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Jul 4, 2023
Jul 4, 2023 at 5:08 PM UTC
Pedra de argila
Chegaste a mim em forma de argila, num balde de plástico furado.   Apanhei-te, de surpresa, embrulhada nas ondas do meu mar salgado.   Estavas escondida, por entre os rochedos, rodeada pelas habituais muralhas que te aconchegam,                                                           as mesmas que me atormentam,   quando levantas uma barreira que me impede de chegar a ti.   Segurei-te nos braços, como quem se prepara para te embalar. Sacudi-te as algas, e encostei o meu ouvido à casca que te acolhia no seu ventre.   Não conseguia decifrar o som que escutava, muito menos controlar a vontade de o querer escutar mais. Algo ecoava num tom quase inaudível. Sentia uma vida...uma vida fraca, sim...mas, havia vida a pulsar. Podia jurar que conseguia sentir-te, para lá da barreira, como se me tivesses atravessado corpo adentro. Ainda não conhecia o som da tua voz, e ela já me fazia sonhar.   Pulsavas numa frequência tão semelhante à minha!... não resisti,   fui impelida a chegar mais perto. Precisava de te tocar, precisava de te ver,      só para ter a certeza se eras real,                            ou se, finalmente, tinha terminado de enlouquecer. Se tinha perdido os meus resquícios de sanidade,                                                                                           consciência,                                                                                         lucidez,                               ou se era verdade que estávamos ambas a vibrar, no mesmo espaço, ao mesmo tempo, no mesmo ritmo de frequência, uma e outra e outra...e outra vez.   Vieste dar à costa na minha pequena ilha encantada. Na ilha onde, de livre vontade, me isolava.   Na ilha onde me permitia correr desafogadamente,                                                                            ser besta e/ou humana,                                                                            ser eu,                                                                            ser tudo,                                                                          ser todos,                                                                            ou ser nada.   Na mesma ilha onde só eu decidia, quem ou o que é que entrava. Não sabia se estava feliz ou assustada! Mais tarde, interiorizei que ambos podem coexistir. Por agora, sigo em elipses temporais. Longos anos que tentei suprimir num poema, na esperança que ele coubesse dentro de ti. (…) “Como é que não dei pela tua entrada? Ou fui eu que te escondi aqui? Será que te escondi tão bem, que até te consegui esconder de mim? És uma estranha oferenda que o mar me trouxe? Ou és só uma refugiada que ficou encalhada? Devo ficar contigo? Ou devolver-te às correntes? Como é que não dei pela tua entrada...? Que brecha é que descobriste em mim? Como é que conseguiste chegar onde ninguém chegou? Como é que te vou tirar daqui?”.   Não precisei de te abrir para ver o que tinha encontrado, mas queria tanto descobrir uma brecha para te invadir! Não sabia de onde vinha esse louco chamamento. Sei que o sentia invadir-me a mim. Como se, de repente, chegar ao núcleo que te continha fosse cada vez menos uma vontade e, cada vez mais uma necessidade. Cheiravas-me a terra molhada,                                                            depois de uma chuva desgraçada. Queria entrar em ti! Mesmo depois de me terem dito que a curiosidade matava. Queria tanto entrar em ti! Ser enterrada em ti!   A arquiteta que desenhou aquele balde estava mesmo empenhada                                                                                                                                                       em manter-te lá dentro,   e manter tudo o resto cá fora. A tampa parecia bem selada.   Admirei-a pela inteligência. Pelo simples que tornou complexo.   Pela correta noção de que, nem toda a gente merece ter o teu acesso. (...) Vinhas em forma de argila...e, retiradas as algas da frente, vi um labirinto para onde implorei ser sugada. Estava no epicentro de uma tempestade que ainda se estava a formar e, já se faziam previsões que ia ser violenta. O caos de uma relação! de uma conexão, onde o eu, o tu e o nós, onde o passado, o futuro e o presente, entram em conflito, até cada um descobrir onde se encaixa, até se sentirem confortáveis no seu devido lugar.   Estava tão habituada a estar sozinha e isolada, apenas acompanhada pelo som da água, dos animais ou do vento, que não sabia identificar se estava triste ou contente. Não sabia como me sentir com a tua inesperada chegada. Não sabia o que era ouvir outro batimento cardíaco dentro da minha própria mente,   e sentir uma pulsação ligada à minha, mesmo quando o teu coração está distante ou ausente.   No começo, espreitava-te pelos buracos do balde, por onde pequenos feixes de luz entravam e, incandesciam a tua câmera obscura,                    e tu corrias para te esconder!                  e eu corria para te apanhar!                  e foi um esconde-esconde que durou-durou...                  e nenhuma de nós chegou a ganhar.   Quanto mais te estudava, menos de mim percebia. Mais admiração sentia por aquela pedra de argila tão fria. "Que presente é este que naufragou no meu mar? Como é que te vou abrir sem te partir?" Retirei-te a tampa a medo,                                                   a medo que o teu interior explodisse.   E tu mal te mexeste.                                     E eu mexia-te,                                                            remexia-te,                                                            virava-te do direito e do avesso.   És única! Fazias-me lembrar de tudo,                                                           e não me fazias lembrar de nada. És única! E o que eu adorava   é que não me fazias lembrar de ninguém,                                ninguém que eu tivesse conhecido ou imaginado. És única! A musa que me inspirou com a sua existência.   “Como é que uma pedra tão fria pode causar-me esta sensação tão grande de ardência?” (…) Mesmo que fechasse os olhos, a inutilidade de os manter assim era evidente.   Entravas-me pelos sentidos que menos esperava. Foi contigo que aprendi que há mais que cinco! E, que todos podem ser estimulados. E, que podem ser criados mais! Existem milhares de canais por onde consegues entrar em mim.   A curiosidade que aquele teu cheiro me despertava era imensa,                                                                                                                                                                                                             intensa,                                                                                                                                                                                                                            então,                                                                                                                                                abri-te. Abri-me ao meio,   só para ver em quantas peças é que um ser humano pode ser desmontado. Despi-te a alma com olhares curiosos. E, de cada vez que te olhava, tinha de controlar o tempo! Tinha de me desviar! Tinha medo que me apanhasses a despir-te com o olhar. Ou pior!   Tinha medo que fosses tu a despir-me. Nunca tinha estado assim tão nua com alguém.   Tinha medo do que os teus olhos poderiam ver. Não sabia se ficarias, mesmo depois de me conhecer. Depois de me tirares as algas da frente, e veres que não sou só luz, que luz é apenas a essência em que me prefiro converter. Que vim da escuridão, embrulhada nas ondas de um mar escuro e tenebroso, e é contra os monstros que habitam essas correntes que me debato todos os dias, porque sei que não os posso deixar tomar as rédeas do meu frágil navio.   (...) Vinhas em inúmeros pedaços rochosos,                                                                              uns afiados,                                                                                   uns macios,                                                                           todos partidos... Sentia a tua dureza contra a moleza da minha pele ardente,   E eu ardia.                       E tu não ardias,                                                    parecias morta de tão fria.   Estavas tão endurecida pela vida, que nem tremias.   Não importava o quanto te amasse,                                                                    que te atirasse à parede,                                                                   que te gritasse                                                                                                                                                                                                                                           ou abanasse... Não importava. Não tremias.   Haviam demasiadas questões que me assombravam. Diria que, sou uma pessoa com tendência natural para se questionar. Não é motivo de alarme, é o formato normal do meu cérebro funcionar. Ele pega numa coisa e começa a rodá-la em várias direções, para que eu a possa ver de vários ângulos, seja em duas, três, quatro ou cinco dimensões.   "Porque é que não reagias?"   "Devia ter pousado o balde?"   "Devia ter recuado?" "Devia ter desviado o olhar,                                                       em vez de te ter encarado?"   Mas, não. Não conseguia. Existia algo! Algo maior que me puxava para os teus pedaços.   Algo que me fervia por dentro, uma tal de "forte energia", que não se permitia ser domada ou contrariada. Algo neles que me atraía, na exata medida em que me repelia. Olhava-te, observava-te,                                                   absorvia-te... e via além do que os outros viam. Declarava a mim mesma, com toda a certeza, que te reconhecia. Quem sabe, de uma outra vida. Eras-me mais familiar à alma do que a minha própria família.   Apesar de que me entristeça escrever isto.   Eram tantas as mazelas que trazias...Reconhecia algumas delas nas minhas. Nem sabia por onde te pegar. Nem sabia como manter os teus pedaços juntos. Nem sabia a forma certa de te amar. Estava disposta a aprender,                                                      se estivesses disposta a ensinar.   (…) Descobri com a nossa convivência, que violência era o que bem conhecias,                                                                                                                                     então, claro que já não tremias!   Um ser humano quebrado, eventualmente, habitua-se a esse estado. Até o amor lhe começa a saber a amargo.   Só precisei de te observar de perto.   Só precisei de te quebrar com afeto. Culpei-me por ser tão bruta e desastrada, esqueci-me que o amor também vem com espinhos disfarçados. Devia ter percebido pelo teu olhar cheio e vazio, pelo reflexo meu que nele espelhava, que a semelhança é demasiada para ser ignorada. Somos semelhantes.   Tão diferentes! que somos semelhantes.   Duas almas velhas e cansadas. Duas crianças ingénuas e magoadas. Duas pessoas demasiado habituadas à solidão.   Só precisei de escavar através do teu lado racional. Cegamente, mergulhei bem fundo, onde já nem a luz batia,                                                                    e naveguei sem rumo certo   nas marés turbulentas do teu emocional. E, algures dentro de ti,   encontrei um portal que me levou a um outro mundo... Um mundo onde eu nem sabia que uma outra versão de mim existia,                                                                                                                                 onde me escondias e cobrias com a lua. Um mundo onde eu estava em casa, e nem casa existia,                                                                                             onde me deitava ao teu lado,                                                                     onde te deitavas ao meu lado,                                                                                                                                         totalmente nua,       debaixo da armadura que, finalmente, parecia ter caído.   Creio que mergulhei fundo demais...   Ultrapassei os limites terrestres,                                  e fui embater contigo em terrenos espirituais.   Cheguei a ti com muita paciência e ternura. Tornei-me energia pura! Um ser omnipresente. Tinha uma vida no mundo físico e, uma dupla, que vivia contigo através da música, da escrita, da literatura…Tornei-me minha e tua!   Eu sabia... Há muito amor escondido atrás dessa falsa amargura.   Então, parei de usar a força e, mudei de abordagem,   para uma mais sossegada,                                                uma que te deixasse mais vulnerável,                                                                                                                          em vez de assustada.   (…) “Minha pedra de argila, acho que estou a projetar. Estou mais assustada que tu! Estar perto de ti faz-me tremer, não me consigo controlar. Quero estar perto! Só quero estar perto! Mesmo que não me segure de pé. Mesmo que tenhas de me relembrar de respirar. Mesmo que me custem a sair as palavras, quando são atropeladas pela carrada de sentimentos que vieste despertar…” És um livro aberto, com páginas escritas a tinta mágica. A cada página que o fogo revelava, havia uma página seguinte que vinha arrancada. Mais um capítulo que ficava por ler. Outra incógnita sobre ti que me deixavas a matutar. Soubeste como me despertar a curiosidade, como a manter, como me atiçar, como me deixar viciada em ti, como me estabilizar ou desestabilizar.   E nem precisas de fazer nada! a tua mera existência abana a corda alta onde me tento equilibrar. Segurei-te com todo o carinho! E, foi sempre assim que quis segurar-te. Como quem procura                                        amar-te. Talvez transformar-te,                                           em algo meu,                                         em algo teu,                                                                  em algo mais,                                                                                           em algo nosso.   Oferecias resistência, e eu não entendia.   A ausência de entendimento entorpecia-me o pensamento, e eu insistia...Não conseguia respeitar-te. Só queria amar-te! Cada obstáculo que aparecia era só mais uma prova para superar,                       ou, pelo menos, era disso que me convencia. Menos metros que tinha de fazer nesta maratona exaustiva! onde a única meta consistia                                                      em chegar a ti. Desse por onde desse, tivesse de suar lágrimas ou chorar sangue! (...) Olhava-te a transbordar de sentimentos! mal me conseguia conter! mal conseguia formar uma frase! mal conseguia esconder que o que tremia por fora, nem se comparava ao que tremia por dentro! Afinal, era o meu interior que estava prestes a explodir. "Como é que não te conseguiste aperceber?” A tua boca dizia uma coisa que, rapidamente, os teus olhos vinham contrariar. "Voa, sê livre”. Era o que a tua boca pregava em mim, parecia uma cruz que eu estava destinada a carregar. Mas, quando eu voava, ficava o meu mar salgado marcado no teu olhar.   Não quero estar onde não estás! Não quero voar! quero deitar-me ao teu lado! quero não ter de sair de lá! e só quero voar ao teu lado quando nos cansarmos de viajar no mundo de cá.   “Porque é que fazemos o oposto daquilo que queremos? Porque é que é mais difícil pedir a alguém para ficar? Quando é que a necessidade do outro começou a parecer uma humilhação? Quando é que o mundo mudou tanto, que o mais normal é demonstrar desapego, em vez daquela saudável obsessão? Tanta questão! Também gostava que o meu cérebro se conseguisse calar. Também me esgoto a mim mesma de tanto pensar.” (...) O amor bateu em ti e fez ricochete,                                                                       acertou em mim,   quase nos conseguiu despedaçar.   Até hoje, és uma bala de argila, perdida no fluxo das minhas veias incandescentes. O impacto não me matou, e o buraco já quase sarou com a minha própria carne à tua volta. Enquanto for viva, vou carregar-te para onde quer que vá. Enquanto for viva, és carne da minha própria carne, és uma ferida aberta que me recuso a fechar. Quero costurar-me a ti! para que não haja possibilidade de nos voltarmos a separar. Não sei se te cheguei a ensinar alguma coisa, mas ansiava que, talvez, o amor te pudesse ensinar.   Oferecias resistência, e eu não entendia.   Então, eu insistia...                                    Dobrava-te e desdobrava-me. Fazia origami da minha própria cabeça                                                   e das folhas soltas que me presenteavas, escritas com os teus pensamentos mais confusos. Pequenos pedaços de ti!   Estava em busca de soluções para problemas que nem existiam.   "Como é que vou tornar esta pedra áspera, numa pedra mais macia? Como é que chego ao núcleo desta pedra de argila? Ao sítio onde palpita o seu pequeno grande coração? Querias que explorasse os teus limites,                                                               ou que fingisse que não os via?” Querias ser pedra de gelo,                                                     e eu, em chamas,   queria mostrar-te que podias ser pedra vulcânica. (...) Estudei as tuas ligações químicas, cada partícula que te constituía. Como se misturavam umas com as outras para criar                    a mais bela sinestesia que os meus olhos tiveram o prazer de vivenciar. Tornaste-te o meu desafio mais complicado.   “O que raio é suposto eu fazer com tantos bocados afiados?”.   Sinto-os espalhados no meu peito, no sítio onde a tua cabeça deveria encaixar, e não há cirurgia que me possa salvar. Não sei a que médico ir.  Não sei a quem me posso queixar. São balas fantasma, iguais às dores que sinto quando não estás.   A dor aguda e congruente que me atormenta quando estás ausente. Como se me faltasse um pedaço essencial, que torna a minha vida dormente. Perdoa-me, por nunca ter chegado a entender que uso lhes deveria dar.   (...) Reparei, por belo acaso! no teu comportamento delicado   quando te misturavas com a água salgada, que escorria do meu olhar esverdeado,                                   quando te abraçava,                                     quando te escrevia,                             em dias de alegria e/ou agonia. Como ficavas mais macia, maleável e reagias eletricamente.   Expandias-te,                             tornavas-te numa outra coisa,                                                                         um novo eu que emergia,   ainda que pouco coerente.   Peguei-te com cuidado. Senti-te gélida, mas tranquila... "Minha bela pedra de argila..." Soube logo que te pertencia,                                                          soube logo que me pertencias.   Que o destino, finalmente, tinha chegado. E soube-o, mesmo quando nem tu o sabias. A estrada até ti é longa, prefiro não aceitar desvios.   É íngreme o caminho, e raramente é iluminado... muito pelo contrário, escolheste construir um caminho escuro,   cheio de perigos e obstáculos,                                                            um caminho duro,   feito propositadamente para que ninguém chegue a ti... Então, claro que, às vezes, me perco. Às vezes, também não tenho forças para caminhar. E se demoro, perdoa-me! Tenho de encontrar a mim mesma, antes de te ir procurar.   No fim da longa estrada, que mais parece um labirinto perfeitamente desenhado,                                       sem qualquer porta de saída ou de entrada, estás tu, lá sentada, atrás da tua muralha impenetrável, a desejar ser entendida e amada, e simultaneamente, a desejar nunca ser encontrada.   “Como é que aquilo que eu mais procuro é, simultaneamente, aquilo com que tenho mais medo de me deparar?” Que ninguém venha quebrar a tua solidão!   Estás destinada a estar sozinha! É isso que dizes a ti mesma? Ora, pois, sei bem o que é carregar a solidão às costas,   a beleza e a tranquilidade de estar sozinha. Não vim para a quebrar,                                      vim para misturar a tua solidão com a minha. Moldei-te,                        e moldei-me a ti. Passei os dedos pelas fissuras. Senti todas as cicatrizes e, beijei-te as ranhuras por onde escapavam alguns dos teus bocados. Tentei uni-los num abraço. Eu sabia... Como se isto fosse um conto de fadas… Como se um beijo pudesse acordar… Como se uma chávena partida pudesse voltar atrás no tempo,                                                                                                                           segundos antes de se estilhaçar.   O tempo recusa-se a andar para trás. Então, tive de pensar numa outra solução. Não te podia deixar ali, abandonada, partida no chão. Todo o cuidado! E mesmo assim foi pouco.   Desmoronaste.   Foi mesmo à frente dos meus olhos que desmoronaste.   Tive tanto cuidado! E mesmo assim, foi pouco. Não sei se te peguei da forma errada,                                                              ou se já chegaste a mim demasiado fragilizada… Não queria acreditar que, ainda agora te segurava... Ainda agora estavas viva… Ainda agora adormecia com o som do teu respirar… Agora, chamo o teu nome e ninguém responde do lado de lá… Agora, já ninguém chama o meu nome do lado de cá. Sou casmurra. Não me dei por vencida. Primeiro, levantei-me a mim do chão, depois, quis regressar a ti                             e regressei à corrida.   Recuperei-me, e estava decidida a erguer-te de novo. Desta vez tive a tua ajuda,                                                    estavas mais comprometida. Tinhas esperança de ser curada. Talvez, desta vez, não oferecesses tanta resistência! Talvez, desta vez, aceitasses o meu amor! Talvez, desta vez, seja um trabalho a dois! Talvez, desta vez, possa estar mais descansada. Talvez, desta vez, também eu possa ser cuidada. Arrumei os pedaços, tentei dar-lhes uma outra figura. Adequada à tua beleza, ao teu jeito e feitio. Inteligente, criativa, misteriosa, divertida, carismática, observadora, com um toque sombrio. Despertaste em mim um amor doentio!   Ou, pelo menos, era assim que alguns lhe chamavam. Admito, a opinião alheia deixa-me mais aborrecida do que interessada. A pessoas incompreensivas, não tenho vontade de lhes responder. Quem entende, irá entender. Quem sente o amor como uma brisa, não sabe o que é senti-lo como um furacão. Só quem ama ou já amou assim, tem a total capacidade de compreender, que nem tudo o que parece mau, o chega realmente a ser. Às vezes, é preciso destruir o antigo, para que algo novo tenha espaço para aparecer. Um amor assim não é uma doença, não mata, pelo contrário, deu-me vontade de viver. Fez-me querer ser melhor, fez-me lutar para que pudesse sentir-me merecedora de o ter. Sim, pode levar-nos à loucura. Sei que, a mim, me leva ao desespero. O desespero de te querer apertar nos meus braços todos os dias. O desespero de te ter! hoje! amanhã! sempre! O desespero de viver contigo já! agora! sempre! O desespero de não poder esperar! O desespero de não conseguir seguir indiferente depois de te conhecer! O desespero de não me conseguir conter! Nem a morte me poderia conter!   E , saber que te irei amar, muito depois de morrer.   Quem nunca passou de brasa a incêndio, não entende a total capacidade de um fogo. Prefiro renascer das cinzas a cada lua nova, do que passar pela vida sem ter ardido.   Já devia ter entendido, as pessoas só podem mergulhar fundo em mim se já tiverem mergulhado fundo em si. Quem vive à superfície, não sabe do que falo quando o assunto é o inconsciente.   Se os outros não se conhecem sequer a si mesmos, então, a opinião deles deveria mesmo importar? Há muito já fui aclamada de vilã, por não ser mais do que mera gente. E, como qualquer gente, sou simples e complexa. A realidade é que, poucos são os que se permitem sentir todo o espectro de emoções humanas, genuinamente, e eu, felizmente e infelizmente, sou gente dessa. (…) Descobriste um oceano escondido e inexplorado.   Um Mar que se abriu só para ti, como se fosse Moisés que se estivesse a aproximar. Um Mar que só existia para ti. Um Mar que mais ninguém via, onde mais ninguém podia nadar. Um Mar reservado para ti. Parecia que existia com o único propósito de fazer o teu corpo flutuar.   Deste-lhe um nome, brincaste com ele, usaste-o, amassaste-o, engoliste-o                       e, cuspiste-o de volta na minha cara. Uma outra definição. Um Mar de água doce, com a tua saliva misturada. Uma outra versão de mim, desconhecida, até então.   Um outro nome que eu preferia. Um nome que só tu me chamavas, e mais ninguém ouvia,   Um booboo que nasceu na tua boca e veio parar às minhas mãos, e delas escorria para um sorriso tímido que emergia. (...) E, de onde origina a argila? Descobri que, pode gerar-se através de um ataque químico. Por exemplo, com a água. "A água sabe."  Era o que tu me dizias.   Era com ela que nos moldavas. Talvez com a água doce e salgada que escorria do teu rosto                                                    e no meu rosto caía,                                                    e no meu pescoço secava, enquanto choravas em cima de mim,                                                                 abraçada a mim, na tua cama. Enquanto tremias de receio, de que me desejasses mais a mim, do que aquilo que eu te desejava. “Como não podias estar mais enganada!   Como é que não vias todo o tempo e amor que te dedicava?   Tinhas os olhos tapados pelo medo? Como é que me observavas e não me absorvias?” O amor tem muito de belo e muito de triste.  A dualidade do mundo é tramada, mas não me adianta de nada fechar os olhos a tudo o que existe.   Ah! Tantas coisas que nascem de um ataque químico! Ou ataque físico, como por exemplo, através do vulcanismo ou da erosão. Quando moveste as placas que solidificavam as minhas raízes à Terra,              e chegaste a mim em forma de sismo silencioso,   mandaste-me as ilusões e as outras estruturas todas abaixo, e sobrou uma cratera com a forma do meu coração, de onde foi cuspida a lava que me transmutou. A mesma lava que, mais tarde, usei para nos metamorfosear. Diria que, ser destruída e reconstruída por ti, foi a minha salvação. Sobrei eu, debaixo dos destroços. Só não sei se te sobrevivi. Nunca mais fui a mesma desde que nos vi a desabar.   E, são esses dois ataques que geram a argila. Produzem a fragmentação das rochas em pequenas partículas,                                                                                                                                                                                                             umas afiadas,                                                                                                                                                                                                           umas macias,                                                                                                                                                                                                                  todas partidas.   Gosto de pegar em factos e, aproximá-los da ficção na minha poesia. Brinco com metáforas, brinco contigo, brinco com a vida...mas, sou séria em tudo o que faço. Só porque brinco com as palavras, não significa que te mentiria. A lealdade que me une a ti não o iria permitir.   É belo, tão belo! Consegues ver? Fazes vibrar o meu mundo. Contigo dá-se a verdadeira magia! Também consegues senti-la?   Tudo dá para ser transformado em algo mais. Nem melhor nem pior, apenas algo diferente.   Das rochas vem a areia, da areia vem a argila, da argila vem o meu vaso imaginário, a quem dei um nome e uma nova sina.   Viva a alquimia! Sinto a fluir em mim a alquimia!   Tenho uma capacidade inata de romantizar tudo,                                                      de ver o copo meio cheio,                                                                                    e nem copo existia.   Revelaste-me um amor que não sabia estar perdido. Entendeste-me com qualidades e defeitos. Graças a ti, fiquei esclarecida! Que melhor do que ser amada, é ser aceite e compreendida. Feita de barro nunca antes fundido. Assim seguia a minha alma, antes de te ter conhecido. Dá-me da tua água! Quero afogar-me em ti, todas as vidas! E ter o prazer de conhecer-te, e ter o desprazer de esquecer-te, só para poder voltar a conhecer-te, sentir-te, e por ti, só por ti, ser sentida.   Toquei-te na alma nua! Ainda tenho as mãos manchadas com o sangue da tua carne crua. E a minha alma nua, foi tocada por ti. Provaste-me que não estava doida varrida. Soube logo que era tua!   Nunca tinha trabalhado com o teu tipo de barro. Ainda para mais, tão fraturado. Peguei em ti, com todo o cuidado... "Tive um pensamento bizarro, Dos teus pedaços vou construir um vaso! Tem de caber água, búzios, algumas flores! Talvez o meu corpo inteiro, se o conseguir encolher o suficiente. Recolho todos os teus bocados, mantenho-os presos, juntos por um fio vermelho e dourado. Ofereço-me a ti de presente." (…) Amei-te de forma sincera.  Às vezes errada, outras vezes certa, quem sabe incoerente. Mas o amor, esse que mais importa, ao contrário de nós, é consistente.   Sobreviveu às chamas do inferno, às chuvas que as apagaram, a dezenas de enterros e renascimentos.   Nem os anos que por ele passaram, o conseguiram romper. Nem o tempo que tudo desbota, o conseguiu reescrever. Foi assim que me deparei com o presente agridoce que me aguardava. Descobriste um dos vazios que carrego cá dentro e, depositaste um pedaço de ti para o preencher. Invadiste o meu espaço, sem que te tivesse notado, nem ouvi os teus passos a atravessar a porta.   Confundiste-te com a minha solidão, sem nunca a ter mudado. Eras metade do que faltava em mim, e nem dei conta que me faltavas. “Como poderia não te ter amado? …" (…) Minha bela pedra de argila,   Ninguém me disse que eras preciosa. Ninguém o sabia, até então. Não te davam o devido valor, e, para mim, sempre foste o meu maior tesouro. Até a alma me iluminavas, como se fosses uma pedra esculpida em ouro.    Meu vaso de barro banhado a fio dourado,   Ninguém me avisou que serias tão cobiçado,                                                                     invejado,                                                                desdenhado, ou, até, a melhor obra de arte que eu nunca teria acabado. Ninguém o poderia saber.   Queria guardar-te só para mim! Não por ciúmes, além de os ter. Mas sim, para te proteger. Livrar-te de olhares gananciosos e, pessoas mal-intencionadas.   Livrar-te das minhas próprias mãos que, aparentemente, estão condenadas                        a destruir tudo o que tanto desejam poder agarrar.   Perdoa-me, ter achado que era uma benção. Talvez fosse mais como a maldição   de um Rei Midas virado do avesso. Tudo o que toco, transforma-se em fumo dourado. Vejo o futuro que nos poderia ter sido dado! Vejo-te no fumo espesso,                                                a dissipares-te à minha frente, antes mesmo de te ter tocado. Tudo o que os deuses me ofereceram de presente, vinha envenenado.    A eterna questão que paira no ar.   É melhor amar e perder? Ou nunca chegar a descobrir a sensação de ter amado? É melhor amar e ficar! Há sempre mais opções, para quem gosta de se focar menos nos problemas                      e mais nas soluções. O amor é como o meu vaso de argila em processo de criação.   Cuidado! Qualquer movimento brusco vai deixar uma marca profunda. Enquanto não solidificar, tens de ter cuidado! Muito cuidado para não o estragar. Deixa-o girar, não o tentes domar, toca-lhe com suavidade, dá-lhe forma gentilmente, decora os seus movimentos e, deixa-te ser levado, para onde quer que te leve a sua incerta corrente. Enquanto não solidificar, é frágil! Muito frágil e, a qualquer momento, pode desabar. Era isso que me estavas a tentar ensinar?   Duas mãos que moldam a argila num ritmo exaltante! E une-se a argila com o criador!                                             E gira! E gira! num rodopio esmagador,                                                         E gira! E gira! mas não o largues! Segura bem os seus pedaços! Abraça-os com firmeza! Porque erguê-lo é um trabalho árduo                                                                  e se o largas, vai logo abaixo! São horas, dias, meses, anos, atirados para o esgoto. Sobra a dor, para que nenhuma de nós se esqueça.                                         E dança! E dança! E dança!...                              Tento seguir os seus passos pela cintura...                                          Se não soubesse que era argila,                             diria que era a minha mão entrelaçada na tua. Bato o pé no soalho.                                     E acelero!                                                       e acalmo o compasso... A água escorre por ele abaixo. Ressalta as tuas belas linhas à medida da sua descida, como se fosse a tua pele suada na minha.   No final, que me resta fazer? Apenas admirá-lo. Reconstrui-lo. Delimitá-lo. Esculpi-lo. Colori-lo. Parti-lo, quem sabe. É tão simples! a minha humana de ossos e carne, transformada em pedra de argila, transformada em tesouro, transformada em pó de cinza que ingeri do meu próprio vulcão... A destruição também é uma forma de arte, descobri isso à força, quando me deixaste.   Acho que, no meu vaso de argila, onde duas mãos se entrecruzaram para o moldar, vou enchê-lo de areia, búzios, pedras e água dourada,          talvez nasça lá um outro pedaço de ti, a meio da madrugada. Vou metê-lo ao lado da minha cama, e chamar-lhe vaso de ouro. Porque quem pega num pedaço rochoso e consegue dar-lhe uma outra utilidade, já descobriu o que é alquimia,   o poder de ser forjado pelo fogo e sair ileso, renascido como algo novo.
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411
Não são os outros! Nunca foram os outros. Não é o lugar! Nunca foi o lugar. Sou eu! Já quis partir em retiros para o Tibete. Ou em viagens espirituais para a Tailândia. Já quis correr o mundo à procura de algo que só podia encontrar em mim. Parece-me interessante, aliás, ainda o quero fazer pela pura necessidade que tenho de experienciar. No entanto, é inútil. É mirar ao fracasso, e é condenação interior a uma busca incessante que não traz paz, só traz correria desenfreada, sem meta final onde possa descansar, uma armadilha que me obriga a jogar por algo que nem vale a pena ganhar. Prefiro a tranquilidade que me consigo proporcionar. Em vez de correr, prefiro caminhar. Prefiro aceitar a incompletude, para não ter de me andar a perseguir por lugares onde nem sequer passei. Prefiro pensar no que tenho. Prefiro aceitar o que tenho. Prefiro limar o que tenho. Prefiro amar o que tenho. Não me falta peça nenhuma! Só me falta descobrir uma maneira de lhes dar sentido... de me ordenar. É inútil acharmos que temos de sair do sítio para viver e, consequentemente, evoluir ou mudar, ou correr de lugar para lugar, à procura da essência mais profunda que nos constrói. Quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento! O nosso cérebro não sabe distinguir entre a experiência vivida e a experiência imaginada, para ele é tudo igual. Somos biliões de informações! a que este magnífico pedaço de ***** cinzenta atribui significado. Experiências reais ou imaginárias, que se convertem em memórias, memórias que ganham uma nova vida de cada vez que as recordamos, histórias que repetimos a nós e aos outros, até sermos só pedaços daquilo que lhes contamos. Prefiro esquecer! Escrevo as histórias que nunca contei, para depois as tentar esquecer... Só me oriento pelas minhas próprias pegadas e, quando escrevo é apenas através de experiência pessoal. Não recorro à generalização de vivências tão únicas, mas, como admito ser-humana, sei que por muitos outros são partilhadas, e sem o meu consentimento, generalizadas. Nasci para escrever poesia, mas não sei se nasci para ser poeta. A escrita é um dissecar do próprio íntimo. Escrever é sangrar para o papel. E se o que eu escrevo fizer sentido para um outro alguém, então ótimo, é como se partilhássemos o mesmo abraço enquanto o meu poema durar. E se o que eu escrevo não fizer sentido para ninguém, não importa. Escrevo para mim. Qualquer outra pessoa que me tente ler, irá observar-me através de um vidro duplamente espelhado. O que pensa observar de mim é, nada mais nada menos, do que o seu reflexo a acenar de volta para si. Porque a poesia é assim! dizem-me que não pertence a quem a escreve mas sim a quem a lê. Sou do contra, não vivo à vossa mercê! A poesia é minha! O amor é meu! A dor é minha! E se a estou a partilhar, não é por motivos altruístas, não quero ser vista nem entendida. E se a estou a partilhar, é só porque estava sufocada, porque o poema já me estava a arder nas veias, muito antes do próprio poema começar. E se o estou a partilhar, é porque não tive escolha, era escrever ou morrer! e depois de estar cá fora, depois do fogo apagar, depois das cinzas pousarem e da ferida parar de jorrar... só depois, muito depois, é que uso o meu discernimento, volto atrás no tempo e decido se o vou partilhar, ou se é só meu, e de quem me veio inspirar. Sou líder de mim mesma! Sento-me na mesa-redonda do Eu e converso com todos os meus familiares, amigos, parceiros, desconhecidos, inimigos, anjos e demónios, todos com a minha cara, todos com a minha maneira de pensar, todos a olhar de volta para mim à espera que comece a falar...Quem diria, que de uma mesa tão cheia e diversificada, poderia comprimi-la, agrupa-la numa só pessoa, com uma única fachada virada para o exterior! Adoro a complexidade que de mim emana! Adoro ser várias, e ao mesmo tempo ser coesa. Ser o sol que mantém todas de mim em órbita, a força universal que me mantém presa, Fiel a quem sou, Com alma pura e coração digno de entrar na corte real da nobreza. Entro em longos debates com todas as versões de mim, sobre qual de nós seguir. Creio que, desde tenra idade, tornei-me boa ouvinte para dentro. O dito mundo real não me bastava, muito menos me alegrava ou inspirava, então, recuei. Retraí-me para o vasto mundo interior da minha mente e, inventei mundos novos. Foi assim que descobri a melhor companhia que podia ter. Nunca me sentia sozinha, desde que me tivesse presente. Depois de aprender a escutar o que vem de dentro, aprendi a escutar o que vem de fora. No final do debate, decido seguir a mim mesma. Nenhuma de mim ficará para trás! Nem as que já morreram e tive de enterrar! mesmo que não saiba para onde seguir. Talvez em frente. Diria que, por esta altura, seguir em frente é uma especialização minha.   Como qualquer líder, às vezes também me falho. Como qualquer líder, debruço-me obsessivamente sobre as falhas até descobrir como as preencher. Puno-me por elas e, finalmente, permito-me aprender.   Como qualquer líder, sou consumidora assídua de pequenas e grandes lições. Como qualquer líder, cometo erros. E, como qualquer líder, tento não repetir os mesmos.   Só não sou como qualquer líder. Não nasci para guiar outros, porque também eu estou perdida. Não quero que me sigam! Aliás, se for possível, sigam o caminho oposto ao meu. E não me peçam para vos seguir! Só me sei seguir a mim, e mal.   Nasci para desbravar o mato à machadada, na exata medida em que for avançando nele. Não me ofereçam florestas já desbravadas! Fiquem lá com elas. Não me ofereçam sonhos que não me pertencem! Prefiro deitar-me mais cedo para ter os meus. Não me vendam a vossa verdade! É um negócio sujo, onde eu ficaria sempre a perder. A verdade do outro, que fique o outro com ela. Prefiro explorar a minha.   Deixem-me ir! Quero ver por mim. Ouvir por mim. Tocar por mim. Cheirar por mim. Saborear por mim. Cair por mim. Levantar pela minha própria mão. Vivam as vossas experiências e deixem-me viver as minhas!   Deixem-me tirar as minhas próprias conclusões! Tomá-las como certas, só para mais tarde descobrir que estão erradas. E está tudo bem, crescer é mesmo isso.   Deixem-me ser mutável! Não me queiram vendada, de ideias fixas ou radicalizadas. Sou adepta do equilíbrio, apesar de nem sempre o conseguir manter. No meu mundo tudo tem permissão para existir, simultaneamente. Todos têm permissão para ser. Há um espaço invisível sem paredes para o delimitar, um lugar inspirado no Lavoisier, onde nada se perde, nada se cria, tudo se pode transformar. Deixem-me ser! Só peço que me deixem ser! E serei feliz, mesmo na minha profunda infelicidade.   Nasci para ser uma selvagem autodomada. Uma líder seletivamente dedicada. Uma humana fortemente frágil, com uma beleza feia, como me dizia uma bela cigana, e obcecada com a sua própria caminhada.   Posso viajar para o sítio mais lindo do universo! Posso deslocar os olhos pelas mais belas paisagens! Posso conhecer os seres mais fascinantes! Posso ler as palavras mais requintadas! Poderia até beber da fonte da juventude eterna!   Mas se eu não estiver em mim, se não estiver comigo, não há nada. Não há nada! Não há coisa alguma que chegue até mim se eu não estiver dentro de casa para a receber, para lhe abrir a porta, cumprimenta-la com um sorriso, um olhar cativo de quem está lá para a acolher. Não há beleza que me toque, porque não há ninguém cá dentro para ser tocado. Às vezes, viro uma casa assombrada. Abandonada, com vida morta. Há o receptáculo! Esse fica, até que a Terra decida vir recuperá-lo e, com todo o direito, levá-lo de volta para si.  Há o corpo em piloto automático, só não há a alma que o irradia, ou que o faça completo.   Sei quando estou comigo. Tal como sei quando me abandono. "Só não sei para onde vou de cada vez que me decido abandonar", isto foi outra coisa que aquela bela cigana que me disse, ou estarei a sonhar? A realidade e o imaginário tornam-se mais difíceis de separar. Onde me escondo de mim mesma? Sou mestre a desaparecer, sem aviso prévio de quando irei voltar...se irei voltar. Que péssimo hábito! Que mecanismo de defesa ridículo! Foi uma maldição que me deitaram e, agora, tenho de a conseguir quebrar. Tenho de me quebrar!... Abrir-me até ao meu interior, olhar para dentro do poço, mesmo que me dê vontade de vomitar, principalmente, quando me dá vontade de vomitar...por mais que me custe olhar. Não posso desviar o olhar! Tenho de remexer nas minhas entranhas, sentir nas minhas mãos o que está avariado, e descobrir como o remendar. E quebro-me! vezes sem conta. E pego nas peças que estilhacei contra o chão, e corto-me com elas, e brinco com elas, e algures, a meio desta sádica brincadeira, há uma ou outra que decide encaixar, e dão-me sentido, uma nova forma, um eu mais polido, mais perto de nunca ser perfeito e completo. Percebo quando me vou. Fica tudo mais ***** O vazio absorve-me. O mundo desaponta-me. A poesia desaparece. O barulho do silêncio torna-se ensurdecedor. O corpo mexe-se, mas não age. O olhar fica turvo e as lentes que uso não me permitem ver com clareza. A empatia vira apatia. A falta de emoções torna-me robotizada. Não há amor! É ensurdecedor! Não há amor... A magia que me move decide esconder-se de mim. Não sei se para brincar comigo, não sei se para me provocar, não sei se para despertar a besta que dorme sossegada. Só sei que, de tempo a tempo, a minha alma decide jogar à apanhada e é a primeira a escapar. Alma rebelde e insurreta! Nunca te ensinei a ficar! Perdoa-me, por favor, também não me ensinaram a mim. Mas, ao menos, ensinei-te a voltar. Depois, como que por infantilidade, ou talvez por vontade de regressar a casa, começa a sussurrar-me...Ouço-a chamar baixinho por mim e, lá vou eu toda contente atrás dela, deixo o seu jogo continuar, só por curiosidade de desvendar até onde é que ela vai, onde é que ela pretende levar-me. Quanto mais me aproximo de mim, mais cores se erguem à minha volta. A paz invade-me e reconquista o seu devido território no meu peito. A poesia ressurge e faz-me ressurgir.  O silêncio volta a ser música para esta alma sensível. O corpo age com intenção. O olhar fica cristalino e escolho ver o mundo através de lentes que o retratam mais bondoso, pelo menos para mim. As emoções retomam o seu percurso natural no meu sistema, com a intensidade de vulcões ativos. A empatia é reflexo do amor que sinto e que transborda. A magia mastiga-me e cospe-me para o mundo em forma de luz.   De tempo a tempo, perco-me de mim. De tempo a tempo, reencontro-me.   E, deste tempo que se aproxima, só quero uma coisa: quero voltar a mim! Quero abraçar-me! como se estivesse a despedir-me do amor da minha vida, às portas do aeroporto. Quero acarinhar-me e amar-me. Quero voltar a mim! Quero ver o que vou encontrar quando a mim regressar.   Perco-me de mim. Demasiadas vezes, perco-me de mim.   Quando me reencontro, já não estou no ponto onde me perdi. Já sou uma mistura entre aquela que se perdeu e a que está prestes a renascer. Diria que passo muito tempo no limbo da existência e da não existência.  Quando me reencontro, sou algo diferente. Quem sabe melhor, quem sabe pior...essas reflexões deixo para os que me oferecem opiniões não solicitadas. Sei que sou algo diferente, o resto é ruído.   Nasci para criar. Nasci para me reinventar.   Dito isto, acolho a destruição e o caos que vem de dentro como parte do meu processo de criação pessoal.   Disto isto, quando me reencontrar, é só uma questão de tempo a tempo para me voltar a perder.
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Sep 13, 2022
Sep 13, 2022 at 3:22 PM UTC
Vou ou não vou? E fui...
Não são os outros! Nunca foram os outros. Não é o lugar! Nunca foi o lugar. Sou eu! Já quis partir em retiros para o Tibete. Ou em viagens espirituais para a Tailândia. Já quis correr o mundo à procura de algo que só podia encontrar em mim. Parece-me interessante, aliás, ainda o quero fazer pela pura necessidade que tenho de experienciar. No entanto, é inútil. É mirar ao fracasso, e é condenação interior a uma busca incessante que não traz paz, só traz correria desenfreada, sem meta final onde possa descansar, uma armadilha que me obriga a jogar por algo que nem vale a pena ganhar. Prefiro a tranquilidade que me consigo proporcionar. Em vez de correr, prefiro caminhar. Prefiro aceitar a incompletude, para não ter de me andar a perseguir por lugares onde nem sequer passei. Prefiro pensar no que tenho. Prefiro aceitar o que tenho. Prefiro limar o que tenho. Prefiro amar o que tenho. Não me falta peça nenhuma! Só me falta descobrir uma maneira de lhes dar sentido... de me ordenar. É inútil acharmos que temos de sair do sítio para viver e, consequentemente, evoluir ou mudar, ou correr de lugar para lugar, à procura da essência mais profunda que nos constrói. Quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento! O nosso cérebro não sabe distinguir entre a experiência vivida e a experiência imaginada, para ele é tudo igual. Somos biliões de informações! a que este magnífico pedaço de ***** cinzenta atribui significado. Experiências reais ou imaginárias, que se convertem em memórias, memórias que ganham uma nova vida de cada vez que as recordamos, histórias que repetimos a nós e aos outros, até sermos só pedaços daquilo que lhes contamos. Prefiro esquecer! Escrevo as histórias que nunca contei, para depois as tentar esquecer... Só me oriento pelas minhas próprias pegadas e, quando escrevo é apenas através de experiência pessoal. Não recorro à generalização de vivências tão únicas, mas, como admito ser-humana, sei que por muitos outros são partilhadas, e sem o meu consentimento, generalizadas. Nasci para escrever poesia, mas não sei se nasci para ser poeta. A escrita é um dissecar do próprio íntimo. Escrever é sangrar para o papel. E se o que eu escrevo fizer sentido para um outro alguém, então ótimo, é como se partilhássemos o mesmo abraço enquanto o meu poema durar. E se o que eu escrevo não fizer sentido para ninguém, não importa. Escrevo para mim. Qualquer outra pessoa que me tente ler, irá observar-me através de um vidro duplamente espelhado. O que pensa observar de mim é, nada mais nada menos, do que o seu reflexo a acenar de volta para si. Porque a poesia é assim! dizem-me que não pertence a quem a escreve mas sim a quem a lê. Sou do contra, não vivo à vossa mercê! A poesia é minha! O amor é meu! A dor é minha! E se a estou a partilhar, não é por motivos altruístas, não quero ser vista nem entendida. E se a estou a partilhar, é só porque estava sufocada, porque o poema já me estava a arder nas veias, muito antes do próprio poema começar. E se o estou a partilhar, é porque não tive escolha, era escrever ou morrer! e depois de estar cá fora, depois do fogo apagar, depois das cinzas pousarem e da ferida parar de jorrar... só depois, muito depois, é que uso o meu discernimento, volto atrás no tempo e decido se o vou partilhar, ou se é só meu, e de quem me veio inspirar. Sou líder de mim mesma! Sento-me na mesa-redonda do Eu e converso com todos os meus familiares, amigos, parceiros, desconhecidos, inimigos, anjos e demónios, todos com a minha cara, todos com a minha maneira de pensar, todos a olhar de volta para mim à espera que comece a falar...Quem diria, que de uma mesa tão cheia e diversificada, poderia comprimi-la, agrupa-la numa só pessoa, com uma única fachada virada para o exterior! Adoro a complexidade que de mim emana! Adoro ser várias, e ao mesmo tempo ser coesa. Ser o sol que mantém todas de mim em órbita, a força universal que me mantém presa, Fiel a quem sou, Com alma pura e coração digno de entrar na corte real da nobreza. Entro em longos debates com todas as versões de mim, sobre qual de nós seguir. Creio que, desde tenra idade, tornei-me boa ouvinte para dentro. O dito mundo real não me bastava, muito menos me alegrava ou inspirava, então, recuei. Retraí-me para o vasto mundo interior da minha mente e, inventei mundos novos. Foi assim que descobri a melhor companhia que podia ter. Nunca me sentia sozinha, desde que me tivesse presente. Depois de aprender a escutar o que vem de dentro, aprendi a escutar o que vem de fora. No final do debate, decido seguir a mim mesma. Nenhuma de mim ficará para trás! Nem as que já morreram e tive de enterrar! mesmo que não saiba para onde seguir. Talvez em frente. Diria que, por esta altura, seguir em frente é uma especialização minha.   Como qualquer líder, às vezes também me falho. Como qualquer líder, debruço-me obsessivamente sobre as falhas até descobrir como as preencher. Puno-me por elas e, finalmente, permito-me aprender.   Como qualquer líder, sou consumidora assídua de pequenas e grandes lições. Como qualquer líder, cometo erros. E, como qualquer líder, tento não repetir os mesmos.   Só não sou como qualquer líder. Não nasci para guiar outros, porque também eu estou perdida. Não quero que me sigam! Aliás, se for possível, sigam o caminho oposto ao meu. E não me peçam para vos seguir! Só me sei seguir a mim, e mal.   Nasci para desbravar o mato à machadada, na exata medida em que for avançando nele. Não me ofereçam florestas já desbravadas! Fiquem lá com elas. Não me ofereçam sonhos que não me pertencem! Prefiro deitar-me mais cedo para ter os meus. Não me vendam a vossa verdade! É um negócio sujo, onde eu ficaria sempre a perder. A verdade do outro, que fique o outro com ela. Prefiro explorar a minha.   Deixem-me ir! Quero ver por mim. Ouvir por mim. Tocar por mim. Cheirar por mim. Saborear por mim. Cair por mim. Levantar pela minha própria mão. Vivam as vossas experiências e deixem-me viver as minhas!   Deixem-me tirar as minhas próprias conclusões! Tomá-las como certas, só para mais tarde descobrir que estão erradas. E está tudo bem, crescer é mesmo isso.   Deixem-me ser mutável! Não me queiram vendada, de ideias fixas ou radicalizadas. Sou adepta do equilíbrio, apesar de nem sempre o conseguir manter. No meu mundo tudo tem permissão para existir, simultaneamente. Todos têm permissão para ser. Há um espaço invisível sem paredes para o delimitar, um lugar inspirado no Lavoisier, onde nada se perde, nada se cria, tudo se pode transformar. Deixem-me ser! Só peço que me deixem ser! E serei feliz, mesmo na minha profunda infelicidade.   Nasci para ser uma selvagem autodomada. Uma líder seletivamente dedicada. Uma humana fortemente frágil, com uma beleza feia, como me dizia uma bela cigana, e obcecada com a sua própria caminhada.   Posso viajar para o sítio mais lindo do universo! Posso deslocar os olhos pelas mais belas paisagens! Posso conhecer os seres mais fascinantes! Posso ler as palavras mais requintadas! Poderia até beber da fonte da juventude eterna!   Mas se eu não estiver em mim, se não estiver comigo, não há nada. Não há nada! Não há coisa alguma que chegue até mim se eu não estiver dentro de casa para a receber, para lhe abrir a porta, cumprimenta-la com um sorriso, um olhar cativo de quem está lá para a acolher. Não há beleza que me toque, porque não há ninguém cá dentro para ser tocado. Às vezes, viro uma casa assombrada. Abandonada, com vida morta. Há o receptáculo! Esse fica, até que a Terra decida vir recuperá-lo e, com todo o direito, levá-lo de volta para si.  Há o corpo em piloto automático, só não há a alma que o irradia, ou que o faça completo.   Sei quando estou comigo. Tal como sei quando me abandono. "Só não sei para onde vou de cada vez que me decido abandonar", isto foi outra coisa que aquela bela cigana que me disse, ou estarei a sonhar? A realidade e o imaginário tornam-se mais difíceis de separar. Onde me escondo de mim mesma? Sou mestre a desaparecer, sem aviso prévio de quando irei voltar...se irei voltar. Que péssimo hábito! Que mecanismo de defesa ridículo! Foi uma maldição que me deitaram e, agora, tenho de a conseguir quebrar. Tenho de me quebrar!... Abrir-me até ao meu interior, olhar para dentro do poço, mesmo que me dê vontade de vomitar, principalmente, quando me dá vontade de vomitar...por mais que me custe olhar. Não posso desviar o olhar! Tenho de remexer nas minhas entranhas, sentir nas minhas mãos o que está avariado, e descobrir como o remendar. E quebro-me! vezes sem conta. E pego nas peças que estilhacei contra o chão, e corto-me com elas, e brinco com elas, e algures, a meio desta sádica brincadeira, há uma ou outra que decide encaixar, e dão-me sentido, uma nova forma, um eu mais polido, mais perto de nunca ser perfeito e completo. Percebo quando me vou. Fica tudo mais ***** O vazio absorve-me. O mundo desaponta-me. A poesia desaparece. O barulho do silêncio torna-se ensurdecedor. O corpo mexe-se, mas não age. O olhar fica turvo e as lentes que uso não me permitem ver com clareza. A empatia vira apatia. A falta de emoções torna-me robotizada. Não há amor! É ensurdecedor! Não há amor... A magia que me move decide esconder-se de mim. Não sei se para brincar comigo, não sei se para me provocar, não sei se para despertar a besta que dorme sossegada. Só sei que, de tempo a tempo, a minha alma decide jogar à apanhada e é a primeira a escapar. Alma rebelde e insurreta! Nunca te ensinei a ficar! Perdoa-me, por favor, também não me ensinaram a mim. Mas, ao menos, ensinei-te a voltar. Depois, como que por infantilidade, ou talvez por vontade de regressar a casa, começa a sussurrar-me...Ouço-a chamar baixinho por mim e, lá vou eu toda contente atrás dela, deixo o seu jogo continuar, só por curiosidade de desvendar até onde é que ela vai, onde é que ela pretende levar-me. Quanto mais me aproximo de mim, mais cores se erguem à minha volta. A paz invade-me e reconquista o seu devido território no meu peito. A poesia ressurge e faz-me ressurgir.  O silêncio volta a ser música para esta alma sensível. O corpo age com intenção. O olhar fica cristalino e escolho ver o mundo através de lentes que o retratam mais bondoso, pelo menos para mim. As emoções retomam o seu percurso natural no meu sistema, com a intensidade de vulcões ativos. A empatia é reflexo do amor que sinto e que transborda. A magia mastiga-me e cospe-me para o mundo em forma de luz.   De tempo a tempo, perco-me de mim. De tempo a tempo, reencontro-me.   E, deste tempo que se aproxima, só quero uma coisa: quero voltar a mim! Quero abraçar-me! como se estivesse a despedir-me do amor da minha vida, às portas do aeroporto. Quero acarinhar-me e amar-me. Quero voltar a mim! Quero ver o que vou encontrar quando a mim regressar.   Perco-me de mim. Demasiadas vezes, perco-me de mim.   Quando me reencontro, já não estou no ponto onde me perdi. Já sou uma mistura entre aquela que se perdeu e a que está prestes a renascer. Diria que passo muito tempo no limbo da existência e da não existência.  Quando me reencontro, sou algo diferente. Quem sabe melhor, quem sabe pior...essas reflexões deixo para os que me oferecem opiniões não solicitadas. Sei que sou algo diferente, o resto é ruído.   Nasci para criar. Nasci para me reinventar.   Dito isto, acolho a destruição e o caos que vem de dentro como parte do meu processo de criação pessoal.   Disto isto, quando me reencontrar, é só uma questão de tempo a tempo para me voltar a perder.
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Ó terra fria e suja, Com que os vivos me taparam... Fui acorrentada        aprisionada        encaixotada Cabeça, corpo e alma soterrada, Quando ainda não tinha idade... Era bela e tenra a idade para me saber salvar. A criança que fui, se é que a fui, Jaz numa campa, jaz lá deitada. Tornou-se um símbolo de pureza, Da minha inocência arruinada. Mal fechou os olhos, soltou-se o último suspiro, Abriu-se a Terra e ouviu-se em grito: "És só mais uma pessoa estragada! Bem-vinda ao mundo real, Aí em cima, estar partida é requisito. Desce cá abaixo, atira-te sem medos, tenho muito para te ensinar! Aqui somos todos filhos do Diabo, Dançamos com ele lado a lado, Aniquilamos o que em nós já estava manchado, Destruímos a ferro e fogo o ódio e o pecado, Renascemos livres e prontos para amar. Anda recuperar a pureza que te tentaram matar!" Bichos do solo que devoravam O meu corpo gélido e petrificado. Via-os passar por cima do meu olhar desesperado, Comiam o que restava do meu coração. Quase, quase adormecido... Quase, quase devorado... Quase, quase esquecido.... É bom relembrar-me que estou só de passagem, Enquanto me entrego ao sonho e a esta última miragem Da violência, da ganância, da frieza, da ignorância, Que só os vivos desta Terra conseguem revelar. Acharam eles que me iam quebrar! Belo truque de ilusionismo! Foi o que me tentaram ensinar. Levei metade da vida para me desapegar De todos os maus ensinamentos que me tentaram pregar. Mas não sou Cristo para me pregarem, Prefiro crucificar-me já. Nem sou Houdini para me escapar, Prefiro o prazer que ficar me dá. A minha maneira é mais barbária, Abri caminho à machadada, Incendiei a cruz e a aldeia inteira, Rebentei com o caixão onde estava enfiada. Fui à busca da liberdade, para longe. Bem longe, onde não me pudessem encontrar. Não encontrei a liberdade, essa já a tinha, já era minha. Mas reencontrei a inocência que há tanto queria recuperar. Chamem-me bruxa moderna! Mulher sensitiva, sonhadora, intuitiva, Que vê além do que os sentidos mostram, Que sente além da fronteira que nos separa do invisível. Neta, bisneta, trisneta, tetraneta, De mulheres poderosas e ancestrais. Das chamadas "bruxas originais" Que os cobardes não conseguiram queimar. E bem que as tentaram erradicar! Mas a magia sobrevive à História! Poder senti-la hoje, poder perpetua-la, Essa será sempre a nossa vitória, pertence a todas as mulheres. Que venham agora tentar apanhar-me! Solto-lhes as chamas do Inferno, Onde os deuses me escolheram forjar. Ai, a crueldade que este mundo traz... Só mesmo as pessoas, essa raça sadia que é capaz De destruir o seu semelhante, manipular o seu próprio irmão, Sem um único pingo de compaixão. Pegam na pá, cavam-lhe o precipício, São os primeiros a empurrarem-no ao chão. Reparem bem...Disse "pessoas", Que é bem diferente de "seres-humanos", Essa é a questão. Porque quem sabe ser-humano, sabe bem daquilo que escrevo, Não é indiferente à sua própria condição, Limitada, defeituosa, machucada. Basicamente, não valemos nada! Que alívio, admiti-lo. Loucos são os que vivem na ilusão De serem superiores aos bichos do solo. Os mesmos que vos vão devorar os olhos no caixão. (...) Ó terra fria e suja Com que me taparam... De lágrimas foste regada, De ti surgiu o que ninguém sonhava, Um milagre que veio pela calada. Um girassol! Com pétalas de água salgada Que sai pelo seu caule disparada. És tudo, simultaneamente! És nascente do rio e és fonte avariada. Pura água! onde toda a gente mergulhava, Apesar de não saberem lá nadar. Não paravam para a beber, quanto mais para a apreciar. Talvez tenha sido numa noite de luar, Que conheci uma ave rara... Uma beija-flor colorida, com olhos castanhos de encantar, Formas humanas, magníficas, E uma voz melódica de fazer arrepiar. Talvez tenha sido num dia de sol, Que ela me observara, indecisa sobre a partida ou chegada. Porque é que em mim pousara? Não sei. Não a questionei. Fiquei encantada! Estava tão tranquila Que quase... quase flutuava, como uma pena soprada, Enquanto ela penicava a minha água salgada, Banhava-se na minha corrente agitada, Sentia os mil sabores enquanto a devorava, Absorvia-me no seu corpo sem medo de nada. Não havia presente, passado ou futuro! Só havia eu, ela e as semelhanças que nos representam, Os opostos que nos atraem e complementam, O amor que é arrebatador, ingénuo e puro. Nessa noite, nesse dia, descobri que a água amava! Como é que posso dizer isto de uma coisa inanimada? Vejo vivos que já estão mortos, Submersos nos seus próprios esgotos mentais. Vejo coisas que estão vivas, Como a água que nunca pára, Não desiste de beijar a costa por mais que ela a mande para trás. Ela vai! Mas sempre volta. Se o amor não é isso, então que outro nome lhe dás? Podia jurar que ouvi a água a falar... Que sina a minha! Outra que disse que veio para me ensinar. Envolveu-me nos seus braços e disse: "Confia! Sei que é difícil, mas confia, deixa-te levar. A água cria! A água sabe! A água sabe tudo! Já se banharam nestes mesmos oceanos Todas as gerações que habitaram este mundo. É a água que esconde os segredos da humanidade, Os seus mistérios mais profundos. É a água que acalma, é a água que jorra, é a água que afoga, Dá-te vida ao corpo, mas também a cobra." Não era a água...estava enganada. Era a minha ave rara quem me falara, Quem me sussurrava ao ouvido, Com um tom de voz quase imperceptível mas fluído. Que animal destemido! Decidiu partilhar um pouco de si comigo, Decidiu mostrar-me que pode existir no outro um porto de abrigo. Teceu-me asas para que pudesse voar! E disse "Vai! Voa! Sê livre!", Mas depois de a encontrar, não havia outro sítio no mundo onde eu preferisse estar. Ensinou-me a mergulhar, a não resistir à corrente, A suster a respiração, controlar o batimento do coração, Desbravar o fundo do mar, sem ter de lá ficar. Verdade seja dita! Devo ter aprendido bem. Verdade seja dita! Sempre à tona regressei. Bem que me tentaram afogar! Eu mesma tentei. Mas verdade seja dita! Sou teimosa, orgulhosa. Se tiver de morrer, assim será! Mas serei eu! Eu e só eu, que irei escolher quando me matar. Pode parecer sombrio, dito da forma fria que o digo. Mas verdade seja dita! Sinto um quente cá dentro, Quando penso na liberdade de poder escolher A altura certa que quero viver Ou a altura certa que quero morrer. (...) Com as asas que me ofereceu, Dedico-me à escrita, para que a verdade seja dita. Da analogia, à hipérbole, à metáfora, à antítese. Sou uma contradição maldita! Sou um belo paradoxo emocional! Prefiro voar só, a não ser quando bem acompanhada. Porque neste longa jornada, A que gosto de chamar de "vida" ou "fachada", Há quem me ajude a caminhar. Pela dura estrada, às vezes voo de asa dada. Celebro com a minha ave rara a pureza reconquistada! Permitimos que as nossas raízes escolham o lugar Por onde se querem espalhar. Seja na Terra, no Céu, no Mar. Somos livres para escolher! Onde, quando e como desejamos assentar. (...) Dizem que em Terra de Cegos, Quem tem olho é Rei. Digo-lhes que tinha os dois bem abertos! Quando ao trono renunciei. Não quero a Coroa, não ambiciono o bastão, Não quero dinheiro para esbanjar, Não quero um povo para controlar. Quero manter o coração aberto! E que seja ele a liderar! Deixo o trono para quem o queira ocupar. Para quem venha com boas intenções, Que saiba que há o respeito de todo um povo a reconquistar. Quem não tenha medo de percorrer todas as ruas da cidade, Da aldeia, do bairro... desde a riqueza à precaridade. Para quem trate com equidade todo o seu semelhante, Seja rico ou pobre, novo ou velho, gordo ou magro, inteligente ou ignorante. Vamos mostrar que é possível o respeito pela diversidade! Governemos juntos! Lado a lado! (...) O reflexo na água é conturbado... Salto entre assuntos, sem terminar os que tinha começado. Nunca gostei muito de regras e normas, sejam líricas, sociais ou gramaticais. No entanto, quanto mais tempo me tenho observado, Mais vejo que há um infinito em mim espelhado. Sou eterna! Efémera... Só estou de visita! E, depois desta vida, Haverá mais lugares para visitar, outras formas para ser. Só estou de visita! É nisso que escolho acreditar. Vim para experienciar! Nascer, andar, correr, Cair, levantar, aprender, amar, sofrer, Repetir, renascer... Ah! E, gostava de, pelo menos, uma grande pegada deixar. Uma pegada bem funda, na alma de um outro alguém, Como se tivesse sido feita em cimento que estava a secar. Uma pegada que ninguém conseguirá apagar. E, se neste mundo eu não me enquadrar? Não faz mal! É porque vim para um novo mundo criar. Para ser a mudança que ainda não existe, Para ter o prazer de vos contrariar. Sou feita de amor, raiva, luz, escuridão, magia, Intensidade que vibra e contagia. Giro, giro e giro-ao-sol, enquanto o sol girar. Mesmo quando ele desaparece, para que a nossa lua possa brilhar. Quem, afinal, diria? Que o amor que me tentaram assassinar, Cresceu tão forte em agonia Que tornou-se tóxico, só para os conseguir contaminar. E inundar, e transbordar, quem sabe, para os mudar. Como que por rebeldia, estou habituada a ser a que contraria. Prefiro fazer tudo ao contrário! Em vez de me deixar ser dominada, prefiro ser eu a dominar. Mais depressa me mantenho fiel à alma que me guia, Do que a qualquer pessoa que me venha tentar limitar. Nunca fui boa a ser o que o outro queria. Nunca foi boa a reduzir-me, para me certificar que no outro haveria um espaço onde eu caberia. Uma mente que foi expandida Jamais voltará a ser comprimida! Nunca mais será enclausurada! Num espaço fechado                                                                                   pré-programado                                                                                   condicionado Cheio de pessoas com o espírito acorrentado, Que se recusam a libertar das suas próprias amarras, Quebrar antigos padrões, olhar para fora da caverna, Em direção ao mundo que continua por ser explorado. "Então é aqui a Terra? O tal Inferno que me tinham falado!" Sejam livres de prisões! Revoltem-se, unam-se, libertem-se! A vocês e aos vossos irmãos! Vão ao passo do mais lento! Certifiquem-se que ninguém fica para trás! Sejam fortes e valentes! Mostrem que, com todos juntos, A mudança será revolucionária e eficaz! Apoiem-se uns aos outros! Não confiem no Estado! Dêem a mão uns aos outros, sejam o apoio que vos tem faltado! (...) Carrego a luz que dei à vida e, reclamo-a para mim. Não me importo de a partilhar, Faço-o de boa vontade! Este mundo precisa de menos pessoas e mais humanidade. Esta humildade, esta forte fragilidade, Brotou das mortes que sofri, de todos os horrores que já vi. Brotou força, de todas as lutas que sobrevivi. Brotou sabedoria, de todos os erros que cometi, De todos aqueles que corrigi, e dos que ainda não me apercebi. Criei-me do nada. Resisti! Como uma fénix sagrada e abençoada, Moldei-me sem fim, nem começo... Queimei o passado, sem o ter apagado. Ensinei-me a manter os olhos para a frente. Permiti-me à libertação! De enterrar o que me tentou destruir anteriormente. Moro no topo da montanha. Amarela, azul, verde e castanha. A tal montanha que só por mim é avistada, No novo mundo que criei para a minha alma cansada. Moro no topo de céu. Numa casa feita de girassóis sem fim, nem começo... Que plantei para oferecer à minha ave rara, Ao meu beija-flor colorido. O meu beija-flor preferido! Que me veio ensinar que o amor existe. Afinal ele existe! E é bruto. Intoxicante. Recíproco. Mas nem sempre é bonito. Seja como for, aceito o seu amor! Este dedico-te a ti, minha beija-flor encantada. Tu! Que me vieste manter viva e apaixonada. Porque quando estás presente, A Terra não é fria, nem enclausura. Ao pé de ti, posso ser suja! Acendes a chama e fico quente! Porque quando estás presente, Iluminas-me a cabeça, o corpo, a alma e a mente. Porque quando estás presente, Sinto que giro-ao-sol e ele gira cá. E, se existe frio, não é da Terra. É o frio na barriga! Por sentir tanto amor! é isso que me dá.
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Jun 8, 2022
Jun 8, 2022 at 9:01 AM UTC
Viagem ao centro da Terra
Ó terra fria e suja, Com que os vivos me taparam... Fui acorrentada        aprisionada        encaixotada Cabeça, corpo e alma soterrada, Quando ainda não tinha idade... Era bela e tenra a idade para me saber salvar. A criança que fui, se é que a fui, Jaz numa campa, jaz lá deitada. Tornou-se um símbolo de pureza, Da minha inocência arruinada. Mal fechou os olhos, soltou-se o último suspiro, Abriu-se a Terra e ouviu-se em grito: "És só mais uma pessoa estragada! Bem-vinda ao mundo real, Aí em cima, estar partida é requisito. Desce cá abaixo, atira-te sem medos, tenho muito para te ensinar! Aqui somos todos filhos do Diabo, Dançamos com ele lado a lado, Aniquilamos o que em nós já estava manchado, Destruímos a ferro e fogo o ódio e o pecado, Renascemos livres e prontos para amar. Anda recuperar a pureza que te tentaram matar!" Bichos do solo que devoravam O meu corpo gélido e petrificado. Via-os passar por cima do meu olhar desesperado, Comiam o que restava do meu coração. Quase, quase adormecido... Quase, quase devorado... Quase, quase esquecido.... É bom relembrar-me que estou só de passagem, Enquanto me entrego ao sonho e a esta última miragem Da violência, da ganância, da frieza, da ignorância, Que só os vivos desta Terra conseguem revelar. Acharam eles que me iam quebrar! Belo truque de ilusionismo! Foi o que me tentaram ensinar. Levei metade da vida para me desapegar De todos os maus ensinamentos que me tentaram pregar. Mas não sou Cristo para me pregarem, Prefiro crucificar-me já. Nem sou Houdini para me escapar, Prefiro o prazer que ficar me dá. A minha maneira é mais barbária, Abri caminho à machadada, Incendiei a cruz e a aldeia inteira, Rebentei com o caixão onde estava enfiada. Fui à busca da liberdade, para longe. Bem longe, onde não me pudessem encontrar. Não encontrei a liberdade, essa já a tinha, já era minha. Mas reencontrei a inocência que há tanto queria recuperar. Chamem-me bruxa moderna! Mulher sensitiva, sonhadora, intuitiva, Que vê além do que os sentidos mostram, Que sente além da fronteira que nos separa do invisível. Neta, bisneta, trisneta, tetraneta, De mulheres poderosas e ancestrais. Das chamadas "bruxas originais" Que os cobardes não conseguiram queimar. E bem que as tentaram erradicar! Mas a magia sobrevive à História! Poder senti-la hoje, poder perpetua-la, Essa será sempre a nossa vitória, pertence a todas as mulheres. Que venham agora tentar apanhar-me! Solto-lhes as chamas do Inferno, Onde os deuses me escolheram forjar. Ai, a crueldade que este mundo traz... Só mesmo as pessoas, essa raça sadia que é capaz De destruir o seu semelhante, manipular o seu próprio irmão, Sem um único pingo de compaixão. Pegam na pá, cavam-lhe o precipício, São os primeiros a empurrarem-no ao chão. Reparem bem...Disse "pessoas", Que é bem diferente de "seres-humanos", Essa é a questão. Porque quem sabe ser-humano, sabe bem daquilo que escrevo, Não é indiferente à sua própria condição, Limitada, defeituosa, machucada. Basicamente, não valemos nada! Que alívio, admiti-lo. Loucos são os que vivem na ilusão De serem superiores aos bichos do solo. Os mesmos que vos vão devorar os olhos no caixão. (...) Ó terra fria e suja Com que me taparam... De lágrimas foste regada, De ti surgiu o que ninguém sonhava, Um milagre que veio pela calada. Um girassol! Com pétalas de água salgada Que sai pelo seu caule disparada. És tudo, simultaneamente! És nascente do rio e és fonte avariada. Pura água! onde toda a gente mergulhava, Apesar de não saberem lá nadar. Não paravam para a beber, quanto mais para a apreciar. Talvez tenha sido numa noite de luar, Que conheci uma ave rara... Uma beija-flor colorida, com olhos castanhos de encantar, Formas humanas, magníficas, E uma voz melódica de fazer arrepiar. Talvez tenha sido num dia de sol, Que ela me observara, indecisa sobre a partida ou chegada. Porque é que em mim pousara? Não sei. Não a questionei. Fiquei encantada! Estava tão tranquila Que quase... quase flutuava, como uma pena soprada, Enquanto ela penicava a minha água salgada, Banhava-se na minha corrente agitada, Sentia os mil sabores enquanto a devorava, Absorvia-me no seu corpo sem medo de nada. Não havia presente, passado ou futuro! Só havia eu, ela e as semelhanças que nos representam, Os opostos que nos atraem e complementam, O amor que é arrebatador, ingénuo e puro. Nessa noite, nesse dia, descobri que a água amava! Como é que posso dizer isto de uma coisa inanimada? Vejo vivos que já estão mortos, Submersos nos seus próprios esgotos mentais. Vejo coisas que estão vivas, Como a água que nunca pára, Não desiste de beijar a costa por mais que ela a mande para trás. Ela vai! Mas sempre volta. Se o amor não é isso, então que outro nome lhe dás? Podia jurar que ouvi a água a falar... Que sina a minha! Outra que disse que veio para me ensinar. Envolveu-me nos seus braços e disse: "Confia! Sei que é difícil, mas confia, deixa-te levar. A água cria! A água sabe! A água sabe tudo! Já se banharam nestes mesmos oceanos Todas as gerações que habitaram este mundo. É a água que esconde os segredos da humanidade, Os seus mistérios mais profundos. É a água que acalma, é a água que jorra, é a água que afoga, Dá-te vida ao corpo, mas também a cobra." Não era a água...estava enganada. Era a minha ave rara quem me falara, Quem me sussurrava ao ouvido, Com um tom de voz quase imperceptível mas fluído. Que animal destemido! Decidiu partilhar um pouco de si comigo, Decidiu mostrar-me que pode existir no outro um porto de abrigo. Teceu-me asas para que pudesse voar! E disse "Vai! Voa! Sê livre!", Mas depois de a encontrar, não havia outro sítio no mundo onde eu preferisse estar. Ensinou-me a mergulhar, a não resistir à corrente, A suster a respiração, controlar o batimento do coração, Desbravar o fundo do mar, sem ter de lá ficar. Verdade seja dita! Devo ter aprendido bem. Verdade seja dita! Sempre à tona regressei. Bem que me tentaram afogar! Eu mesma tentei. Mas verdade seja dita! Sou teimosa, orgulhosa. Se tiver de morrer, assim será! Mas serei eu! Eu e só eu, que irei escolher quando me matar. Pode parecer sombrio, dito da forma fria que o digo. Mas verdade seja dita! Sinto um quente cá dentro, Quando penso na liberdade de poder escolher A altura certa que quero viver Ou a altura certa que quero morrer. (...) Com as asas que me ofereceu, Dedico-me à escrita, para que a verdade seja dita. Da analogia, à hipérbole, à metáfora, à antítese. Sou uma contradição maldita! Sou um belo paradoxo emocional! Prefiro voar só, a não ser quando bem acompanhada. Porque neste longa jornada, A que gosto de chamar de "vida" ou "fachada", Há quem me ajude a caminhar. Pela dura estrada, às vezes voo de asa dada. Celebro com a minha ave rara a pureza reconquistada! Permitimos que as nossas raízes escolham o lugar Por onde se querem espalhar. Seja na Terra, no Céu, no Mar. Somos livres para escolher! Onde, quando e como desejamos assentar. (...) Dizem que em Terra de Cegos, Quem tem olho é Rei. Digo-lhes que tinha os dois bem abertos! Quando ao trono renunciei. Não quero a Coroa, não ambiciono o bastão, Não quero dinheiro para esbanjar, Não quero um povo para controlar. Quero manter o coração aberto! E que seja ele a liderar! Deixo o trono para quem o queira ocupar. Para quem venha com boas intenções, Que saiba que há o respeito de todo um povo a reconquistar. Quem não tenha medo de percorrer todas as ruas da cidade, Da aldeia, do bairro... desde a riqueza à precaridade. Para quem trate com equidade todo o seu semelhante, Seja rico ou pobre, novo ou velho, gordo ou magro, inteligente ou ignorante. Vamos mostrar que é possível o respeito pela diversidade! Governemos juntos! Lado a lado! (...) O reflexo na água é conturbado... Salto entre assuntos, sem terminar os que tinha começado. Nunca gostei muito de regras e normas, sejam líricas, sociais ou gramaticais. No entanto, quanto mais tempo me tenho observado, Mais vejo que há um infinito em mim espelhado. Sou eterna! Efémera... Só estou de visita! E, depois desta vida, Haverá mais lugares para visitar, outras formas para ser. Só estou de visita! É nisso que escolho acreditar. Vim para experienciar! Nascer, andar, correr, Cair, levantar, aprender, amar, sofrer, Repetir, renascer... Ah! E, gostava de, pelo menos, uma grande pegada deixar. Uma pegada bem funda, na alma de um outro alguém, Como se tivesse sido feita em cimento que estava a secar. Uma pegada que ninguém conseguirá apagar. E, se neste mundo eu não me enquadrar? Não faz mal! É porque vim para um novo mundo criar. Para ser a mudança que ainda não existe, Para ter o prazer de vos contrariar. Sou feita de amor, raiva, luz, escuridão, magia, Intensidade que vibra e contagia. Giro, giro e giro-ao-sol, enquanto o sol girar. Mesmo quando ele desaparece, para que a nossa lua possa brilhar. Quem, afinal, diria? Que o amor que me tentaram assassinar, Cresceu tão forte em agonia Que tornou-se tóxico, só para os conseguir contaminar. E inundar, e transbordar, quem sabe, para os mudar. Como que por rebeldia, estou habituada a ser a que contraria. Prefiro fazer tudo ao contrário! Em vez de me deixar ser dominada, prefiro ser eu a dominar. Mais depressa me mantenho fiel à alma que me guia, Do que a qualquer pessoa que me venha tentar limitar. Nunca fui boa a ser o que o outro queria. Nunca foi boa a reduzir-me, para me certificar que no outro haveria um espaço onde eu caberia. Uma mente que foi expandida Jamais voltará a ser comprimida! Nunca mais será enclausurada! Num espaço fechado                                                                                   pré-programado                                                                                   condicionado Cheio de pessoas com o espírito acorrentado, Que se recusam a libertar das suas próprias amarras, Quebrar antigos padrões, olhar para fora da caverna, Em direção ao mundo que continua por ser explorado. "Então é aqui a Terra? O tal Inferno que me tinham falado!" Sejam livres de prisões! Revoltem-se, unam-se, libertem-se! A vocês e aos vossos irmãos! Vão ao passo do mais lento! Certifiquem-se que ninguém fica para trás! Sejam fortes e valentes! Mostrem que, com todos juntos, A mudança será revolucionária e eficaz! Apoiem-se uns aos outros! Não confiem no Estado! Dêem a mão uns aos outros, sejam o apoio que vos tem faltado! (...) Carrego a luz que dei à vida e, reclamo-a para mim. Não me importo de a partilhar, Faço-o de boa vontade! Este mundo precisa de menos pessoas e mais humanidade. Esta humildade, esta forte fragilidade, Brotou das mortes que sofri, de todos os horrores que já vi. Brotou força, de todas as lutas que sobrevivi. Brotou sabedoria, de todos os erros que cometi, De todos aqueles que corrigi, e dos que ainda não me apercebi. Criei-me do nada. Resisti! Como uma fénix sagrada e abençoada, Moldei-me sem fim, nem começo... Queimei o passado, sem o ter apagado. Ensinei-me a manter os olhos para a frente. Permiti-me à libertação! De enterrar o que me tentou destruir anteriormente. Moro no topo da montanha. Amarela, azul, verde e castanha. A tal montanha que só por mim é avistada, No novo mundo que criei para a minha alma cansada. Moro no topo de céu. Numa casa feita de girassóis sem fim, nem começo... Que plantei para oferecer à minha ave rara, Ao meu beija-flor colorido. O meu beija-flor preferido! Que me veio ensinar que o amor existe. Afinal ele existe! E é bruto. Intoxicante. Recíproco. Mas nem sempre é bonito. Seja como for, aceito o seu amor! Este dedico-te a ti, minha beija-flor encantada. Tu! Que me vieste manter viva e apaixonada. Porque quando estás presente, A Terra não é fria, nem enclausura. Ao pé de ti, posso ser suja! Acendes a chama e fico quente! Porque quando estás presente, Iluminas-me a cabeça, o corpo, a alma e a mente. Porque quando estás presente, Sinto que giro-ao-sol e ele gira cá. E, se existe frio, não é da Terra. É o frio na barriga! Por sentir tanto amor! é isso que me dá.
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É aqui que me encontras, novamente, Entre o sonho e a parede. Só quem sonha E depois tenta Transpô-lo para a vida, Sabe o que é abrir um portal, Assistir de fora ao seu próprio funeral, Ter uma eterna ferida Que de tão brutal Não cicatriza. Olhar no seu interior E não ver tinta. Entrar no núcleo da personalidade, Sentir cada átomo que brilha, Ser a sua própria armadilha, Estar em paz com a própria ambiguidade. Respira... Inspira, expira... E não sai ar. O que sai são apenas mais sonhos Que nunca cheguei a concretizar. Mas o sonho, tal como o sono, Esse ninguém me tira! Mentira! Há sempre alguém que me vem roubar. Seja o sono ou a alegria. Vêm pela noite e conseguem torná-la mais fria, Raramente vêm para me aconchegar. Eterna sonhadora, Sempre com o amor na mira. Mas, no final das contas, É o desamor que mais me inspira. Sem ele não havia dor ou desespero. Se tudo fosse feliz e concretizado, Os meus versos não tinham o mesmo significado. Não haviam motivos para lutar pelo que quero. Dou graças por seguir o caminho errado! O Cupido que me foi designado Deve ter a mira estragada. Perdoem-me o termo, só faz cagada. Não treinou a pontaria, Volta e meia, lá acerta onde não deveria. Talvez seja um Cupido cego, bêbado, drogado. Puxa do cigarro com ele apagado, Olha-me nos olhos, desapontado, Enquanto retira do seu saco Um velho arco sem fio, Um monte de flechas quebradas... Mostra-me as asas cortadas... Questiono-me "Será que as perdeu na aterragem? Ou também o roubaram durante a sua breve passagem?" Pobre coitado! Não sou exemplo para o julgar, Também eu sei o que é sentir-me um falhado. Puxar do fumo, incansavelmente, Para tentar matar um mal Que já está demasiado entranhado. Só quem sonha E depois tenta Transpô-lo para a vida, Sabe o que é precisar de um colo confortável, Umas mãos carinhosas, Um sorriso amável, Um abraço apertado, Poesia para amparar Quando tudo o resto parece ser retirado. Quando o tapete é puxado E o chão para ter-se alagado, Criando um buraco sem fim Que suga tudo o que tenho para dar. A Terra que me engole, Enche-me os pulmões de sujidade Até os estragar. E sufoca, é verdade... Mas confesso! É na adversidade Que, surpreendentemente, aprendo a prosperar. "Depois da tempestade vem a bonança!" Relembro-me, tentando manter a esperança. E nada mais importa, Nem me quero mais importar. É a morte em vida, Repito, uma eterna ferida... Um sonhador sem amor É como uma fotografia sem cor, Como um Sol que não emite calor. Inútil. É a morte em vida, Sem amor não sei sonhar. E sem o sonho, Estou entre a espada e a parede, Com a distância que nos separa a encurtar. A espada, quem a segura sou eu, Sedenta que ela entre, Que me perfure sem piedade, Só por curiosidade De ver o que vai jorrar do meu centro. Aperto a lâmina entre os dedos, Observo o sangue a escorrer... Sinto um certo tipo de prazer Sadio, talvez doentio. Penso para mim mesma "Enquanto sangrar estou viva...". Aponto-a a este amaldiçoado coração, Faço pressão, Finalmente respiro e, digo "Mas que belo é morrer! Fechar os olhos e nunca mais sofrer." Já escrevia num outro poema, "A morte não dói a ninguém, O que dói é ter de cá ficar". A cigana que me leu a sina, Essa sempre teve razão! Sentiu logo na sua visão Que ser racional não me assiste, Que sou feita de pura emoção. Autora de sensações Intensas, vibrantes, sinceras, imensas. Que não sou feita de pele e osso, Que tudo em mim é coração. Que sem amor não há sonhos, Não há motivos. Para uma pessoa que nasceu amante, Amar é a sua única missão. E se não houver ninguém para amar? Então, baterá lento o coração, E irá bater cada vez mais lento, Até se esvair de mim a pulsação. Fará a sua própria revolução! Estarei lá para a presenciar! Para poder gritar "Acabou! Acabou!". Que anjo foi este que veio no meu ombro aterrar? Foi Deus ou o Diabo que o mandou? Alguém o pode vir cá abaixo buscar? Como é que um anjo me pode partir assim? Talvez seja simples, Talvez ela tenha razão... "O arquiteto deste mundo não o desenhou para mim". Enfim, gastei mais uma vida em vão. Já morri e renasci, Mais vezes do que as consigo contar. É a morte em vida... Já sou profissional de recomeços! Mas nem sempre tenho forças, Ou vontade, para querer recomeçar.
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Mar 14, 2022
Mar 14, 2022 at 1:12 PM UTC
Entre o sonho e a parede
É aqui que me encontras, novamente, Entre o sonho e a parede. Só quem sonha E depois tenta Transpô-lo para a vida, Sabe o que é abrir um portal, Assistir de fora ao seu próprio funeral, Ter uma eterna ferida Que de tão brutal Não cicatriza. Olhar no seu interior E não ver tinta. Entrar no núcleo da personalidade, Sentir cada átomo que brilha, Ser a sua própria armadilha, Estar em paz com a própria ambiguidade. Respira... Inspira, expira... E não sai ar. O que sai são apenas mais sonhos Que nunca cheguei a concretizar. Mas o sonho, tal como o sono, Esse ninguém me tira! Mentira! Há sempre alguém que me vem roubar. Seja o sono ou a alegria. Vêm pela noite e conseguem torná-la mais fria, Raramente vêm para me aconchegar. Eterna sonhadora, Sempre com o amor na mira. Mas, no final das contas, É o desamor que mais me inspira. Sem ele não havia dor ou desespero. Se tudo fosse feliz e concretizado, Os meus versos não tinham o mesmo significado. Não haviam motivos para lutar pelo que quero. Dou graças por seguir o caminho errado! O Cupido que me foi designado Deve ter a mira estragada. Perdoem-me o termo, só faz cagada. Não treinou a pontaria, Volta e meia, lá acerta onde não deveria. Talvez seja um Cupido cego, bêbado, drogado. Puxa do cigarro com ele apagado, Olha-me nos olhos, desapontado, Enquanto retira do seu saco Um velho arco sem fio, Um monte de flechas quebradas... Mostra-me as asas cortadas... Questiono-me "Será que as perdeu na aterragem? Ou também o roubaram durante a sua breve passagem?" Pobre coitado! Não sou exemplo para o julgar, Também eu sei o que é sentir-me um falhado. Puxar do fumo, incansavelmente, Para tentar matar um mal Que já está demasiado entranhado. Só quem sonha E depois tenta Transpô-lo para a vida, Sabe o que é precisar de um colo confortável, Umas mãos carinhosas, Um sorriso amável, Um abraço apertado, Poesia para amparar Quando tudo o resto parece ser retirado. Quando o tapete é puxado E o chão para ter-se alagado, Criando um buraco sem fim Que suga tudo o que tenho para dar. A Terra que me engole, Enche-me os pulmões de sujidade Até os estragar. E sufoca, é verdade... Mas confesso! É na adversidade Que, surpreendentemente, aprendo a prosperar. "Depois da tempestade vem a bonança!" Relembro-me, tentando manter a esperança. E nada mais importa, Nem me quero mais importar. É a morte em vida, Repito, uma eterna ferida... Um sonhador sem amor É como uma fotografia sem cor, Como um Sol que não emite calor. Inútil. É a morte em vida, Sem amor não sei sonhar. E sem o sonho, Estou entre a espada e a parede, Com a distância que nos separa a encurtar. A espada, quem a segura sou eu, Sedenta que ela entre, Que me perfure sem piedade, Só por curiosidade De ver o que vai jorrar do meu centro. Aperto a lâmina entre os dedos, Observo o sangue a escorrer... Sinto um certo tipo de prazer Sadio, talvez doentio. Penso para mim mesma "Enquanto sangrar estou viva...". Aponto-a a este amaldiçoado coração, Faço pressão, Finalmente respiro e, digo "Mas que belo é morrer! Fechar os olhos e nunca mais sofrer." Já escrevia num outro poema, "A morte não dói a ninguém, O que dói é ter de cá ficar". A cigana que me leu a sina, Essa sempre teve razão! Sentiu logo na sua visão Que ser racional não me assiste, Que sou feita de pura emoção. Autora de sensações Intensas, vibrantes, sinceras, imensas. Que não sou feita de pele e osso, Que tudo em mim é coração. Que sem amor não há sonhos, Não há motivos. Para uma pessoa que nasceu amante, Amar é a sua única missão. E se não houver ninguém para amar? Então, baterá lento o coração, E irá bater cada vez mais lento, Até se esvair de mim a pulsação. Fará a sua própria revolução! Estarei lá para a presenciar! Para poder gritar "Acabou! Acabou!". Que anjo foi este que veio no meu ombro aterrar? Foi Deus ou o Diabo que o mandou? Alguém o pode vir cá abaixo buscar? Como é que um anjo me pode partir assim? Talvez seja simples, Talvez ela tenha razão... "O arquiteto deste mundo não o desenhou para mim". Enfim, gastei mais uma vida em vão. Já morri e renasci, Mais vezes do que as consigo contar. É a morte em vida... Já sou profissional de recomeços! Mas nem sempre tenho forças, Ou vontade, para querer recomeçar.
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