Perguntai às uvas do Douro se conhecem o seu destino final.
E o vale permaneceu em silêncio.
Porque há silêncios que são mais antigos do que os impérios
e mais profundos do que as águas do rio.
Desde o princípio, o Douro foi escrito em pedra.
Não por reis, nem por mercados,
mas pela mão invisível do tempo,
quando o homem e a terra ainda falavam a mesma língua.
E Deus colocou a videira sobre o xisto
como quem entrega um mistério à humanidade.
Disse ao homem:
— Cultivarás a encosta com suor e paciência.
E da tua fadiga nascerá um vinho
que guardará a memória do mundo.
Então vieram gerações de homens queimados pelo sol,
profetas anónimos das montanhas,
que abriram socalcos como Moisés abriu o mar,
rasgando a pedra para libertar a vida escondida dentro dela.
E as uvas cresceram.
Pequenos planetas suspensos da videira,
carregando dentro de si o sangue da terra
e o fogo secreto do universo.
Mas hoje, no grande templo do comércio moderno,
há quem olhe para o Douro sem reverência.
Transformaram o sagrado em estatística,
a vinha em ativo financeiro,
e o agricultor num servo invisível do luxo alheio.
Falam de mercados como antigos sacerdotes falavam de deuses,
mas esqueceram-se da primeira verdade:
sem homem, não existe vinha;
sem alma, não existe vinho.
Perguntai então às uvas do Douro
se conhecem o seu destino final.
Talvez respondam:
— Não nascemos apenas para morrer numa garrafa cristalina,
nem para alimentar banquetes de gente distante da terra.
Nascemos para recordar ao homem aquilo que ele esqueceu.
Que toda a criação é sagrada.
Que a terra não pertence ao mercado.
Que o vinho verdadeiro é uma aliança entre o céu e o sofrimento humano.
Porque cada bago esmagado contém uma paixão.
Cada cepa velha é uma escritura viva.
Cada vindima é um evangelho repetido desde o princípio dos tempos.
E o Douro…
o Douro não é apenas uma região.
É um livro bíblico escrito em socalcos.
Um altar de xisto erguido entre montanhas.
Um reino antigo onde o rio corre como uma serpente de luz,
transportando a memória dos homens para a eternidade.
E talvez venha o dia do julgamento das civilizações,
quando os povos serão perguntados não pelo ouro que acumularam,
mas pela terra que destruíram
e pelas raízes que abandonaram.
Nesse dia, as vinhas do Douro falarão.
E delas levantar-se-á a voz dos esquecidos,
dos trabalhadores da encosta,
dos velhos vinhateiros,
dos homens que transformaram pedra em vida.
Então compreenderão finalmente
que o destino final das uvas nunca foi o luxo.
Era a transcendência.
Com muita estima e consideração
Victor Marques
Douro
Portugal