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Pergunta s uvas do Douro

by @victor-marques

Perguntai às uvas do Douro se conhecem o seu destino final. E o vale permaneceu em silêncio. Porque há silêncios que são mais antigos do que os impérios e mais profundos do que as águas do rio. Desde o princípio, o Douro foi escrito em pedra. Não por reis, nem por mercados, mas pela mão invisível do tempo, quando o homem e a terra ainda falavam a mesma língua. E Deus colocou a videira sobre o xisto como quem entrega um mistério à humanidade. Disse ao homem: — Cultivarás a encosta com suor e paciência. E da tua fadiga nascerá um vinho que guardará a memória do mundo. Então vieram gerações de homens queimados pelo sol, profetas anónimos das montanhas, que abriram socalcos como Moisés abriu o mar, rasgando a pedra para libertar a vida escondida dentro dela. E as uvas cresceram. Pequenos planetas suspensos da videira, carregando dentro de si o sangue da terra e o fogo secreto do universo. Mas hoje, no grande templo do comércio moderno, há quem olhe para o Douro sem reverência. Transformaram o sagrado em estatística, a vinha em ativo financeiro, e o agricultor num servo invisível do luxo alheio. Falam de mercados como antigos sacerdotes falavam de deuses, mas esqueceram-se da primeira verdade: sem homem, não existe vinha; sem alma, não existe vinho. Perguntai então às uvas do Douro se conhecem o seu destino final. Talvez respondam: — Não nascemos apenas para morrer numa garrafa cristalina, nem para alimentar banquetes de gente distante da terra. Nascemos para recordar ao homem aquilo que ele esqueceu. Que toda a criação é sagrada. Que a terra não pertence ao mercado. Que o vinho verdadeiro é uma aliança entre o céu e o sofrimento humano. Porque cada bago esmagado contém uma paixão. Cada cepa velha é uma escritura viva. Cada vindima é um evangelho repetido desde o princípio dos tempos. E o Douro… o Douro não é apenas uma região. É um livro bíblico escrito em socalcos. Um altar de xisto erguido entre montanhas. Um reino antigo onde o rio corre como uma serpente de luz, transportando a memória dos homens para a eternidade. E talvez venha o dia do julgamento das civilizações, quando os povos serão perguntados não pelo ouro que acumularam, mas pela terra que destruíram e pelas raízes que abandonaram. Nesse dia, as vinhas do Douro falarão. E delas levantar-se-á a voz dos esquecidos, dos trabalhadores da encosta, dos velhos vinhateiros, dos homens que transformaram pedra em vida. Então compreenderão finalmente que o destino final das uvas nunca foi o luxo. Era a transcendência. Com muita estima e consideração Victor Marques Douro Portugal
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victor-marques
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victor-marques
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Published
May 10
Time
4m
Tags
#uvas#douro#portugal
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