Hello Poetry
Submit your work and get some sparkles! Create free account
O Alquimista do Xisto e da Areia Nas veias de António não corria apenas sangue, fluía o mosto denso de uma era imortal; seiva de encosta, talhada em xisto e gangue, fermento de tempo, rigor e mineral. Corpo erguido em patamar contra o inverno, muro vivo entre o caos e a criação, mãos que liam o gomo preciso, interno decifrando o pulso de cada estação. Não lavrava a terra: ele interpretava-a. Na poda, havia a ciência da intuição. Conduzia a vide nunca a dominava afinando o ciclo com rara devoção. Mas antes da adega, houve o fogo e a distância, a Guiné ardida no sopro do além, onde o homem se prova, na dor e na instância, entre o medo, o silêncio e o desdém. E em São Domingos, na areia suspensa, o destino deixou a sua inscrição: Victor palavra viva, presença imensa, gravada no tempo, muito além da razão. Não era acaso era a linha traçada, herança latente antes de nascer, um nome que vinha da terra chamada a fazer o vinho e o filho crescer. Trouxe da guerra o peso do ferro, mas transmutou-o em húmus e raiz. Na vinha curou o cansaço do erro, na cepa velha achou o que sempre quis. O coração vasto, de tanto dar foi cuba de afetos em lenta extração, onde o tempo aprendeu a decantar a mágoa em legado, o esforço em canção. Em dois mil e dois, quando o motor se calou, não houve finitude houve metamorfose: em cada vindima que o Douro gerou, permanece vivo, em sagrada simbiose. Hoje, o Douro é o seu corpo expandido, cada bago é memória em concentração, cada vinho é um gesto por ti repetido, quem planta raízes não muda de chão. Pai, não foste apenas um homem da terra: foste estrutura, acidez e alma inteira. A tensão perfeita que o lote encerra, o equilíbrio raro que define a videira. E eu, teu filho, sigo o sulco profundo: não faço vinho perpetuo um nome. No silêncio da adega, escuto o mundo… e é a tua voz que ainda o consome. António Alexandre saudade e verdade teu nome não morre: fermenta na eternidade. Victor Marques
0
Mar 19
Mar 19, 2026 at 10:45 AM UTC
O Alquimista do Xisto e da Areia
O Alquimista do Xisto e da Areia Nas veias de António não corria apenas sangue, fluía o mosto denso de uma era imortal; seiva de encosta, talhada em xisto e gangue, fermento de tempo, rigor e mineral. Corpo erguido em patamar contra o inverno, muro vivo entre o caos e a criação, mãos que liam o gomo preciso, interno decifrando o pulso de cada estação. Não lavrava a terra: ele interpretava-a. Na poda, havia a ciência da intuição. Conduzia a vide nunca a dominava afinando o ciclo com rara devoção. Mas antes da adega, houve o fogo e a distância, a Guiné ardida no sopro do além, onde o homem se prova, na dor e na instância, entre o medo, o silêncio e o desdém. E em São Domingos, na areia suspensa, o destino deixou a sua inscrição: Victor palavra viva, presença imensa, gravada no tempo, muito além da razão. Não era acaso era a linha traçada, herança latente antes de nascer, um nome que vinha da terra chamada a fazer o vinho e o filho crescer. Trouxe da guerra o peso do ferro, mas transmutou-o em húmus e raiz. Na vinha curou o cansaço do erro, na cepa velha achou o que sempre quis. O coração vasto, de tanto dar foi cuba de afetos em lenta extração, onde o tempo aprendeu a decantar a mágoa em legado, o esforço em canção. Em dois mil e dois, quando o motor se calou, não houve finitude houve metamorfose: em cada vindima que o Douro gerou, permanece vivo, em sagrada simbiose. Hoje, o Douro é o seu corpo expandido, cada bago é memória em concentração, cada vinho é um gesto por ti repetido, quem planta raízes não muda de chão. Pai, não foste apenas um homem da terra: foste estrutura, acidez e alma inteira. A tensão perfeita que o lote encerra, o equilíbrio raro que define a videira. E eu, teu filho, sigo o sulco profundo: não faço vinho perpetuo um nome. No silêncio da adega, escuto o mundo… e é a tua voz que ainda o consome. António Alexandre saudade e verdade teu nome não morre: fermenta na eternidade. Victor Marques
Pai memória vinho
victor-marques
Written by
Portuguese
Mar 19
Mar 19, 2026 at 10:45 AM UTC
Request permission to use this poem