#memria
Sentado estava eu esperando um beijo,
Fruto do acaso ou desejo.
Ao mesmo tempo perdemos tudo,
Ficando cego e mudo....
Vento que fustigas rostos dos meninos
Canções tocadas com velhos violinos.
Humanos vivendo num mundo por vezes sublime
Memória que te acorda e define.
Água cristalinas que todos podem ver,
Salgueiros verdes que bebem sem querer.
A natureza não pode padecer ,
Água do ribeiro eu vou sempre beber...
Num turbilhão de emoções eu vivo ,
Parece que vivo num mundo sem sentido.
O mundo temporal guardado, parado, desconhecido...
Meu Deus infinito eu sigo.
Parece que os sentimentos são ramos,
Desfeitos com o passar dos anos.
Com estrelas cintilantes tenha eu sempre contemplado,
Entranhado no universo desconhecido.
Passei em calçadas com socos de pau duro
Tinha medo da noite e do escuro.
Peço ao mundo para me deixar ser ser,
Amando a madrugada ao amanhecer...
Dec 12, 2024
Dec 12, 2024 at 10:17 AM UTC
O Verbo e o Xisto: O Ritual da Montanha
No Douro imortal, onde o tempo se ajoelha,
Consagro o verbo e destino.
O horizonte é um cálice de brasa vermelha
No rasto de sombras: do ancião ao menino.
Meu pai vulto de sol, liturgia de memória
E os que antes, no xisto, desvendaram caminho,
Escreveram no osso da terra a nossa história
Com mãos de orvalho, de silêncio e de vinho.
Escuto o eco primordial da encosta erguida,
Onde o socalco é degrau para o trono do céu,
E a vinha, em transe, transfigura a vida
Sob mantos de lua que a noite nos deu.
A verdade é um oráculo: não foge, não vende ,
Reside no nervo que a rocha castiga.
Quem nasce do xisto, a alquimia compreende:
A honra do vinho é uma luta santa e antiga.
Firmeza no verbo contra a corrente vã.
Verdade no xisto que o tempo não profana.
Pelo Douro oculto, pela alma que emana,
Ergue-se a herança divina e soberana.
Victor Marques
Douro
Apr 14
Apr 14, 2026 at 2:14 AM UTC
O Alquimista do Xisto e da Areia
Nas veias de António não corria apenas sangue,
fluía o mosto denso de uma era imortal;
seiva de encosta, talhada em xisto e gangue,
fermento de tempo, rigor e mineral.
Corpo erguido em patamar contra o inverno,
muro vivo entre o caos e a criação,
mãos que liam o gomo preciso, interno
decifrando o pulso de cada estação.
Não lavrava a terra: ele interpretava-a.
Na poda, havia a ciência da intuição.
Conduzia a vide nunca a dominava
afinando o ciclo com rara devoção.
Mas antes da adega, houve o fogo e a distância,
a Guiné ardida no sopro do além,
onde o homem se prova, na dor e na instância,
entre o medo, o silêncio e o desdém.
E em São Domingos, na areia suspensa,
o destino deixou a sua inscrição:
Victor palavra viva, presença imensa,
gravada no tempo, muito além da razão.
Não era acaso era a linha traçada,
herança latente antes de nascer,
um nome que vinha da terra chamada
a fazer o vinho e o filho crescer.
Trouxe da guerra o peso do ferro,
mas transmutou-o em húmus e raiz.
Na vinha curou o cansaço do erro,
na cepa velha achou o que sempre quis.
O coração vasto, de tanto dar
foi cuba de afetos em lenta extração,
onde o tempo aprendeu a decantar
a mágoa em legado, o esforço em canção.
Em dois mil e dois, quando o motor se calou,
não houve finitude houve metamorfose:
em cada vindima que o Douro gerou,
permanece vivo, em sagrada simbiose.
Hoje, o Douro é o seu corpo expandido,
cada bago é memória em concentração,
cada vinho é um gesto por ti repetido,
quem planta raízes não muda de chão.
Pai, não foste apenas um homem da terra:
foste estrutura, acidez e alma inteira.
A tensão perfeita que o lote encerra,
o equilíbrio raro que define a videira.
E eu, teu filho, sigo o sulco profundo:
não faço vinho perpetuo um nome.
No silêncio da adega, escuto o mundo…
e é a tua voz que ainda o consome.
António Alexandre saudade e verdade
teu nome não morre: fermenta na eternidade.
Victor Marques
Mar 19
Mar 19, 2026 at 10:45 AM UTC