temia o que procede agora
o gosto pegajoso da derrota sob as voltas da língua
e quanto mais tentar cuspir saliva
mais ruim se torna, e
mais grosso fica o ar
- não
alguém disse atrás quando falava que ia tentar de novo
fiz igual e incrédula sabia rápido demais que era certo
eu errei
mais uma vez
de que adianta tentar não falar de si
mesmo quando a terceira pessoa é o eu
tu, nós
sou
descobri semana passada que
a palavra cansada se separada da maneira certa fica
a
sad
can
uma lata triste.
Feb 14, 2022
Feb 14, 2022 at 5:13 PM UTC
ando sentada sozinha agora e racionalizando as emoções
tentando organizar como faço com a parte sólida da vida ao redor
e teimosa do jeito que sou não assumo a verdade doentia do controle total de se estar dominante na operação
então pra fluir tem que ser como?
oras, livre, é óbvio
sentimentos e emoções não tem coleira
não são domesticáveis e só vem quando querem
pra sentir pura e vividamente ou pra falar a respeito, usar o termo na sua mais pura integridade artística, moral ou seja lá qual for
é preciso deixar correr livre
como pensar que o peito é um campo ou um matagal alto ou uma praia extensa e existe uma coisa que tem corpo pra pernar à toa
sem julgar e sem medir
e é assim que se usa essa coisa do sentir
que é se deixar levar quando tirar a peça que do raciocinio
não tem lógica
é tudo emvãova~voa~voa~voa~voavõavãoa~voa~vão
Jun 17, 2021
Jun 17, 2021 at 9:16 AM UTC
lembro que um dia acordei e de repente gostava de coisa antiga
e eu:
usava os anéis da minha mãe que eram da minha avó
gostava mais de usar batom com cheiro de velho
tinha apreço por histórias passadas de amor recatado
adorava o fusca do vô.
e passou um tempo, me esqueci desse meu gosto indo de cabeça na juventude adolescente incorporando meu olhar a moda daquele tempo.
até que o tempo passou e mais uma vez me apaixonei pela velhice; usava vestidos floridos e bem cortados, assistia filmes antigos e suspirava viver numa época em que vanguardas nasciam e a arte, política e comportamentos revolucionários construiam caminhos que hoje apenas nos inspiramos.
por um tempo quis fingir que o digital não existia pintando em telas, escrevendo em papéis, datilografando e fotografando em rolo; tudo pra construir uma cegueira sobre as atualizações constantes ao redor.
é engraçado ver o tempo passar e imaginar minhas tentativas de cópia do passado que nunca vivi e tanto desejei. esquecendo que o agora é onde devo estar e que aquele tal passado fabuloso era difícil e mais solitário, árduo e penoso.
o ontem já é passado e uma hora atrás também, é só olhar no relógio do celular.
Jul 30, 2019
Jul 30, 2019 at 7:54 PM UTC
há esse instrumento lindo que é o baixo
e que pouca gente se importa
digo verdadeiramente.
àqueles que de fato conseguem ouvir as cordas do baixo na composição são verdadeiros profissionais dos sentidos, percebedores das delicadas provocações que enquanto seres criadores pudemos trazer no mundo.
um instrumento tão sutil que não costuma ter seus solos, mas que sem ele faz falta a ausência.
só que quando põe-se a mostra e é satisfatoriamente dado seu devido valor e a caixa se abre. e se abre e se abre e ecoa seu grave maduro e tremitante, como se quase pudesse pronunciar palavras com batata na boca.
as cordas grossas e o cabo comprido quando tocados pelas mãos e em sincronia simulam um desejo ardente pelo nirvana.
Jul 30, 2019
Jul 30, 2019 at 6:11 PM UTC
aqui dentro cabem toneladas de palavras
que poderiam sair pra fora a qualquer momento
também a raiva é um problema grande demais e sabe de uma coisa?
guardo-a em potinhos pequenos porque acho que merecem.
risadinhas barulhentas e medições em hábito desnecessárias.
sabe quando vão notar que estava viva?
teve um dia que chorei depois de fazer absolutamente nada.
nada.
e senti um quentinho, um quentinho, um quentinho!
um dia fui mais educada do que deveria e hoje só sou mais quieta por fora.
não por dentro.
Jul 23, 2019
Jul 23, 2019 at 11:16 PM UTC
como é bom quando ser não necessariamente é sair de si pra fora da calçada e das ruas habitadas. e se um dia tu ousa fugir da regra e ser consumida por mulheres capazes de te atingir?
é como se respirar fossem facas atravessadas em pulmões de madeira e a cada contorção uma delas se transforma num pássaro que voa pra bem longe daqui.
tudo que se conhece não é verdadeiramente real, pois tu mesma me dissestes que cada tecla de palavras comentadas são números em uma eterna composição fetal.
ato falho e insincero, tivesses todo tempo do mundo e arcasses apenas com o que te conveio entre folhas de orvalhos e manguezais poluídos pela saliva humana.
já calcei outros pés em tempos tardios e te digo: nunca mais fui a mesma; trouxe somente cinco malas cheias de meias pra cobrir teus pés e de teus queridos amados.
houve um dia em que ouvi de longe alguém sussurrar que te ama e que te abraçaria com facilidade. mediria tuas costas e te colocaria numa camisa branca com listras amarelas.
odiaria te ver chorar pedrinhas de malaquita, mas não te apavores quando um dia isso acontecer. e mais: segure essa caneta e escreva em meus braços coisas que só tu poderia saber - teus desejos não são uma ordem.
não me culpo pela tua falta de existência - eu sei, um dia também te quis aqui comigo, mas só de ouvir o som da tua mentirosa voz já me faz bem.
queria ao menos tocar um dos meus dedos em ti e te fazer realidade.
e se um dia as páginas daquele livro virarem sozinhas, podem ser eu indicando aquela horrenda frase:
"belo dia pra viver tão triste"
Jul 23, 2019
Jul 23, 2019 at 11:10 PM UTC
como quando tigres enfeitam a maçaneta dos ventos
e cobrem o fio de náilon sobre a camada espessa da terra.
logo eu que pairo sobre as montanhas cobertas de neve de açúcar
chego cansada pelos montes de veludo e sopro todo ar que um dia foi de alguém.
escuto os sons que meu pai grita da garganta seca e consumida pela vida falha dos danos em nó.
sigo firme no *** que um dia foi de minha vó que morreu nos braços de deus enquanto vomitava em uma bacia de metal em formato de baço.
eis que um dia pensei: sou feliz e não sabia que era.
um dia quando tudo se cair pela metade na esquerda irei confusa dormir sob os véus dos espíritos que pairam na terra secreta e silenciosamente dominam a mente de pastores homens.
há de um dia ser tudo amor e mais vívido como quando quadros pintam a si mesmos na calada do dia em pleno raio de sol das três e quinze da tarde enquanto tomam café gelado sem leite.
minha mãe um dia travou em pé e encarou a guarda de um poderoso pai e padeci de medo mas superei a realidade que o mundo um dia me trouxe.
quisera eu dominar a xícara de licor sob os pés de caixas simbolizantes e soprar uma lágrima pelos ombros que um dia foram meus e de mais ninguém.
haja fé suficiente na vida dos que ainda não foram e procuram por paz no meio do caminho tortuoso de outra dimensão.
um dia uma nuvem vai cair do céu e parar sentada no meu colo; e quando a tesoura que usarei pra corta-la sair da gaveta, gritarei quatro vezes: esse mundo não é teu.
Jul 23, 2019
Jul 23, 2019 at 11:02 PM UTC
quanto a explicar emoções se começa assim:
parecendo um intruso chegando na conversa pela
metade.
toda hora a peça gira nada meticulosa, com seus engenhos
confusos e complexos.
sem dar motivo nem razão
é simples assim.
uma hora pode aparecer tons mais escuros que o *****
do céu.
de repente se mistura ao branco e fica cinza
em seguida vem o amarelo e deixa roxo.
então o rosa converge num tom que dependendo a quantidade
fica mais claro mais vibrante.
e quando garante que a paleta se concluiu
ela desliza das mãos, cai no chão e converge em cores
que não existem.
eis então uma delas: a surpresa da ira.
Jul 23, 2019
Jul 23, 2019 at 10:54 PM UTC
um dia eu descobri que te gostava.
um tempo depois descobri que tu me gostava.
meu gostava era fraco e só esqueci
e segui.
não sei quanto a ti, se o fogo que te habitava
era quente como um fogão aceso no verão
ou
um fósforo que se apaga quando queima a madeira no fim.
te visitei muitas vezes aqui dentro e sempre imaginei como seria
se
te beijasse durante o dia
elogiasse teus dentes de sorrisos geométricos
convidasse prum gole de café
tocasse teu ombro bem devagar com a
ponta dos dedos
encontrasse teus olhos perdidos
te fizesse enxergar que existe coisa além
de solidão
só
fotografei teu corpo seminu
te beijei em noites bebadas
conheci tuas poesias
te segui sem saber
e me deu nó quando soube do teu
coração preenchido
ouço o que ouves agora
e penso em ti com frequência
senti tua falta
e penso que peco porque meu coração também
preencheu
e se só o que fosse pra ser fosse ser só sem ser a gente
Dec 16, 2018
Dec 16, 2018 at 9:36 PM UTC
