"escuras" poems
Há uma réstia de neblina em cada um dos meus pensamentos.
Uma vez mais poesio o nada -
A falta de percepção do meu eu interior -
Numa tentativa, queira Deus que não vã, de entender...
Sinto, sinto tanto!
Sinto a testa arder e o pesar dos olhos.
Sinto.
Sinto o coração apertar e o medo
Corroer-me as veias como ácido.
Sinto.
Sinto...
Mas porquê? O que me impulsiona a sentir?
Dou por mim mergulhada num rio gélido de angústia;
Dou por mim - juntamente com todas as outras versões de mim -
Perdida dentro de mim mesma,
às escuras,
Sem saber como me encontrar.
Sinto. Sinto. Sinto por sentir
E por não saber porque sinto.
Sinto por medo do desconhecido que sou eu mesma
E do que me leva a desconhecer-me.
Sinto por medo de tantas mais coisas que desconheço também.
Sinto medo que todo este medo tome conta de mim.
Por isso escrevo e sou um pouco mais eu
E esqueço um pouco do medo no papel.
Sep 14, 2017
Sep 14, 2017 at 5:14 PM UTC
Bem viver
Bem viver sentimento que eu tenho,
Incorporado no meu ser,
Abandono sem ser abandono,
Dono sem ser dono,
Bafejado com tudo o pudor,
Deus dá vida, dá amor.
Bem viver do meu passado,
Rosa aberta sem pecado,
Rio que te dá de beber,
Suspiro de bem-querer.
Fantasia que preza seres prediletos,
Musgo rodeado de seus fetos.
Inconsciência, dor, vitórias, conquistas,
Corredores em suas pistas.
Bem viver dos líricos subalternos,
Frio outonal sem seus invernos,
Às escuras e a viver porque não?
Pedaços de vida, de viver e solidão.
Victor Marques
Jul 2, 2012
Jul 2, 2012 at 4:29 PM UTC
Seus cabelos, ondas escuras na noite,
Seus olhos, um mistério que não posso desvendar,
Ela caminha entre os vivos e os mortos,
E eu a sigo, perdido em seu encanto sombrio.
Seu toque é o frio da meia-noite,
Sua presença, um tormento doce,
Cada passo que ela dá me arrasta,
Mais fundo em um labirinto de solidão.
Pois ela é a musa de meus pesadelos,
A personificação do desejo que me destrói,
E eu, um tolo, danço na borda do abismo,
Fascinado por sua escuridão eterna.
Aug 31, 2024
Aug 31, 2024 at 11:35 AM UTC
em noites de lua cheia
corro dos desígnios da vida
tentando esconder assim
o animal que há em mim.
regresso às minhas origens
e à procura de virgens
percorro as escuras ruelas
sempre, sempre à procura delas.
procuro nos locais mais sombrios
e espreito nos mais insólitos
para gáudio da minha alegria
é assim até ao romper do dia.
e é já de madrugada
que com a camisa rasgada
se dá o regresso a casa
já com a fome saciada.
e ansiando pela lua cheia
me deito pela calada
nesta busca tresloucada
por uma virgem mal amada.
Jul 17, 2015
Jul 17, 2015 at 5:46 AM UTC
Deixo de herança todos os pensamentos
Perdidos ao luar,
Escritos na página invisível da vida,
Impossíveis de partilhar.
Deixo de herança todas as garrafas,
Que esvaziei e pousei à beira-mar,
Com uma carta escondida lá dentro,
Incógnita ainda por entregar.
Deixo de herança todo o fumo,
Que compulsivamente inalei
Para tentar matar a doença
Da qual nunca me curei.
Deixo as pegadas na areia,
Que rapidamente se apagaram.
Marcas da efémera passagem dos seres
Que por mim passaram.
Deixo de herança o sol de inverno,
Tão apreciado por toda a gente.
Desejo que aqueça as almas frias,
Que não deixe ninguém indiferente.
Deixo de herança o incenso
Que nunca acendi.
Espalhado pela brisa,
Como qualquer cheiro que senti.
Deixo de herança toda a música
E cada marca que deixou.
Atenciosa companheira,
Que tantas vezes me salvou.
Deixo de herança o rio,
No seu mesmo exato lugar.
Lembrança eterna que existe um sítio seguro
Para onde o desespero nos pode levar.
Deixo de herança a pedra afiada,
Que me esculpiram no lugar do coração.
Memória da crueldade no olhar
De quem a infância me roubou.
Deixo ligadas as luzes da aldeia,
Que me abrigaram no solitário berço.
Agarro o impulso que me levou à procura
De tudo o que ainda desconheço.
Deixo de herança em papel amarrotado,
Algum sangue que derramei.
Lágrimas, cicatrizes e o fardo,
De ser tão brutalmente consciente
De tudo aquilo que sei.
Deixo de herança o meu amor,
Sorrisos, abraços e essências,
Partilhadas no pôr-do-sol.
E que nesta viagem de turbulências,
Repares na simplicidade do sentimento
Que achaste saber de cor.
Deixo de herança uma moeda,
Ao pedinte que conheci
E que nunca a chegou a gastar.
Esqueceu-se que para a salvação da vida
Não há dinheiro, nem há fornecedor
Onde ele a possa ir comprar.
Deixo de herança o pássaro branco,
Que ainda não se atreveu a pousar.
Canta mais alto a cada Primavera,
Só para me relembrar,
Que as raízes são uma ilusão
Criadas por quem não as consegue descolar.
Deixo de herança duas mãos quentes,
No peito frágil de uma criança,
Que nasceu órfão de mãe
E cresceu sem esperança.
“Nas noites escuras que te abraçam.
Nos dias cinzentos a que te entregas
Que sintas neste aperto a mensagem
De toda a força que carregas.”
Deixo de herança este poema,
Escrito num sonho que se entranha
E do qual nunca acordei.
Vem…
Traz o mapa que queimei.
E encontra-me para lá da montanha
Onde também eu me encontrei.
Mar 3, 2022
Mar 3, 2022 at 4:09 PM UTC