Nos meus sonhos vejo-te ao longe,
mas não corro logo para ti.
Não chegas inteira:
és contorno, ausência em movimento,
uma promessa que nunca se deixa tocar.
Fico suspensa nesse segundo frágil,
num cruzar de olhares que interrompe o mundo,
como duas sobreviventes
que reconhecem a mesma ruína.
Depois, corro para ti, sim,
com o coração em queda livre,
porque o corpo ainda acredita
no que a razão já enterrou.
Mas quando chego ao lugar onde me esperavas
já não estás.
Só encontro o vazio
ainda quente.
A mentira suave que o sonho deixa
para que a ausência doa mais devagar.
Nos meus sonhos abraçamo-nos.
Não é um gesto bonito,
não há delicadeza.
Há unhas, há tremor,
um pedido mudo de permanência.
É um aperto bruto,
um corpo contra o outro,
como se o mundo estivesse a ruir
e aquele fosse o momento final.
As lágrimas não pedem licença para cair.
Choro contra o teu ombro
porque o meu corpo ainda acredita
em finais que a realidade proibiu.
Choramos porque não sabemos fazer melhor,
porque amar também é falhar repetidamente.
Quando acordo,
o meu corpo continua em posição de perda,
como se ainda te estivesse a segurar.
Nos meus sonhos digo-te que te amo,
com a voz partida,
como quem confessa um crime.
Não é bonito,
não é calmo,
não é maduro.
É um amor que pede desculpa por existir.
Peço perdão pelo tempo em que estive longe,
não porque não soubesse onde estavas,
mas porque não soube ficar.
Sabendo que o perdão não apaga o abandono.
Que o tempo não foi o erro, e sim nós.
Confesso-te que cada dia sem ti
foi uma eternidade sem margens,
uma sucessão de horas mortas,
um exercício de sobrevivência,
e que a única eternidade possível
é a que começa quando estás perto de mim.
Ainda que por pouco tempo,
ainda que só no sonho,
mesmo que não resista à luz.
Nos meus sonhos dizes que sentiste saudades,
como se me admitisses uma fraqueza.
Dizes que respirar se tornou um esforço pesado na minha ausência,
que a vida continuou
mas sem oxigénio suficiente.
Confessas-me que não houve um dia
em que eu não habitasse o teu pensamento
e esperas, imóvel,
pela minha vez de concordar.
Mas eu hesito,
não por não ser verdade,
e sim porque admitir isso
é aceitar que nos perdemos conscientemente.
Nos meus sonhos inalo o teu cheiro,
como quem tenta sobreviver a um afogamento.
Troco o ar dos meus pulmões por ti,
mesmo sabendo que isso não sustenta a vida.
Passo a mão pelo teu rosto,
com uma lentidão quase cruel,
uma precisão quase doentia,
como quem tenta tatuar o indizível.
Como se pudesse gravar-te na minha própria pele.
Como se decorar cada traço teu
impedisse o esquecimento.
Decoro-te
para não te perder outra vez.
Digo-te que gostava de ter parado o tempo
na primeira vez que nos beijámos.
Não por ser o momento perfeito,
mas sim porque foi depois de te largar
que tudo começou a doer.
Nos meus sonhos acabamos sempre por nos encontrar.
E lá, fazemos diferente, porque ficamos.
Não porque dá certo,
mas porque desistimos de lutar contra a corrente.
Não inteiras, mas juntas.
E isso basta.
E por um instante, isso parece paz.
Mas os sonhos têm sempre o mesmo defeito: acabam.
A realidade não permite finais assim.
E quando acordo
fico com a nostalgia colada ao corpo,
a bater-me por dentro
como um animal fechado numa jaula.
E a dor não é só perder-te.
É saber que naquele lugar,
onde finalmente somos possíveis,
eu não posso morar.
E aqui não há metáfora que me salve.
Acordo todos os dias
com o amor intacto
e a ausência funcional.
Aprendo a trabalhar, a falar, a existir
com um buraco perfeitamente integrado.
Ninguém nota.
Mas ele cresce.
Nos meus sonhos tu és minha
e eu sou tua.
Sem hesitação,
sem circunstâncias,
sem o mundo a meter-se no meio.
Digo-te, sem medo,
que és o amor da minha vida.
Tu sorris
com a tranquilidade
de quem sabe
que há verdades que não salvam ninguém.
Tu sorris
porque sabes que não minto.
Depois acordo.
E o golpe vem aqui.
Não há poesia suficiente para o suavizar.
Na lucidez cruel da manhã,
na consciência intacta de que nada mudou.
Mas encontro uma verdade intacta:
não haverá um dia,
nem uma noite,
em que eu não te ame.
Mas haverá todos os dias
em que aprenderei
a viver sem ti.
Amar-te não é um sonho.
É um estado permanente.
Uma vigília.
Uma casa onde moro sozinha,
mas com a porta destrancada,
na esperança de te ver entrar.
Isto é o para sempre,
não como promessa,
mas como presença possível.
Porque se um dia
o tempo nos devolver ao mesmo lugar,
eu não terei de aprender a amar-te de novo.
Estarei aqui.
Acordada.
Dec 19, 2025
Dec 19, 2025 at 5:35 PM UTC
Nos meus sonhos vejo-te ao longe,
mas não corro logo para ti.
Não chegas inteira:
és contorno, ausência em movimento,
uma promessa que nunca se deixa tocar.
Fico suspensa nesse segundo frágil,
num cruzar de olhares que interrompe o mundo,
como duas sobreviventes
que reconhecem a mesma ruína.
Depois, corro para ti, sim,
com o coração em queda livre,
porque o corpo ainda acredita
no que a razão já enterrou.
Mas quando chego ao lugar onde me esperavas
já não estás.
Só encontro o vazio
ainda quente.
A mentira suave que o sonho deixa
para que a ausência doa mais devagar.
Nos meus sonhos abraçamo-nos.
Não é um gesto bonito,
não há delicadeza.
Há unhas, há tremor,
um pedido mudo de permanência.
É um aperto bruto,
um corpo contra o outro,
como se o mundo estivesse a ruir
e aquele fosse o momento final.
As lágrimas não pedem licença para cair.
Choro contra o teu ombro
porque o meu corpo ainda acredita
em finais que a realidade proibiu.
Choramos porque não sabemos fazer melhor,
porque amar também é falhar repetidamente.
Quando acordo,
o meu corpo continua em posição de perda,
como se ainda te estivesse a segurar.
Nos meus sonhos digo-te que te amo,
com a voz partida,
como quem confessa um crime.
Não é bonito,
não é calmo,
não é maduro.
É um amor que pede desculpa por existir.
Peço perdão pelo tempo em que estive longe,
não porque não soubesse onde estavas,
mas porque não soube ficar.
Sabendo que o perdão não apaga o abandono.
Que o tempo não foi o erro, e sim nós.
Confesso-te que cada dia sem ti
foi uma eternidade sem margens,
uma sucessão de horas mortas,
um exercício de sobrevivência,
e que a única eternidade possível
é a que começa quando estás perto de mim.
Ainda que por pouco tempo,
ainda que só no sonho,
mesmo que não resista à luz.
Nos meus sonhos dizes que sentiste saudades,
como se me admitisses uma fraqueza.
Dizes que respirar se tornou um esforço pesado na minha ausência,
que a vida continuou
mas sem oxigénio suficiente.
Confessas-me que não houve um dia
em que eu não habitasse o teu pensamento
e esperas, imóvel,
pela minha vez de concordar.
Mas eu hesito,
não por não ser verdade,
e sim porque admitir isso
é aceitar que nos perdemos conscientemente.
Nos meus sonhos inalo o teu cheiro,
como quem tenta sobreviver a um afogamento.
Troco o ar dos meus pulmões por ti,
mesmo sabendo que isso não sustenta a vida.
Passo a mão pelo teu rosto,
com uma lentidão quase cruel,
uma precisão quase doentia,
como quem tenta tatuar o indizível.
Como se pudesse gravar-te na minha própria pele.
Como se decorar cada traço teu
impedisse o esquecimento.
Decoro-te
para não te perder outra vez.
Digo-te que gostava de ter parado o tempo
na primeira vez que nos beijámos.
Não por ser o momento perfeito,
mas sim porque foi depois de te largar
que tudo começou a doer.
Nos meus sonhos acabamos sempre por nos encontrar.
E lá, fazemos diferente, porque ficamos.
Não porque dá certo,
mas porque desistimos de lutar contra a corrente.
Não inteiras, mas juntas.
E isso basta.
E por um instante, isso parece paz.
Mas os sonhos têm sempre o mesmo defeito: acabam.
A realidade não permite finais assim.
E quando acordo
fico com a nostalgia colada ao corpo,
a bater-me por dentro
como um animal fechado numa jaula.
E a dor não é só perder-te.
É saber que naquele lugar,
onde finalmente somos possíveis,
eu não posso morar.
E aqui não há metáfora que me salve.
Acordo todos os dias
com o amor intacto
e a ausência funcional.
Aprendo a trabalhar, a falar, a existir
com um buraco perfeitamente integrado.
Ninguém nota.
Mas ele cresce.
Nos meus sonhos tu és minha
e eu sou tua.
Sem hesitação,
sem circunstâncias,
sem o mundo a meter-se no meio.
Digo-te, sem medo,
que és o amor da minha vida.
Tu sorris
com a tranquilidade
de quem sabe
que há verdades que não salvam ninguém.
Tu sorris
porque sabes que não minto.
Depois acordo.
E o golpe vem aqui.
Não há poesia suficiente para o suavizar.
Na lucidez cruel da manhã,
na consciência intacta de que nada mudou.
Mas encontro uma verdade intacta:
não haverá um dia,
nem uma noite,
em que eu não te ame.
Mas haverá todos os dias
em que aprenderei
a viver sem ti.
Amar-te não é um sonho.
É um estado permanente.
Uma vigília.
Uma casa onde moro sozinha,
mas com a porta destrancada,
na esperança de te ver entrar.
Isto é o para sempre,
não como promessa,
mas como presença possível.
Porque se um dia
o tempo nos devolver ao mesmo lugar,
eu não terei de aprender a amar-te de novo.
Estarei aqui.
Acordada.
