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Houve um tempo em que eu acreditava com a violência dos corpos famintos. Não numa religião concreta, nem em deuses com nomes, mas naquela espécie de eletricidade secreta que atravessa certas pessoas antes mesmo de falarem. O mundo parecia vivo debaixo da pele das coisas. As coincidências tinham pulsação. Os sonhos eram lugares reais. As almas encontravam-se como animais feridos que se reconhecem pelo cheiro mesmo depois de vidas inteiras. E eu vivia assim: febril, aberta, faminta. Ah, a fome. Talvez tenha sido sempre isso. Não amor. Não misticismo. Não destino. Fome. Fome de sentir o mundo inteiro encostado aos nervos. Fome de atravessar a superfície das coisas e encontrar qualquer mecanismo oculto a respirar por baixo da realidade. Fome de partir a realidade ao meio com as próprias mãos e encontrar qualquer coisa quente e divina a respirar lá dentro. Quando era criança, existia um véu. Lembro-me disso com nitidez suficiente para quase lhe tocar. Tudo parecia prestes a revelar-se. Como se a vida escondesse uma segunda camada pulsante e eu tivesse apenas de sofrer o suficiente para conseguir vê-la abrir. Depois cresci. Ganhei chão. Aprendi rotinas. Consistência. Aprendi a dormir sem colapsar. Aprendi a não transformar cada ausência numa catástrofe metafísica. Aprendi a nomear emoções em vez de me afogar nelas. E estranhamente, foi aí que comecei a sentir saudades de mim. Porque a estabilidade tem um silêncio próprio. E depois de anos a viver em combustão, a paz pode parecer ausência de Deus. Uma amputação espiritual. Havia noites tão silenciosas que conseguia ouvir o meu copo arrefecer na mesa Às vezes pergunto-me se a poesia não nasceu precisamente da minha incapacidade de suportar o mundo em estado neutro. Eu escrevia como quem abre o próprio peito para provar que ainda estava viva. Transformava dor em linguagem porque não sabia transformá-la em vida. E agora? Agora olho para as coisas inteiras. Sem delírio. Sem vertigem. Sem aquela luz febril que fazia cada encontro parecer profecia e cada perda parecer sagrada. E odeio admitir isto, mas parte de mim tem saudades de arder. Há uma parte de mim que ainda quer enlouquecer para voltar a senti-la. É tramado: quando enlouqueço, imploro por chão. Quando finalmente encontro chão, fico à espera do abismo. A nostalgia faz pinturas lindíssimas daquilo que quase me matou. Durante anos confundi encanto com intensidade emocional. Confundi desregulação com transcendência. Passei anos a chamar estrelas ao sistema nervoso em curto-circuito. Havia estados dentro de mim que tornavam o mundo elétrico. Tudo parecia carregado de significado. As pessoas pareciam destino. A dor parecia um início. E a poesia nascia quase como febre, como se o próprio corpo escrevesse para impedir a alma de abandonar o quarto. Mas viver assim também tinha um preço. A poesia crescia enorme, mas eu desaparecia dentro dela. E talvez seja isso que ainda me custa aceitar: que a lucidez raramente entra numa sala a arder. Ela chega devagar. Sem música. Sem relâmpagos. Sem promessas cósmicas. E às vezes, quando finalmente aprendemos a viver sem nos destruir, o mundo parece menos mágico. Não porque perdeu mistério, mas porque deixou de sangrar luz por todas as feridas. Mesmo assim, há perguntas que continuam. Porque continuo à procura de certas pessoas como quem procura um espelho? Porque é que algumas presenças parecem conter acesso a uma versão mais viva de mim? Porque é que, mesmo agora, uma memória pode abrir em mim a sensação física de que existe qualquer coisa para além disto tudo? Talvez eu tenha projetado universos inteiros em pessoas reais. Talvez tenha confundido ser vista com ser salva. Talvez tenha confundido intensidade com transcendência. Talvez estivesse apenas emocionalmente exposta, desorganizada, faminta. Mas então porque doeu de forma tão sagrada? Porque é que certas ligações parecem tocar num lugar anterior à linguagem? E porque é que, mesmo depois de toda a lucidez, ainda há uma parte de mim que olha para o céu à noite como quem espera que o véu volte a abrir? Talvez a verdadeira metamorfose não seja perder a magia. Talvez seja sobreviver-lhe. Talvez seja aprender que o mistério não desapareceu. Apenas deixou de gritar.
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May 16
May 16, 2026 at 4:32 AM UTC
Fome Antiga
Houve um tempo em que eu acreditava com a violência dos corpos famintos. Não numa religião concreta, nem em deuses com nomes, mas naquela espécie de eletricidade secreta que atravessa certas pessoas antes mesmo de falarem. O mundo parecia vivo debaixo da pele das coisas. As coincidências tinham pulsação. Os sonhos eram lugares reais. As almas encontravam-se como animais feridos que se reconhecem pelo cheiro mesmo depois de vidas inteiras. E eu vivia assim: febril, aberta, faminta. Ah, a fome. Talvez tenha sido sempre isso. Não amor. Não misticismo. Não destino. Fome. Fome de sentir o mundo inteiro encostado aos nervos. Fome de atravessar a superfície das coisas e encontrar qualquer mecanismo oculto a respirar por baixo da realidade. Fome de partir a realidade ao meio com as próprias mãos e encontrar qualquer coisa quente e divina a respirar lá dentro. Quando era criança, existia um véu. Lembro-me disso com nitidez suficiente para quase lhe tocar. Tudo parecia prestes a revelar-se. Como se a vida escondesse uma segunda camada pulsante e eu tivesse apenas de sofrer o suficiente para conseguir vê-la abrir. Depois cresci. Ganhei chão. Aprendi rotinas. Consistência. Aprendi a dormir sem colapsar. Aprendi a não transformar cada ausência numa catástrofe metafísica. Aprendi a nomear emoções em vez de me afogar nelas. E estranhamente, foi aí que comecei a sentir saudades de mim. Porque a estabilidade tem um silêncio próprio. E depois de anos a viver em combustão, a paz pode parecer ausência de Deus. Uma amputação espiritual. Havia noites tão silenciosas que conseguia ouvir o meu copo arrefecer na mesa Às vezes pergunto-me se a poesia não nasceu precisamente da minha incapacidade de suportar o mundo em estado neutro. Eu escrevia como quem abre o próprio peito para provar que ainda estava viva. Transformava dor em linguagem porque não sabia transformá-la em vida. E agora? Agora olho para as coisas inteiras. Sem delírio. Sem vertigem. Sem aquela luz febril que fazia cada encontro parecer profecia e cada perda parecer sagrada. E odeio admitir isto, mas parte de mim tem saudades de arder. Há uma parte de mim que ainda quer enlouquecer para voltar a senti-la. É tramado: quando enlouqueço, imploro por chão. Quando finalmente encontro chão, fico à espera do abismo. A nostalgia faz pinturas lindíssimas daquilo que quase me matou. Durante anos confundi encanto com intensidade emocional. Confundi desregulação com transcendência. Passei anos a chamar estrelas ao sistema nervoso em curto-circuito. Havia estados dentro de mim que tornavam o mundo elétrico. Tudo parecia carregado de significado. As pessoas pareciam destino. A dor parecia um início. E a poesia nascia quase como febre, como se o próprio corpo escrevesse para impedir a alma de abandonar o quarto. Mas viver assim também tinha um preço. A poesia crescia enorme, mas eu desaparecia dentro dela. E talvez seja isso que ainda me custa aceitar: que a lucidez raramente entra numa sala a arder. Ela chega devagar. Sem música. Sem relâmpagos. Sem promessas cósmicas. E às vezes, quando finalmente aprendemos a viver sem nos destruir, o mundo parece menos mágico. Não porque perdeu mistério, mas porque deixou de sangrar luz por todas as feridas. Mesmo assim, há perguntas que continuam. Porque continuo à procura de certas pessoas como quem procura um espelho? Porque é que algumas presenças parecem conter acesso a uma versão mais viva de mim? Porque é que, mesmo agora, uma memória pode abrir em mim a sensação física de que existe qualquer coisa para além disto tudo? Talvez eu tenha projetado universos inteiros em pessoas reais. Talvez tenha confundido ser vista com ser salva. Talvez tenha confundido intensidade com transcendência. Talvez estivesse apenas emocionalmente exposta, desorganizada, faminta. Mas então porque doeu de forma tão sagrada? Porque é que certas ligações parecem tocar num lugar anterior à linguagem? E porque é que, mesmo depois de toda a lucidez, ainda há uma parte de mim que olha para o céu à noite como quem espera que o véu volte a abrir? Talvez a verdadeira metamorfose não seja perder a magia. Talvez seja sobreviver-lhe. Talvez seja aprender que o mistério não desapareceu. Apenas deixou de gritar.
mariana-seabra
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27/Gender Fluid/Portuguese
May 16
May 16, 2026 at 4:32 AM UTC
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