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Amei-te durante sete anos sem nunca saber se podia dizer a palavra amar em voz alta. Não foi uma noite. Foi o tempo inteiro antes dela. Sete anos a aprender a respirar no espaço vazio entre os teus sinais. Vivias no intervalo das frases, no talvez, no olhar que demorava meio segundo a mais e depois desaparecia como se eu tivesse imaginado tudo. Nunca disseste fica. Nunca hesitas-te em dizer vai. E eu vivi ali, no território sagrado do talvez, onde o amor cresce deformado porque nunca encontra chão. Eu aprendia-te por pistas. Por silêncios. Por aquilo que não entregavas inteiro. Tu olhavas-me como quem reconhece algo e depois fechavas a porta antes que eu pudesse entrar. E eu ficava, arqueóloga do teu afeto, escavando significados onde só havia migalhas de possibilidade. Chamava-lhe profundidade. Chamava-lhe mistério. Chamava-lhe destino. Hoje sei: era incerteza com poesia suficiente para parecer amor. Durante sete anos o meu coração viveu inclinado para ti, marcado por ti, batia por ti... como uma casa construída à espera de alguém que nunca decidiu morar nela. E mesmo assim eu compreendia-te. Meu deus, como eu te compreendia. Justificava as ausências, traduzia os teus recuos, transformava dúvidas em complexidade, distância em intensidade. Se demoravas, era porque sentias demais. Se recuavas, era porque tinhas medo. Se não vinhas, era porque um dia virias. Porque amar-te era também esperar que um dia fosses ficar. E depois ficámos. Uma noite apenas. O universo finalmente alinhado no corpo errado do tempo certo. A pele finalmente real, o corpo a confirmar tudo o que o meu coração ensaiara durante aqueles anos. A terra abalou. Abriu-se dentro de mim. Eu pensei: "agora começa a vida". Mas para ti foi apenas a conclusão. Deixaste-me ir como quem fecha um livro depois de leres o último capítulo sozinha. Com a calma cruel de quem nunca esteve realmente em risco de me perder. E eu fiquei ali, com sete anos ainda vivos dentro do peito, sem saber onde pousar tanto futuro que nunca aconteceu. Eu não estava a chorar uma noite. Estava de luto. Estava a enterrar o amor que nunca chegou a nascer. Desde então ninguém me parece suficiente. Não porque não sejam interessantes, mas porque não sabem o que é falar à beira do abismo. Contigo, cada conversa era um precipício. Cada frase uma promessa de revelação. Tu nunca vinhas inteira. E eu viciei-me no esforço de merecer acesso. Descobri tarde demais que há amores que sobrevivem precisamente porque nunca acontecem. Porque o quase não envelhece. Não falha. Não revela as partes comuns. Fica perfeito na imaginação de quem espera. O que dói já não és tu. É a versão de mim que escrevia como se o mundo tivesse nervos expostos, que sentia tudo em excesso, que acreditava que ser escolhida era apenas questão de tempo. Disseram-me depois que eu gosto de desvendar pessoas. Que me apaixono por camadas. Por complexidade. Por nuance. Pessoas totalmente previsíveis, transparentes demais, "arrumadas demais", não me despertam curiosidade. E para mim, curiosidade é Eros. É ligação. É vida. Então, claro que me apaixonei por ti. Mas a verdade é que eu só queria chegar ao lugar onde finalmente fosse segura. Confundi ambiguidade com profundidade. Tensão com ligação. Quase com amor. E agora, o silêncio é limpo demais. As pessoas chegam inteiras e eu estranho não ter de lutar para existir. Porque o vício não era só em ti. Era na esperança. Ainda tenho medo de que tenhas sido o melhor que me aconteceu. De que tudo daqui para a frente seja apenas correto. Mas começo a suspeitar que foste apenas a ferida que abriu a mulher que eu sempre fui. A fonte não eras tu. A inspiração não morreu com a musa. Apenas ficou órfã durante um tempo. Tu não inventaste a minha humanidade, apenas despertaste o melhor dela. E quando o circuito quebrou, o cérebro interpretou como "acabou a fonte". Mas não, apenas acabou o eco. Talvez o que abalou a terra não foste tu. Talvez tenha sido o momento em que eu finalmente me permiti amar sem proteção. Talvez a tragédia não seja ter-te perdido. Talvez seja ter acreditado que amor era esperar para ser escolhida. E talvez um dia quando a terra voltar a abanar, não por ausência, não por dúvida, não por medo, eu reconheça finalmente a diferença entre intensidade e casa.
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Feb 27
Feb 27, 2026 at 10:32 AM UTC
Limbo
Amei-te durante sete anos sem nunca saber se podia dizer a palavra amar em voz alta. Não foi uma noite. Foi o tempo inteiro antes dela. Sete anos a aprender a respirar no espaço vazio entre os teus sinais. Vivias no intervalo das frases, no talvez, no olhar que demorava meio segundo a mais e depois desaparecia como se eu tivesse imaginado tudo. Nunca disseste fica. Nunca hesitas-te em dizer vai. E eu vivi ali, no território sagrado do talvez, onde o amor cresce deformado porque nunca encontra chão. Eu aprendia-te por pistas. Por silêncios. Por aquilo que não entregavas inteiro. Tu olhavas-me como quem reconhece algo e depois fechavas a porta antes que eu pudesse entrar. E eu ficava, arqueóloga do teu afeto, escavando significados onde só havia migalhas de possibilidade. Chamava-lhe profundidade. Chamava-lhe mistério. Chamava-lhe destino. Hoje sei: era incerteza com poesia suficiente para parecer amor. Durante sete anos o meu coração viveu inclinado para ti, marcado por ti, batia por ti... como uma casa construída à espera de alguém que nunca decidiu morar nela. E mesmo assim eu compreendia-te. Meu deus, como eu te compreendia. Justificava as ausências, traduzia os teus recuos, transformava dúvidas em complexidade, distância em intensidade. Se demoravas, era porque sentias demais. Se recuavas, era porque tinhas medo. Se não vinhas, era porque um dia virias. Porque amar-te era também esperar que um dia fosses ficar. E depois ficámos. Uma noite apenas. O universo finalmente alinhado no corpo errado do tempo certo. A pele finalmente real, o corpo a confirmar tudo o que o meu coração ensaiara durante aqueles anos. A terra abalou. Abriu-se dentro de mim. Eu pensei: "agora começa a vida". Mas para ti foi apenas a conclusão. Deixaste-me ir como quem fecha um livro depois de leres o último capítulo sozinha. Com a calma cruel de quem nunca esteve realmente em risco de me perder. E eu fiquei ali, com sete anos ainda vivos dentro do peito, sem saber onde pousar tanto futuro que nunca aconteceu. Eu não estava a chorar uma noite. Estava de luto. Estava a enterrar o amor que nunca chegou a nascer. Desde então ninguém me parece suficiente. Não porque não sejam interessantes, mas porque não sabem o que é falar à beira do abismo. Contigo, cada conversa era um precipício. Cada frase uma promessa de revelação. Tu nunca vinhas inteira. E eu viciei-me no esforço de merecer acesso. Descobri tarde demais que há amores que sobrevivem precisamente porque nunca acontecem. Porque o quase não envelhece. Não falha. Não revela as partes comuns. Fica perfeito na imaginação de quem espera. O que dói já não és tu. É a versão de mim que escrevia como se o mundo tivesse nervos expostos, que sentia tudo em excesso, que acreditava que ser escolhida era apenas questão de tempo. Disseram-me depois que eu gosto de desvendar pessoas. Que me apaixono por camadas. Por complexidade. Por nuance. Pessoas totalmente previsíveis, transparentes demais, "arrumadas demais", não me despertam curiosidade. E para mim, curiosidade é Eros. É ligação. É vida. Então, claro que me apaixonei por ti. Mas a verdade é que eu só queria chegar ao lugar onde finalmente fosse segura. Confundi ambiguidade com profundidade. Tensão com ligação. Quase com amor. E agora, o silêncio é limpo demais. As pessoas chegam inteiras e eu estranho não ter de lutar para existir. Porque o vício não era só em ti. Era na esperança. Ainda tenho medo de que tenhas sido o melhor que me aconteceu. De que tudo daqui para a frente seja apenas correto. Mas começo a suspeitar que foste apenas a ferida que abriu a mulher que eu sempre fui. A fonte não eras tu. A inspiração não morreu com a musa. Apenas ficou órfã durante um tempo. Tu não inventaste a minha humanidade, apenas despertaste o melhor dela. E quando o circuito quebrou, o cérebro interpretou como "acabou a fonte". Mas não, apenas acabou o eco. Talvez o que abalou a terra não foste tu. Talvez tenha sido o momento em que eu finalmente me permiti amar sem proteção. Talvez a tragédia não seja ter-te perdido. Talvez seja ter acreditado que amor era esperar para ser escolhida. E talvez um dia quando a terra voltar a abanar, não por ausência, não por dúvida, não por medo, eu reconheça finalmente a diferença entre intensidade e casa.
mariana-seabra
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27/Gender Fluid/Portuguese
Feb 27
Feb 27, 2026 at 10:32 AM UTC
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