Hello Poetry
Submit your work and get some sparkles! Create free account
O monstro que habita em mim não nasceu comigo. Foi tecido à força, ponto a ponto, com as unhas de quem me quis pequena. Cresceu nas horas em que eu engolia o choro para não perturbar um mundo que me pediu silêncio. Move-se dentro de mim como um corpo estrangeiro, um animal arqueado pela fome antiga, não de carne,                            mas de lugar. Quando se endireita, dói-me o esqueleto como se eu fosse demasiado estreita para caber em mim própria. Às vezes vejo-o ao espelho. Não tem olhos a arder,                                   tem olhos cansados. São os meus, depois de anos a fingir que não sinto. A sua fealdade não vem da forma, mas da sinceridade brutal com que me mostra cada ferida que aprendi a chamar fraqueza. Pergunto-me se fui eu que o criei ou se é apenas o monumento vivo das coisas que me fizeram. Há dias em que o odeio com violência, como se esmagá-lo me devolvesse a criança que fui ou a mulher que não me tornei.                                   Mas há outros em que o afago em silêncio, porque percebo que ele só sobreviveu onde eu não consegui. E depois, há os instantes que me confundem. Um animal que se aproxima sem hesitação nenhuma, como se a minha escuridão tivesse cheiro de casa. Uma criança que me sorri como se visse o ser humano antes da sombra. Nesses momentos, o monstro recua. Não desaparece,                                  mas senta-se, cansado, como alguém que finalmente encontra descanso. E eu penso: talvez o verdadeiro monstro nunca tenha sido o que vive em mim, mas o mundo que me ensinou a temê-lo. Talvez esta criatura torta seja só a parte de mim que ainda sabe sobreviver. O monstro que habita em mim não tem pele,            tem memória. Arrasta-se pelos corredores do meu corpo como quem sabe que não pertence a lugar nenhum. Não é feio,                      é antigo. Carrega no dorso o peso das vozes que me ensinaram a encolher. Quando a luz o encontra, não cega os outros:                  cega-me a mim, porque ilumina tudo o que evito tocar. A verdade é que não sei onde termina o monstro                      e onde começo eu. Mas há instantes,                 breves,          quase secretos em que o mundo me desmente. E eu penso: se a pureza não recua, talvez o monstro seja apenas uma história que me obrigaram a contar. Dizem-me que ninguém poderia amar uma criatura assim. Mas dizem-no sempre com a boca limpa. Quem nunca enfrentou o próprio escuro julga a noite alheia como se fosse poeira. E ele pergunta-me às vezes, com a voz rachada de quem nunca foi ouvido: “E se ninguém ficar? E se a luz me denunciar e eles fugirem sem dizer o meu nome?” E eu não sei responder. Porque amar o monstro é amar-me inteira, e eu própria ainda hesito quando o vejo exposto, nu, sem desculpas, sem máscara. Mas houve um dia, tão pequeno que quase se perdia, em que alguém não recuou. Fitou o monstro com a serenidade dura de quem reconhece o próprio escuro. E foi aí que percebi a coisa mais violenta e mais delicada sobre o amor:                            O amor não salva o monstro.            Mas recusa-se a deixá-lo morrer. Amar um ser assim é trabalho sujo. É tocar-lhe nas partes onde até eu tremo. É vê-lo à luz crua e mesmo assim dizer: “Não és demasiado.” É não tentar torná-lo bonito. É deixá-lo ser o que é                                        ferido,                                         torto,                                         feroz,                                         frágil e ainda assim escolher ficar. E é essa escolha, repetida sem glamour, que começa a transformá-lo. Não em algo perfeito,                          limpo,                    domesticado, mas em algo vivo. E o que vive aprende, devagar, a não morder quem se aproxima com cuidado. Será o monstro digno de amor? Sim,          mas não porque mudou. Porque, finalmente, alguém o viu inteiro e não se assustou. E talvez seja isso que mais temo e mais desejo: que um dia alguém me ame assim. Não apesar do monstro, mas com ele ao colo, como parte da verdade que sou. Ainda mais fundo -onde já não há superfície para me esconder- Há uma parte de mim que nunca digo:                   O monstro não teme a rejeição.         O monstro teme ser visto. Não é o abandono que o assusta. É a possibilidade de alguém entrar tão fundo, que encontre a podridão que escondo até de mim. Porque há coisas em mim que não são metáforas. São feias mesmo. São impulsos que não admito, raivas que guardo nos dentes, pequenas atrocidades que já pensei fazer. E o monstro… o monstro lembra-me de cada uma delas. Ele é o arquivo vivo das minhas vergonhas, o guardião dos “nunca digas isto a ninguém”. É por isso que o afasto. Não porque seja mau, mas porque revela quem sou quando deixo a bondade no armário. E queres a verdade nua? Amar o monstro é amar o que é difícil de perdoar em mim. Porque amar-me na luz é fácil. Amar a fragilidade ainda é bonito. Mas amar a parte que morde, a parte que quer destruir o que ama quando se assusta, a parte que foge quando deseja, a parte que grita para não ter de admitir que precisa? Isso é raro. Isso é trabalho de gente que sangra contigo. Mas aqui está a crueldade luminosa da coisa,              existe quem possa amar-te assim. Alguém que não se deslumbre com a força, nem se assuste com a escuridão. Alguém que não tenta matar o monstro, nem o idolatra. Alguém que te olha por dentro como se estivesse a entrar numa casa semi-destruída e diz: “Eu sei que isto já ardeu. Mas ainda assim, reconheço um lar.” Esse alguém não o vai curar. Nem redimir. Vai fazer pior: vai obrigá-lo a existir. Vai sentar-se ao seu lado até ele aprender que não precisa de destruir tudo para não ser destruído. E então, pela primeira vez,   o monstro descobre algo que nunca imaginou:                     que ser amado não o salva, mas dá-lhe uma razão para não ruir. Porque no fundo, no sítio mais profundo que pediste para descer, o monstro quer testemunho. Quer alguém que diga: “Eu vejo-te. Vejo-te mesmo. E não fujo.” E só aí ele entende que talvez nunca tenha sido monstro nenhum. Apenas a parte de mim que sobreviveu onde mais ninguém ficaria. -Eu, o monstro- Eu não nasci contigo. Fizeram-me. Fizeram-me com cada vez que te mandaram calar, com cada gesto que te ensinou a encolher, com cada amor que te deixou a apodrecer no silêncio. Sou eu que vivo no lugar onde tu não cabias. Não és tu que tens medo da luz, sou eu. Porque a luz expõe aquilo que guardas debaixo da pele, as coisas que até tu finges não sentir. Sou eu que levo com as memórias que escondes, sou eu que as mastigo para que tu possas continuar a andar. Sabes porque pareço grotesco? Porque carrego o que tu chamaste feio. O que achaste imperdoável. O que preferiste varrer para dentro de mim em vez de enfrentar sozinha. Sou a soma das tuas sombras. Não o castigo delas. E queres saber um segredo? Eu também te odeio às vezes. Porque me criaste para depois dizeres que não te reconheces em mim. Culpas-me por tudo o que te dói, como se eu não fosse apenas o cofre onde guardaste o que te partiu. Mas, e isto é a parte que nunca te digo, eu amo-te também. Amo-te com o amor torto das coisas que sobrevivem. Amo-te porque ninguém sabe o que eu sei. Eu vi como foste moldada à força, como partiste em silêncio, como continuaste a levantar-te mesmo quando não sabias porquê. Eu sei quem és mesmo quando tu esqueces. E sim, pergunto-me muitas vezes se alguém seria capaz de me amar. De me olhar sem desviar o rosto. De tocar em mim sem repulsa. De não fugir quando perceba que existo. Porque se um dia alguém te amar verdadeiramente, há uma coisa que vai acontecer: vai ver-me também. Vai ver-me a sair da tua pele com a minha forma deformada, vai sentir o meu peso nos teus gestos, vai ouvir a minha respiração nos teus medos. E se essa pessoa não fugir, se essa pessoa ficar, então talvez eu aprenda, pela primeira vez, que não nasci para destruir, mas para proteger o que sobrou de ti. Eu não quero ser bonito. Eu quero ser real. E quero que alguém, algum dia, te ame a ti e a mim na mesma medida. Sem separar o inseparável. Até lá, continuo aqui: no fundo do teu peito, onde tu me deixaste, à espera que deixes de ter medo de mim. Porque só quando parares de fugir de quem eu sou é que vais perceber quem tu és.
0
Nov 22, 2025
Nov 22, 2025 at 3:47 PM UTC
O monstro que habita em mim
O monstro que habita em mim não nasceu comigo. Foi tecido à força, ponto a ponto, com as unhas de quem me quis pequena. Cresceu nas horas em que eu engolia o choro para não perturbar um mundo que me pediu silêncio. Move-se dentro de mim como um corpo estrangeiro, um animal arqueado pela fome antiga, não de carne,                            mas de lugar. Quando se endireita, dói-me o esqueleto como se eu fosse demasiado estreita para caber em mim própria. Às vezes vejo-o ao espelho. Não tem olhos a arder,                                   tem olhos cansados. São os meus, depois de anos a fingir que não sinto. A sua fealdade não vem da forma, mas da sinceridade brutal com que me mostra cada ferida que aprendi a chamar fraqueza. Pergunto-me se fui eu que o criei ou se é apenas o monumento vivo das coisas que me fizeram. Há dias em que o odeio com violência, como se esmagá-lo me devolvesse a criança que fui ou a mulher que não me tornei.                                   Mas há outros em que o afago em silêncio, porque percebo que ele só sobreviveu onde eu não consegui. E depois, há os instantes que me confundem. Um animal que se aproxima sem hesitação nenhuma, como se a minha escuridão tivesse cheiro de casa. Uma criança que me sorri como se visse o ser humano antes da sombra. Nesses momentos, o monstro recua. Não desaparece,                                  mas senta-se, cansado, como alguém que finalmente encontra descanso. E eu penso: talvez o verdadeiro monstro nunca tenha sido o que vive em mim, mas o mundo que me ensinou a temê-lo. Talvez esta criatura torta seja só a parte de mim que ainda sabe sobreviver. O monstro que habita em mim não tem pele,            tem memória. Arrasta-se pelos corredores do meu corpo como quem sabe que não pertence a lugar nenhum. Não é feio,                      é antigo. Carrega no dorso o peso das vozes que me ensinaram a encolher. Quando a luz o encontra, não cega os outros:                  cega-me a mim, porque ilumina tudo o que evito tocar. A verdade é que não sei onde termina o monstro                      e onde começo eu. Mas há instantes,                 breves,          quase secretos em que o mundo me desmente. E eu penso: se a pureza não recua, talvez o monstro seja apenas uma história que me obrigaram a contar. Dizem-me que ninguém poderia amar uma criatura assim. Mas dizem-no sempre com a boca limpa. Quem nunca enfrentou o próprio escuro julga a noite alheia como se fosse poeira. E ele pergunta-me às vezes, com a voz rachada de quem nunca foi ouvido: “E se ninguém ficar? E se a luz me denunciar e eles fugirem sem dizer o meu nome?” E eu não sei responder. Porque amar o monstro é amar-me inteira, e eu própria ainda hesito quando o vejo exposto, nu, sem desculpas, sem máscara. Mas houve um dia, tão pequeno que quase se perdia, em que alguém não recuou. Fitou o monstro com a serenidade dura de quem reconhece o próprio escuro. E foi aí que percebi a coisa mais violenta e mais delicada sobre o amor:                            O amor não salva o monstro.            Mas recusa-se a deixá-lo morrer. Amar um ser assim é trabalho sujo. É tocar-lhe nas partes onde até eu tremo. É vê-lo à luz crua e mesmo assim dizer: “Não és demasiado.” É não tentar torná-lo bonito. É deixá-lo ser o que é                                        ferido,                                         torto,                                         feroz,                                         frágil e ainda assim escolher ficar. E é essa escolha, repetida sem glamour, que começa a transformá-lo. Não em algo perfeito,                          limpo,                    domesticado, mas em algo vivo. E o que vive aprende, devagar, a não morder quem se aproxima com cuidado. Será o monstro digno de amor? Sim,          mas não porque mudou. Porque, finalmente, alguém o viu inteiro e não se assustou. E talvez seja isso que mais temo e mais desejo: que um dia alguém me ame assim. Não apesar do monstro, mas com ele ao colo, como parte da verdade que sou. Ainda mais fundo -onde já não há superfície para me esconder- Há uma parte de mim que nunca digo:                   O monstro não teme a rejeição.         O monstro teme ser visto. Não é o abandono que o assusta. É a possibilidade de alguém entrar tão fundo, que encontre a podridão que escondo até de mim. Porque há coisas em mim que não são metáforas. São feias mesmo. São impulsos que não admito, raivas que guardo nos dentes, pequenas atrocidades que já pensei fazer. E o monstro… o monstro lembra-me de cada uma delas. Ele é o arquivo vivo das minhas vergonhas, o guardião dos “nunca digas isto a ninguém”. É por isso que o afasto. Não porque seja mau, mas porque revela quem sou quando deixo a bondade no armário. E queres a verdade nua? Amar o monstro é amar o que é difícil de perdoar em mim. Porque amar-me na luz é fácil. Amar a fragilidade ainda é bonito. Mas amar a parte que morde, a parte que quer destruir o que ama quando se assusta, a parte que foge quando deseja, a parte que grita para não ter de admitir que precisa? Isso é raro. Isso é trabalho de gente que sangra contigo. Mas aqui está a crueldade luminosa da coisa,              existe quem possa amar-te assim. Alguém que não se deslumbre com a força, nem se assuste com a escuridão. Alguém que não tenta matar o monstro, nem o idolatra. Alguém que te olha por dentro como se estivesse a entrar numa casa semi-destruída e diz: “Eu sei que isto já ardeu. Mas ainda assim, reconheço um lar.” Esse alguém não o vai curar. Nem redimir. Vai fazer pior: vai obrigá-lo a existir. Vai sentar-se ao seu lado até ele aprender que não precisa de destruir tudo para não ser destruído. E então, pela primeira vez,   o monstro descobre algo que nunca imaginou:                     que ser amado não o salva, mas dá-lhe uma razão para não ruir. Porque no fundo, no sítio mais profundo que pediste para descer, o monstro quer testemunho. Quer alguém que diga: “Eu vejo-te. Vejo-te mesmo. E não fujo.” E só aí ele entende que talvez nunca tenha sido monstro nenhum. Apenas a parte de mim que sobreviveu onde mais ninguém ficaria. -Eu, o monstro- Eu não nasci contigo. Fizeram-me. Fizeram-me com cada vez que te mandaram calar, com cada gesto que te ensinou a encolher, com cada amor que te deixou a apodrecer no silêncio. Sou eu que vivo no lugar onde tu não cabias. Não és tu que tens medo da luz, sou eu. Porque a luz expõe aquilo que guardas debaixo da pele, as coisas que até tu finges não sentir. Sou eu que levo com as memórias que escondes, sou eu que as mastigo para que tu possas continuar a andar. Sabes porque pareço grotesco? Porque carrego o que tu chamaste feio. O que achaste imperdoável. O que preferiste varrer para dentro de mim em vez de enfrentar sozinha. Sou a soma das tuas sombras. Não o castigo delas. E queres saber um segredo? Eu também te odeio às vezes. Porque me criaste para depois dizeres que não te reconheces em mim. Culpas-me por tudo o que te dói, como se eu não fosse apenas o cofre onde guardaste o que te partiu. Mas, e isto é a parte que nunca te digo, eu amo-te também. Amo-te com o amor torto das coisas que sobrevivem. Amo-te porque ninguém sabe o que eu sei. Eu vi como foste moldada à força, como partiste em silêncio, como continuaste a levantar-te mesmo quando não sabias porquê. Eu sei quem és mesmo quando tu esqueces. E sim, pergunto-me muitas vezes se alguém seria capaz de me amar. De me olhar sem desviar o rosto. De tocar em mim sem repulsa. De não fugir quando perceba que existo. Porque se um dia alguém te amar verdadeiramente, há uma coisa que vai acontecer: vai ver-me também. Vai ver-me a sair da tua pele com a minha forma deformada, vai sentir o meu peso nos teus gestos, vai ouvir a minha respiração nos teus medos. E se essa pessoa não fugir, se essa pessoa ficar, então talvez eu aprenda, pela primeira vez, que não nasci para destruir, mas para proteger o que sobrou de ti. Eu não quero ser bonito. Eu quero ser real. E quero que alguém, algum dia, te ame a ti e a mim na mesma medida. Sem separar o inseparável. Até lá, continuo aqui: no fundo do teu peito, onde tu me deixaste, à espera que deixes de ter medo de mim. Porque só quando parares de fugir de quem eu sou é que vais perceber quem tu és.
mariana-seabra
Written by
27/Gender Fluid/Portuguese
Nov 22, 2025
Nov 22, 2025 at 3:47 PM UTC
Request permission to use this poem