A mulher semeia em mim
E rega luz pelos meus campos.
Os frutos imploram por ser.
Os *** regam-me os campos
E os frutos rezam gratidão.
A mulher aguarda poder colher.
A lua olha e sorri
Incerta de que marés mover.
May 12
May 12, 2026 at 10:35 AM UTC
É impressionante que tanto sentimento de profunda inadequação
À vida, ao meio,
Não se traduza jamais em escrita.
Houve um tempo em que o tormento
Tinha um cariz distinto, sério, concreto
Sei lá, provavelmente não tinha nada disso,
Eu achava-me crescida e escrevia de forma
Burguesa e pretenciosa. É isso.
Agora que devia ser crescida e
Burguesa e pretensiosa, quis-me criança
Caótica e revolucionária, emocional,
Desregulada, descontrolada, perdida,
Sem rumo nem nau que navegar
E que se lixe! Nem queria escrever bem.
Detestar-me-ia se escrevesse bem!
De forma bonita, lírica,
Usando palavras caras e
Metáforas complexas, como quem tenta
Ser mais do que ao que é.
Não quero colocar a voz e fazer
Pausas emocionadas, não quero ser
Respeitada poetisa, não quero sucesso
De forma alguma, deixem-me ser
Nada.
O medo de falhar a mudança
É de tal forma que fico! E se não fico
Bato-me porque nunca fico, a minha percepção
Da realidade não é fidedigna, não sou
Confiável - para os outros ou para mim -
O futuro é uma nódoa, mancha, nulidade,
Não quero ser nada, nem ontem, nem agora,
Quanto mais amanhã ou daqui a uma vida!
Deixem-me em paz, se pudesse apodrecia
Aliás, se pudesse florescia
E passava a vida
A apanhar sol
Até morrer.
May 12
May 12, 2026 at 6:26 AM UTC
Tantas vidas me deram os deuses
E que deleite as maravilhas divinas!
(Doces ou amargas, que me agrada não só
O leite gordo e fresco, como talhado e azedo.)
Sim, saciei a sede com podridão!
Limpei o paladar fétido com mel -
Tantas as dádivas com que me deleitar
E um paladar maduro que fez proveito de tudo.
Enquanto os deuses me tinham, sim,
Como merecedora de si. Enfim,
Tantas chances prendadas, rios
De leite e mel e eu, nua,
Esfregando o corpo nos seixos molhados
Cantando odes às pedras que os deuses
Plantaram para me distrair
Lambendo delas o corpo salgado
Ignorando os leitos; os deuses
Saturaram-se da insolência
Da menina-mulher que não os soube honrar
Refém de um dizer antigo
Que das pedras se farão castelos.
May 12
May 12, 2026 at 6:22 AM UTC
Fazíamos amor
Mas nunca me deste filhos.
As mulheres sonhadas, sim,
Tantos que farei um livro.
A ti, pouca coisa,
Um par de odes,
Nada mais.
Sep 28, 2022
Sep 28, 2022 at 6:47 PM UTC
Pensando nos lugares em que estive,
Física e espiritualmente,
Os tormentos de agora apresentam-se desmedidos
Porque dói tanto isto que nem dói sequer?
Que me não causa, isto,
Miséria ou infelicidade, isto,
Que embora a boca, amedrontada,
O não tenha dito
Era precisamente o que desejava para mim?
É certo, não assim…
Ah, cheguei a ousar dizê-lo!
Em confidência à minha mãe,
Sorrateiramente por versos escondidos.
Isto que eu queria!
É certo, não assim.
Não mordendo o fruto
Que me deste, oculto pela mão,
Sobre os meus protestos gritados,
À boca a provar; e, embora eu o cheirasse,
Podre, juravas pelo amor ser são!
O sabor, por não ser desesperante,
Faz-se aditivo; logo estou eu trepando a árvore
Sedenta de o devorar.
Escorrendo-te pelo queixo,
Sumo de laranjas meladas;
A língua que to limpa não é a tua.
Fixo a dor e tombo nela
Como Narciso sobre si.
Sep 28, 2022
Sep 28, 2022 at 5:32 PM UTC
não desaprendo o amor pelo sonho
surge-se-me belo e ardente
pelo olhar de dentro
da alma, o amor,
pelo rosto da mulher-anjo.
sei quem é e que a amo
quer porque lho digo,
quer porque o sinto
pela ausência que me arde
as entranhas.
sei quem é e que a amo,
sei que o que é, é mais que ser mulher
sei-a água na essência,
incêndio e vento na ausência
sei
que a não posso conhecer.
Apr 7, 2022
Apr 7, 2022 at 10:23 AM UTC
O mar já não salpica
a janela do meu quarto,
já nem me visita
ao escuro, de noitinha,
com canções ou poesia -
de amor ou ego
nunca cheguei a entender.
Mas, ainda que incerta,
quando o mar me salpicava
a janela do quarto,
dentro de mim eu cria,
ah, e como queria,
que fosse amor!
Enfim, mudei-me para o interior,
para me dedicar a amar as montanhas
(que não há esperança para o rios
por muito que neles me banhe).
Se não é salgado, o amor terá que ser
térreo e verde, imenso e divino,
altivo e maternal. Enfim.
O que amo nas montanhas
não passa de um reflexo de mim.
O que amo no mar é tudo o resto.
A expectativa,
a possibilidade,
a esperança
em algo para além de mim.
Em algo bom e humano,
leve e fluido,
tempestuoso mas seguro,
caseiro e real.
Nov 26, 2021
Nov 26, 2021 at 10:35 AM UTC
Escrevo sobre mim e digo-me criança nos versos.
Olho-me ao espelho e não sei que idade me dar.
Meu Deus, sou tão nova!
Tão cheia de infantilidade nas minhas ações, tão
Cheia de juvenilidade nos meus desejos.
Quero saber para sempre amar com uma adolescente
E talvez isso não seja bom. Romântica incurável
Como digo que sou, deveria ansiar por um amor
Maduro. Mas não.
Quero amar inconscientemente. Quero
Amar com o calor da pele aquecida pelo sol, com
A frescura que a pele sente quando se aventura ao mar.
Quero amar sem ter que pensar
Muito sobre o amor. Porque, como os versos sinceros,
A fluência do amor deve ser
Impulsionada apenas por si.
Nov 26, 2021
Nov 26, 2021 at 10:08 AM UTC
Quando for grande quero
Ter um jardim
Para cuidar como não cuido de mim;
Fazer cama de um vaso cheio de terra
Onde cobrirei a semente de amor
Com água fresca e luz do sol
Palavras e doces melodias
Até e depois de nascer.
Quando for maior ainda,
Se amar a flor tanto assim,
Quero fazer uma horta do jardim,
Para amar o que como
Da semente até ao prato e,
Se somos o que comemos,
Plantarei amor em mim.
May 6, 2020
May 6, 2020 at 6:39 PM UTC
Colhi a alma de tudo quanto toquei
e em tudo quanto olhei larguei parte da minha
o que me torna, hoje, aquilo que sou,
o que me constrói e constitui
são os outros e não eu.
Os outros: as flores banhadas de orvalho,
as árvores vestidas ou nuas,
as paisagens das cidades que amei
mais do que as pessoas com que as corri,
as pessoas que amei e as que toquei apenas
e aquelas que nem a tocar cheguei.
Não sou já gente, se é que fui gente vez alguma!
Será esta alma que trago maior que a minha?
Serei eu, tão cheia de natureza, mais ou menos natural?
Mas serei eu a alma que carrego sem que seja a minha,
o conjunto de seres racionais por dentro de mim
que me controlam o pensamento e, por vezes, o sentir
ou o ser único e puro que sente de forma única e pura?
Serei eu a união de tudo isso,
do que me resta de mim, de quantas versões tenha de mim,
e o que trago dos outros? Serei eu
algo ou alguém sequer?
Importa definir o ser?
Oct 27, 2017
Oct 27, 2017 at 12:40 PM UTC
