"cuja" poems
I
Queira a ter-te tal sacrifício impune à beleza
Desventurar no ofício da morte formosa
No rito estrangulado, no campo da destreza,
Pensamentos que julgo uma ilusão honrosa
Sob a lembrança dos antigos, arcaica proeza
Se medos sentimos dessa prática tão dolorosa,
Aquieta-se! A relva abaixo espera em sua frieza,
Para o pútrido sepulcro de uma luz ardorosa
Onde graça, cuja índole se esquiva,
Singram os raciocínios obscuros
De uma consciência a julgar-se viva
É o fim a tocar alma fugitiva,
A único respeito, tomar com acuro
Um fadário apagado de perspectivas
II
Ao meu semblante prefere-se o nada, diante das vãs venturas
Pois se é hábito e desconcerto sempre padecer,
Coerente é, por esses horrores, nunca me ater
Para que não lastime o infinito desta amargura
Esta angústia vazia que na miséria perdura
Sufocando meu espírito em sofrer,
Vede a todos dura sentença! É preferível já não ser,
Que fugir do fim que, em descrença, meu corpo procura
Se Dido no desalento, por Eneias, deixa vida,
Estou cá, em silêncio de alma desvarrida
A cessar aos vermes o que vivo eternamente
Em álgido lamento, pude cantar nesta partida,
Algumas rimas de mi'a face enlanguescida,
Em que pude prezar da morte seu beijo unicamente
May 30, 2017
May 30, 2017 at 10:29 PM UTC
Tenho me permitido às mágoas, os sonhos perdidos,
Quando, na garganta, sinto vaga embriaguez aflita,
Cuja glória extinta de um moribundo imita
Em insurreições e alternos sentidos já lidos
Como fere-me este desespero parido!
Explicito nesta consciência insistentemente maldita
A expressão, trêmula, ébria e inaudita
De meu materializado relato interrompido
Ah! Indefinida sombra que se enfeita
Por que teu escuro movimento me espreita,
Se minha aguça voz abate-se em calabouços?
Interrogo-me à esta paixão imperfeita:
Para onde vai minha alma tão desfeita?
E primitivamente, apenas o silêncio ouço
Jun 26, 2017
Jun 26, 2017 at 7:37 PM UTC
Em gracioso sonho, a neblina calada e fria
Recobre o sol, cujo brilho ilumina a solidão
Por vezes, a desatar na paisagem luzidia,
O que brevemente, tudo se verá como ilusão,
Dúvida, que flore devaneios e à realidade esguia,
Ludibria mil consciências em tua tátil escuridão
Para ao remate, subtrair os desejos à sorte fugidia,
E teu manto encher-te dos homens a servidão
Destino, dúvida, hediondo engano;
Que natureza sorri e cisma perdida,
Ao teu feitio de lástima precedida?
Qual força além do fraco humano,
Cuja força estaca à eternidade concedida,
Fará minha mente, neste sonho, esculpida?
Feb 2, 2018
Feb 2, 2018 at 1:02 AM UTC
Na visão lúgubre dos trigais
Subiram pássaros negros aos milhares
Suspendendo voos frenéticos diante a tais
E ensurdecendo alvoreceres aos seus cantares
De tal assombro, vislumbrei jamais
Um abismo obscuro aos puros ares,
A desaguar despercebidas sombras imortais
Desprendendo as primaveris cores luminares
– Vertigem sóbria, encravo de delírio,
Este céu que se expõe é engano,
Cuja chama esplendorosa é terror tirano
Como condena-me surdo martírio!
Não são campos aprazíveis, é pavor inumano
É nuvem sem primor, é o amanhecer arcano
Nov 14, 2017
Nov 14, 2017 at 1:20 PM UTC
Sou uma máquina emocional
Cuja busca pelo racional
Levou me a um buraco fundo e espesso
Onde arranco e arremesso
Pedaços de mim e de quem eu já fui
Mar 18, 2017
Mar 18, 2017 at 11:39 AM UTC
São quatro e vinte da madrugada
E o fraco ainda resiste.
O dia nasce não tarda
E continua a sina daquele triste.
Será ele um poeta,
Um que se viu de alma abandonada
Ou um cuja profissão é a mais antiga que existe?
O seu coração pinga solidão, que se tenta encobrir,
Fundida pela malfadada escuridão que o rodeia
E que goza do ferir.
O vagabundo olha à volta como se tivesse casa cheia
E ouve, gota a gota, a gota, abusadamente, cair.
Repete-se todas as noites a ladainha
No aconchego de sua cama quentinha.
Para este fraco, viver é ousadia.
Limita-se a existir e até isso é um ultraje.
Vê o sol que na janela luzia;
Vai ao espelho ver se este lhe traz
Aquele brilho que outrora o seduzia
E que há muito não o via.
Depara-se com o rotineiro:
O pesar do vazio corriqueiro
Que em forma de sombra breu
Sobre si subtilmente desceu.
Fatalidade que o destino por si escolheu.
É este o tal fado
De quem não se sente satisfeito
Nem é valorizado
P'las cicatrizes que carrega ao peito.
Dizem que tem vida de vadio.
Terminará o triste por rir
De quem um dia dele se riu?
É esta a "pseudoprofecia"
Que o acompanha noite e dia.
É só mais um que não vive o ultraje que é existir.
May 1, 2018
May 1, 2018 at 4:15 PM UTC
Ó Deusa vestida de espumas
cuja pele traz a leveza de plumas
transbordando pelos poros cas-
catas e inundas de prazer
Ó Afrodite de múltipla alma e ser
és teu parecer a explosão calma
quando teu corpo naufraga mare-
sias ao entardecer
Devotos entregam maçãs e ostras
conchas, flores tantas nos votos
eternos epítetos e formas canta-
rolam ao mar teus fogos
Ó amor que aceita a todos
seja nos ritos, mortais ou monstros
de mulheres e homens lava os cora-
ções aflitos e mudos
Ó Cípria e Safo, elevarão o amor que há em tudo
[inspirada na métrica do fragmento 2d. de Sappho]
Oct 27, 2019
Oct 27, 2019 at 8:27 PM UTC