#tempestade
No princípio era o xisto.
E o xisto era duro.
E o xisto permanecia.
E o Homem subiu à montanha com ferro na mão
e fé no peito,
e rasgou a pedra
como quem abre a terra para que dela nasça promessa.
E viu que era bom.
Porque do pó nasceu socalco.
Do socalco nasceu vide.
Da vide nasceu vinho.
E do vinho nasceu memória.
E a memória fez-se sangue.
Mas vieram as tempestades.
E levantaram-se ventos como juízo antigo.
E a água desceu em fúria,
como se quisesse apagar o nome escrito na encosta.
E os muros tremeram.
E as pedras caíram.
E as videiras inclinaram-se como guerreiros feridos.
E houve silêncio sobre o vale.
E disse a montanha:
“Quem és tu para me enfrentar?”
E respondeu o homem do Douro:
“Sou aquele que permanece.”
Porque a nossa carne é feita de xisto.
O nosso silêncio é mais antigo que a tormenta.
E a nossa raiz desce onde a enxurrada não alcança.
Pode cair o muro.
Pode rasgar-se o talude.
Pode o vento uivar como lobo sobre a noite.
Mas a raiz…
A raiz é pacto.
A raiz é aliança.
A raiz não se rende.
E quando a tempestade se retira,
e o sol volta como misericórdia sobre as encostas,
erguemo-nos.
Pedra sobre pedra.
Mão sobre mão.
Geração sobre geração.
Porque o Douro não é apenas terra.
É juramento.
É testemunho.
Não é líquido.
É verbo.
É resistência tornada eternidade.
E enquanto houver raiz no xisto,
haverá Douro.
E enquanto houver Douro,
haverá vinho.
E enquanto houver vinho,
haverá memória.
Victor Marques
Douro
Portugal
Feb 19
Feb 19, 2026 at 1:41 AM UTC