#orao
O Verbo do Xisto
Nas fendas do xisto, onde se reza,
Escreve Deus o destino da minha solidão,
Entre o suor do homem e a luz da Natureza,
O vinho nasce em forma de oração.
Pelo nevoeiro sagrado, em silêncio ungido,
A alma apura o que a terra consagrou.
É o btilho da rocha, em bago contido,
Que a minha mão com fé guardou.
Na adega escura, onde o tempo descansa,
O mosto apura o silêncio e a cor.
Ouro e rubi, numa eterna aliança,
Fruto da espera do baco criador.
Não beba apenas o fruto ou o tempo;
Beba o mistério, sinta o universo.
Pois em cada gota, neste exato momento,
O vinho que bebe deixa de ser prova é verso.
Victor Marques
Douro
Mar 17
Mar 17, 2026 at 12:51 AM UTC
Oração da Resistência e do Chão Duriense
Nossa Senhora dos Remédios,
Vós que contemplais o Douro das alturas,
que conheceis o desenho de cada socalco e o rosto de cada homem cansado,
sabeis que nesta terra nada se recebe sem entrega.
Aqui, cada passo é uma subida. Cada colheita, um ato de esperança.
Cada ano é confiado a Deus antes de ser entregue aos homens.
Em Lamego, firmou-se uma promessa:
A de subir o Vosso monte com a humildade de quem trabalha
e a fé de quem não abandona o seu posto.
Hoje, essa fé traduziu-se num gesto de justiça.
Defender a nossa terra é um ato sagrado.
Exigir que o Vinho do Porto e o Moscatel sejam selados com a aguardente do nosso próprio chão é mais do que uma lei:
É respeitar a Criação.
É honrar as mãos que podam e colhem.
É não trair o legado que nos foi confiado pelos nossos antepassados.
Aos viticultores do Douro, deixo esta certeza:
O Céu testemunha quem resiste.
E o Douro guarda o nome de quem não o abandona.
Ao Deputado Filipe Sousa, este reconhecimento:
Quando a palavra é habitada pela fé e confirmada pela ação,
o povo reconhece.
E a terra agradece.
Que esta decisão seja o início de um novo caminho.
Que a promessa se cumpra no suor e no pão.
E que nunca nos falte a coragem para subir quando a encosta for mais íngreme.
Porque no Douro sabemos:
Quem caminha com fé e verdade, nunca caminha sozinho.
Victor Marques
Douro 🍷
Portugal
Filipe Sousa
Jan 31
Jan 31, 2026 at 1:13 PM UTC
Onde o Vinho é Oração
No Douro, o tempo é um rio que não sabe voltar,
Corre entre as fragas, levando o que o sol quis dar.
Nascemos do xisto, pequenos, em busca de luz,
Carregando o sonho que, às vezes, também é cruz.
A lua, essa vigia de prata em noite de frio,
Espreita o cansaço do homem, o espelho do rio.
Há uma saudade que fica, gravada na mão,
De quem partiu cedo, deixando um vazio no chão.
Mas olha a videira: no inverno parece morrer,
Entrega-se à terra para de novo nascer.
Assim foi o Cristo, no pão e no sangue do jarro,
Lembrando que o Espírito habita este vaso de barro.
Queremos ser grandes, o mundo queremos medir,
Mas somos apenas a uva que o tempo há de espremer.
A paz só floresce na alma de quem se ajoelha,
E aceita a vida, perante o Eterno, é centelha.
Que o canto das aves nos trás a calma devida,
Pois a morte é apenas o verso final desta vida.
Descanso no Pai, sem medo e sem dor,
Como a vinha que espera o podador.
Victor Marques
Douro Valley
Jan 13
Jan 13, 2026 at 5:26 PM UTC