#chuva
Perguntar donde vens com sentimentos,
Cabelos soltos aos ventos.
Perguntar ao mundo que sentiste,
Brisa amena que pediste.
Quando acordo e na janela espreito,
Olho o vento que parece desfeito.
Tocando baladas em qualquer sino,
Tirando mágoas do próprio destino.
Olha aves sedentas de voar,
Esvoaçam sobre o teu olhar.
Pinheiros verdes,meios partidos ,
Rosa dos ventos de sonhos vividos.
Deixas as ondas do mar com zumbido,
Fustigadas sem porto , nem abrigo.
És bom vento que madrugas no além ,
Com a chuva que nos quer bem.
Victor Marques
Feb 1, 2024
Feb 1, 2024 at 1:26 PM UTC
No princípio era o xisto.
E o xisto era duro.
E o xisto permanecia.
E o Homem subiu à montanha com ferro na mão
e fé no peito,
e rasgou a pedra
como quem abre a terra para que dela nasça promessa.
E viu que era bom.
Porque do pó nasceu socalco.
Do socalco nasceu vide.
Da vide nasceu vinho.
E do vinho nasceu memória.
E a memória fez-se sangue.
Mas vieram as tempestades.
E levantaram-se ventos como juízo antigo.
E a água desceu em fúria,
como se quisesse apagar o nome escrito na encosta.
E os muros tremeram.
E as pedras caíram.
E as videiras inclinaram-se como guerreiros feridos.
E houve silêncio sobre o vale.
E disse a montanha:
“Quem és tu para me enfrentar?”
E respondeu o homem do Douro:
“Sou aquele que permanece.”
Porque a nossa carne é feita de xisto.
O nosso silêncio é mais antigo que a tormenta.
E a nossa raiz desce onde a enxurrada não alcança.
Pode cair o muro.
Pode rasgar-se o talude.
Pode o vento uivar como lobo sobre a noite.
Mas a raiz…
A raiz é pacto.
A raiz é aliança.
A raiz não se rende.
E quando a tempestade se retira,
e o sol volta como misericórdia sobre as encostas,
erguemo-nos.
Pedra sobre pedra.
Mão sobre mão.
Geração sobre geração.
Porque o Douro não é apenas terra.
É juramento.
É testemunho.
Não é líquido.
É verbo.
É resistência tornada eternidade.
E enquanto houver raiz no xisto,
haverá Douro.
E enquanto houver Douro,
haverá vinho.
E enquanto houver vinho,
haverá memória.
Victor Marques
Douro
Portugal
Feb 19
Feb 19, 2026 at 1:41 AM UTC
Com passos descalços na chuva..
a chuva,
a noite,
e esse lugar estranho e íntimo
onde eu existo
sem precisar ser visto.
Eu existo nesse intervalo:
entre uma gota e outra,
entre um pensamento e o próximo.
Nada me chama,
nada me prende
sou apenas presença,
Nu, silencioso,inteiro.
Fecho os olhos
E fico,
Sinto.
As gotas descem rápidas,
cruzam meu campo de visão,
A chuva cai direto no meu rosto,
e eu fico ali, parado,
olhando o céu como se ele estivesse mais perto.
…e por um momento,
sou só corpo e sensação,
debaixo de um céu que não para.
Apr 3
Apr 3, 2026 at 1:59 PM UTC
O Pacto do Xisto
Na encosta onde o tempo se perde,
E o sol grava brasas no chão,
O homem parece que ferve ,
Com tanta chuva, silêncio e tensão.
O Douro não nasce revela-se lento,
Num ventre de xisto partido em dor;
Cada muro erguido é um juramento,
Cada vinha plantada é um acto de amor.
Degraus de esperança talhados na rocha,
Escadas que sobem ao céu azulado.
São mãos que o destino desabrocha,
São séculos vivos num gesto calado.
O mau tempo desce em fúria que perdura
Se o vento açoita e à rocha tira o verniz.
É o homem que firma a sua postura,
Com a fé l de quem sempre o Douro quis.
"A terra é minha porque me fez!"
Não por posse, mas por pertença sagrada;
Foi ela que ensinou assentar dos pés,
E moldou cada socalco da alma lavrada.
Não é só vinho o que verte no copo,
É sangue tornado clarão,
É o grito do vale que sobe ao topo,
É eternidade em fermentação.
Do fundo do vale à crista dourada,
Corre uma aliança que o tempo não quebra:
O homem e a montanha mesma jornada,
Mesmo silêncio que arde e celebra.
Enquanto houver xisto e fé profunda,
Enquanto o sol beijar a videira nua,
Haverá Douro memória fecunda,
E um vinho que guarda o mundo na sua.
Victor Marques
Douro
Portugal
Feb 19
Feb 19, 2026 at 2:04 AM UTC