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#antnio
​O Testamento do Xisto e da Vide ​Em memória de António Alexandre Marques ​No anfiteatro de pedra, onde o tempo se demora, O sol, monarca de brasa, se deita e cora; Amadurece o bago, inflama-se o horizonte, Enquanto o passado murmura na água da fonte. Sou herdeiro do gesto, do suor e da lida, Onde a vide é o mastro que sustenta a vida. ​Subo socalcos, degraus para o céu, Rasgando a névoa que o Douro faz véu. Revejo as mãos de meu pai calos de memória, E o rasto do avô gravado na história. Não plantaram apenas bagos na terra agreste: Semearam raízes no xisto celeste. ​Nas veias do rio, onde o xisto é senhor, Consagro o meu passo, herdeiro da dor. De um pai que foi tronco, de um avô que foi feliz, Num reino de Baco que o silêncio bendiz. António Alexandre, no plano invisível, Vigia o lagar num zelo indizível. ​Oitenta e dois faria, se o fado deixasse, Mas vive no vinho que em mim renasce. O frio do granito acolhe o meu passo, No ventre da adega, em terno abraço. Onde o bago se rompe, o mistério se expande: Não há força humana que ali não comande. ​Pisa-se a uva, esmaga-se o medo, Extraindo da casca o mais íntimo segredo. E as flores da encosta, no odor do engaço, Dão alma ao perfume que marca o meu traço. Assisto ao milagre: a vide que chora, Lágrima pura que a terra devora. ​É o sangue dos velhos, místico e profundo, Que pulsa no centro secreto do mundo. Não guio apenas a pena ou o arado, Sou eco vivente de um tempo sagrado. Se o pai partiu num Setembro de luz, Cada Novembro o meu verso o traduz. ​Sou o Vigneron, o bardo da vinha, Buscando na terra a rima divina. O passado é lume, o presente é a lenha, O futuro é a marca que o Douro desenha. Nada se apaga no reino do pai: Onde a vida se colhe, a morte se esvai. ​Neste império sagrado de pedra e de fé, O que foi Alexandre... Victor ainda o é. ​ Victor Marques
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Feb 13
Feb 13, 2026 at 8:02 AM UTC
O Testamento do xisto e da vide
​O Testamento do Xisto e da Vide ​Em memória de António Alexandre Marques ​No anfiteatro de pedra, onde o tempo se demora, O sol, monarca de brasa, se deita e cora; Amadurece o bago, inflama-se o horizonte, Enquanto o passado murmura na água da fonte. Sou herdeiro do gesto, do suor e da lida, Onde a vide é o mastro que sustenta a vida. ​Subo socalcos, degraus para o céu, Rasgando a névoa que o Douro faz véu. Revejo as mãos de meu pai calos de memória, E o rasto do avô gravado na história. Não plantaram apenas bagos na terra agreste: Semearam raízes no xisto celeste. ​Nas veias do rio, onde o xisto é senhor, Consagro o meu passo, herdeiro da dor. De um pai que foi tronco, de um avô que foi feliz, Num reino de Baco que o silêncio bendiz. António Alexandre, no plano invisível, Vigia o lagar num zelo indizível. ​Oitenta e dois faria, se o fado deixasse, Mas vive no vinho que em mim renasce. O frio do granito acolhe o meu passo, No ventre da adega, em terno abraço. Onde o bago se rompe, o mistério se expande: Não há força humana que ali não comande. ​Pisa-se a uva, esmaga-se o medo, Extraindo da casca o mais íntimo segredo. E as flores da encosta, no odor do engaço, Dão alma ao perfume que marca o meu traço. Assisto ao milagre: a vide que chora, Lágrima pura que a terra devora. ​É o sangue dos velhos, místico e profundo, Que pulsa no centro secreto do mundo. Não guio apenas a pena ou o arado, Sou eco vivente de um tempo sagrado. Se o pai partiu num Setembro de luz, Cada Novembro o meu verso o traduz. ​Sou o Vigneron, o bardo da vinha, Buscando na terra a rima divina. O passado é lume, o presente é a lenha, O futuro é a marca que o Douro desenha. Nada se apaga no reino do pai: Onde a vida se colhe, a morte se esvai. ​Neste império sagrado de pedra e de fé, O que foi Alexandre... Victor ainda o é. ​ Victor Marques
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