Grito de Pedra e Luz
Nas fragas do Douro profundo,
ouve-se um lamento que percorre o mundo.
Não vem do rio, nem do vento a passar,
vem da terra ferida que insiste em me chamar....
Chama pelo homem de mãos consumidas,
que semeou esperança por entre as encostas erguidas.
Chama pelo suor que regou cada videira,
e pela verdade que incomoda a terra inteira.
Ó Douro sagrado de pedra e de luz,
onde o xisto rasga e a coragem conduz,
quem te escuta ao longe vê ouro e beleza,
mas quem vive contigo conhece a tristeza.
Vejo sombras subindo o meu caminho,
como espíritos guardando o vinho.
Entre marcos de pedra e socalcos sem fim,
parece que Pombal ainda fala por mim.
"Dizei aos poderosos", murmura o vento,
"que a terra não vive de mero argumento.
Não bastam discursos, promessas ao luar,
quando o homem da vinha já não pode ficar."
E o rio responde num canto profundo:
"Quem abandona o Douro perde o mundo.
Quem esquece o lavrador e o seu valor,
mata a paisagem, a memória e a cor.
As videiras rezam quando a noite desce,
cada folha é uma alma que não se esquece.
Cada bago encerra um mistério vivido,
um pacto entre Deus e o que o Douro tem sofrido.
Mas há quem troque a essência pela ilusão,
quem venda a herança por pouca razão.
E o vinho chora no silêncio da adega,
quando a verdade se afasta e a ganância se apega.
As nossas raízes descem mais fundo que a dor,
procurando na pedra a nascente do amor.
E quando tudo parece perdido e sem fim,
Eu ergo o cálice Do Douro e louvo a Deus que habita em.mim.
Victor Marques
Douro
Portugal