Ó gente da minha terra…
Escutai o rio a correr
como um velhinho a adormecer.
Não é somente água e desilusão
nem socalco ou tradição .
O Douro é corpo sagrado,
por mãos divinas moldado.
Há vozes presas no xisto,
há sombras do próprio Cristo,
Há passos pelos caminhos
entre cepas e espinhos.
Quando o nevoeiro cai
e o vento no vale vai,
ouve-se um murmúrio profundo
como o respirar do mundo.
É o Douro… lento e calado,
rei nunca derrotado,
que viu o tempo passar
sem jamais se ajoelhar.
Ó terra de fogo e vinha,
de dor que nunca definha,
cada cepa tem memória,
cada bago guarda história.
Tem nas mãos o sofrimento
e nos olhos sempre o firmamento.
Quem nasce nestas encostas
traz estrelas sobrepostas
na alma feita de sentimento,
de solidão e alento.
E quando setembro desce
e o vale inteiro estremece,
o mosto canta no lagar
como um Santo sobre o altar.
Há qualquer coisa divina
na luz dourada da vindima…
como se anjos viessem ver
o vinho novo a nascer.
Porque o vinho do Douro
não vale apenas ouro
vale lágrimas sentidas
silêncios, fome e cantigas.
Nasce da mulher que espera,
da geada e da primavera,
das promessas junto ao rio,
das noites de calor e frio.
Mas mesmo cansado o povo
faz do desespero renovo.
Mesmo ferido resiste,
mesmo em lágrimas insiste.
Porque o duriense não verga
quando a vida se carrega.
Tem fundações na eternidade,
na pedra e na verdade.
Ó gente da minha terra duriense
nenhuma força oculta nos vence,
Sem vós o Douro era vazio,
sem alma, sem voz, sem rio.
E quando o mundo esquecer
quem vos ajudou a erguer,
as vinhas irão falar
e o próprio vento lembrar:
Que houve um povo neste mundo
dos mais nobres com sentimento profundo,
que fez vinho com coração
e da dor uma eterna oração.
E enquanto houver uma videira,
uma enxada verdadeira,
um duriense olhando o horizonte
ou uma luz atrás do monte…
O Douro jamais morrerá.
Porque Deus ainda está lá.
Victor Marques
Douro