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O Douro mora em mim

O Douro Mora em Mim

 

Antes que a noite me feche por dentro,

o Douro respira com seu encanto

Não é rio é presença,

ferida aberta na própria essência.

 

Pedra que pensa sem voz nem rumor,

xisto em oração, matéria e dor.

E entre os socalcos, suspenso e profundo,

o tempo esqueceu o nome do mundo.

 

Aqui a montanha não fala escuta.

E o silêncio desce em forma absoluta.

Nem Deus se anuncia: apenas permanece

no intervalo onde tudo acontece.

 

O rio não corre recorda o seu ser,

como se fosse memória a nascer.

Leva nos ombros séculos calados,

gestos de homens em sombra lavrados.

 

Não há fronteira entre terra e destino:

tudo é passagem, sopro divino.

E cada vinha, em lenta ascensão,

é uma escada feita de oração.

 

Quando a noite cobre o vale ferido,

o visível torna-se apenas ruído.

E o invisível mais real do que o chão

respira dentro da própria criação.

 

E eu, dissolvido na margem amiga

já não sou forma, nem voz que se diga.

Sou intervalo, ausência e clarão,

algo que flui sem direção.

 

Victor Marques

Douro

Portugal

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Written by
victor-marques
Portuguese
Published
May 17
Lines·Words
32·184
Tags
#douro#rio#vinho#amor
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