O meu Douro murmura baixinho
A luz sobe lenta do ventre da serra,
como um salmo nascido da terra.
O vale em silêncio ajoelha primeiro,
e Deus passa oculto no meio do nevoeiro.
O xisto desperta em brasa calada,
memória do mundo na rocha gravada.
Não é pedra morta, nem sombra vazia:
é carne do cosmos bebendo a luz do dia.
Há vozes ocultas na vinha dormente,
há raízes rezando debaixo da gente.
Descem ao fundo da noite fechada
buscando a nascente da água sagrada.
Cada socalco parece um altar,
suspenso entre abismo, céu e luar.
E o homem que sobe as encostas do vento
leva nos ombros o peso do tempo.
No lagar de sombra e suor,
o vinho começa o caminho da dor.
Os pés sobre o mosto, lentos, profundos,
parecem chamar os mortos outra vez ao mundo.
Escuta-se um cântico vindo do chão,
mistura de cansaço ,vinho e oração.
O xisto soluça na uva esmagada,
como alma por Deus visitada.
Há um pacto secreto na rocha e no céu,
entre a videira e o fogo cruel.
O Douro não grita murmura baixinho
o nome divino escondido no vinho.
Ser duriense é morrer devagar,
para que a terra nos possa habitar.
É dar o próprio corpo à montanha ferida,
e beber do silêncio o sentido da vida.
As mãos já não sabem de orgulho ou vaidade,
apenas conhecem o peso da eternidade.
O tempo atravessa a carne cansada,
como uma profecia na noite já passada.
Aqui tudo volta ao primeiro clarão:
o barro, o homem, a videira e o pão.
E Deus desce ao mundo onde eu estou e existo,
fazendo do Douro o seu corpo em Cristo.
Porque no fim, quando a luz se desfaz,
e o rio adormece na sombra da paz,
fica somente o eterno registro:
Deus,
o Homem,
o Vinho,
e o Xisto.
Victor Marques
Douro
Portugal