Fidelidade a Deus e ao Xisto
A luz rasga a fraga antes do primeiro fôlego,
E o silêncio do vale faz-se templo de Deus.
O xisto não é pedra: é o corpo do cosmos,
Que guarda os segredos que nunca foram seus.
Há uma liturgia oculta em cada socalco,
Onde a raiz desce ao abismo da terra.
Procura a água no centro do mundo,
Na noite profunda que a montanha encerra.
O homem que pisa o lagar não está só,
Comunga o mistério do sangue divino.
O mosto que escorre é o pranto do xisto,
Que cumpre, na sombra, o seu místico destino.
Há um pacto de silêncio entre o céu e a lousa,
Uma prece sem palavras que a videira grita:
Ser duriense é ser o altar e a oferenda,
Onde a carne humana na rocha habita.
Despem-se as mãos do orgulho da terra,
Entrega-se a alma ao sopro do vento.
Aqui, a matéria regressa ao início:
Deus, o homem e o xisto num só elemento.
Victor Marques