Hello PoetryVoting

Vote

Voting-Boards

Home

HomeFollowingInboxNotifications

Read

ReadLiftedFeedsHeartedHistoryMy poemsNew poem

Explore

ExploreOrbitsWordsTagsClassics
Log in
0
Stars
0
Embers
0
Alerts
0
Inbox

Vote

Voting-Boards

Home

HomeFollowingInboxNotifications

Read

ReadLiftedFeedsHeartedHistoryMy poemsNew poem

Explore

ExploreOrbitsWordsTagsClassics
Log in
0
Stars
0
Embers
0
Alerts
0
Inbox

O Douro est a ser vendido

O DOURO ESTÁ A SER VENDIDO EM COPOS DE CRISTAL ENQUANTO O VITICULTOR MORRE NA VINHA

 

Há qualquer coisa de profundamente obsceno no silêncio que cobre o Douro.

O mundo inteiro fotografa estas encostas como se fossem eternas.

Os barcos sobem o rio carregados de turistas.

Os hotéis anunciam “autenticidade”.

As garrafas atingem preços de luxo.

Mas o homem que segura esta montanha com as próprias mãos começa a desaparecer.

Não por falta de amor à terra.

Não por preguiça.

Não por incapacidade.

Desaparece porque já não consegue sobreviver.

O Douro transformou-se num paradoxo cruel: uma região milionária construída sobre produtores empobrecidos.

Cada socalco que deslumbra o mundo foi arrancado ao xisto por homens que trabalharam debaixo de 40 graus, carregaram pedras às costas e aprenderam desde crianças que a vinha não perdoa distrações.

Aqui não existe agricultura romântica.

Existe sobrevivência.

Existe o corpo destruído pelas podas de inverno.

Existe o medo silencioso da próxima vindima.

Existe a conta bancária vazia ao lado de vinhos premiados internacionalmente.

E depois perguntam porque morrem as pequenas quintas.

Morrem porque o Douro passou a ser tratado como cenário, não como território humano.

A UNESCO protegeu a paisagem.

Mas ninguém protegeu o viticultor.

Hoje vendem o Douro como experiência sensorial enquanto expulsam lentamente aqueles que lhe deram alma durante séculos.

Transformaram o Vigneron num figurante turístico: um homem para aparecer na fotografia, servir um copo e desaparecer em silêncio da história.

Em 1972 adulteravam o vinho.

Em 2026 adulteram algo muito mais grave: a verdade.

Porque vinho sem povo é apenas indústria com marketing elegante.

E atenção ao que aqui fica escrito:

No dia em que o último pequeno produtor abandonar estas encostas, o Douro continuará bonito.

Os hotéis continuarão cheios.

Os barcos continuarão a navegar.

As garrafas continuarão caras.

Mas o espírito terá morrido.

Restará uma paisagem perfeita construída sobre um cemitério social.

Um museu agrícola sem agricultores.

Um vinho sem memória.

O Douro nunca pediu piedade.

Pediu apenas justiça: preço justo para a uva, dignidade para quem trabalha a montanha, e respeito por aqueles que ainda acreditam que a terra não é um ativo financeiro é sangue, herança e identidade.

Se este texto incomoda, ainda bem.

É porque o Douro verdadeiro ainda respira debaixo das campanhas de marketing.

Mas se depois de ler isto continua apenas a ver uma paisagem bonita, então talvez já faça parte da engrenagem que está a matar lentamente a alma da região.

Porque o Douro não morre de uma vez.

Morre em silêncio. Morre devagar. Morre enquanto o mundo aplaude a vista.

 

Victor Marques

Douro

Portugal

 

Este artigo é dedicado aos nossos antepassados durienses que ropmperam o xisto com picaretas.

Request permission to use this poem
Written by
victor-marques
Portuguese
Published
May 28
Lines·Words
47·443
Tags
#douro#produtor#vinho
Permission

Request to use this poem

Tell victor-marques how you would like to use it. We review requests before forwarding them.

AboutBlogFAQPrivacyTermsContact
© 2009-2026 Hello Poetry/v27.0 by @eliotyork
Explore
Hello PoetryVoting
Write