Eu Escuto o Xisto
Há quem olhe para o Douro e veja uma paisagem.
Eu vejo rostos.
Vejo mãos marcadas pelo trabalho.
Vejo vidas inteiras entregues à montanha.
Vejo homens e mulheres que, geração após geração, transformaram a pedra em esperança e o suor em património.
Nasci para amar esta terra.
Não apenas pela beleza que encanta o mundo, mas pela verdade humana que nela habita.
Quando caminho entre as vinhas, não caminho sozinho.
Caminho acompanhado pela memória dos que vieram antes de nós.
Escuto os seus passos nos socalcos.
Escuto o eco das suas enxadas.
Escuto os seus sonhos e os seus sacrifícios.
Escuto o xisto.
E o xisto fala.
Fala das lutas vencidas.
Fala das dores escondidas.
Fala da coragem silenciosa de um povo que nunca esperou facilidades da vida.
Hoje, porém, sinto que essa voz corre o risco de ser abafada.
O Douro é celebrado nos quatro cantos do mundo.
Os seus vinhos são admirados.
A sua paisagem é fotografada.
O seu nome é pronunciado com respeito.
Mas muitas vezes esquecemo-nos daqueles que tornam tudo isso possível.
Esquecemo-nos do homem da terra.
Da mulher da vinha.
Da família que resiste.
Da aldeia que luta para permanecer viva.
Por isso escrevo.
Não para procurar reconhecimento.
Não para alimentar protagonismos.
Mas porque acredito que o silêncio, perante a injustiça, seria uma forma de abandono.
Escrevo porque amo o Douro.
Escrevo porque acredito que uma região não pode sobreviver apenas da sua beleza.
Precisa de dignidade.
Precisa de futuro.
Precisa de gente.
O Douro não é apenas uma região vinhateira.
É uma civilização construída ao longo de séculos.
É uma herança que recebemos emprestada dos nossos antepassados e que temos o dever moral de entregar aos nossos filhos.
Se um dia as minhas palavras tiverem algum valor, desejo apenas que sirvam para recordar esta verdade simples:
Nenhum vinho vale mais do que as pessoas que o tornam possível.
Nenhuma paisagem vale mais do que a comunidade que a preserva.
Nenhuma riqueza vale mais do que a dignidade humana.
Enquanto tiver voz, continuarei a defender esta terra.
Enquanto tiver força, continuarei a acreditar nela.
Porque o Douro não vive apenas nas encostas, nas adegas ou nas garrafas.
O Douro vive na alma do seu povo.
E essa alma merece ser defendida.
Victor Marques
Douro