Quando Deus Desperta o Douro
No primeiro sopro da luz,
antes do tempo ter nome,
o Douro desperta e reluz
quando o mundo ainda dorme.
O rio não nasce hoje,
renasce na pedra que o chama,
e em cada curva onde foge
há um murmúrio que o inflama.
Como uma prece que tudo inunda,
que Deus repete à terra em segredo,
a névoa sobe, lenta e profunda
como incenso perdido no medo.
As vinhas, em socalcos de idade eterna,
não se inclinam ao sol que as aquece
inclinam-se à força interna
do mistério que ali amadurece.
Hoje, cinco de junho. O ar é sagrado.
Não é manhã é presença, é altar.
Deus passa no xisto calado,
sem forma, sem nome, sem ficar.
E tudo se curva à Sua passagem:
a folha treme no mais leve sinal,
a água veste outra linguagem,
e a vinha silencia o seu ritual.
O rio não corre ,o rio reza.
Cada gota é palavra sem voz.
No coração da humana incerteza,
o tempo dissolve-se entre nós.
Os homens dormem. O mundo escuta.
A vinha desperta em fé silenciosa.
Na cepa tocada pela força absoluta
nasce a promessa mais misteriosa.
Não é só uva, não é só colheita.
É algo maior que a mão pode conter.
É a terra em oração perfeita
a lembrar me do que eu tenho que dizer
E então compreende-se, no olhar que se estende:
o Douro não é paisagem é revelação.
É um altar aberto onde o céu se acende,
e Deus caminha em silêncio em procissão.
Victor Marques
Douro
Portugal